Tuesday, 6 December 2011
PRIMEIRO RETRATO DO NATURAL
Ela queria perceber o que se passa.
Queria?
Passa a rua às risadas.
«Uscumunistas?»
Gritam flores da jarra.
Estão inocentes?
O telefone terrinta.
É o destino?
Na bandeja de prata, o sedativo.
Por tomar?
Na sala das porcelanas, a senhora.
Por viver.
*
De sentinela à porcelana
está Inês ou Teresa ou Ana
(Maria, deixa-se ver).
Tem à mão uma bengala
para o que der ou vier:
«Se os bolchevistas entrarem,
vão ver, vão ver!
As porcelanas inteiras
é que eles não hão-de ter!»
*
Porcelana implora
Senhora insiste.
Até que a levam prà cama,
pauzinho em riste, zangada.
É uma terrina vazia
que em sonhos se suicida
à bengalada.
Alexandre O'Neill
Saturday, 3 December 2011
E onde param os desaparecidos?
E onde param os desaparecidos,
os mortos enterrados sem ritos,
em silêncio, no escuro?
Que madeira tiveram para os seus caixões?
Que rezas amigas, que flores de homenagem?
Onde pára a sua seiva, a fonte de energia
que levou a noite a suprimi-los?
Terão eles a resposta?
É preciso encontrá-los, esses mortos.
Egito Gonçalves
Thursday, 1 December 2011
A solução religiosa
Muitos anos bissextos se passaram
em que adoraram o abutre negro
como se fosse do verdadeiros Deus
o seu criado-mudo.
Quando se iluminaram os estuques
do falso altar no qual se prosternavam
fulminou-os o espanto: «Impossível!
Tão longo erro, como acontecera?»
A fé remove cordilheiras. Agora
acreditam possuírem a verdade
e em Seu Nome a terem descoberto.
O passado? Partidas do Diabo!
Esquecem com água benta e «Tarrenegos!»
Egito Gonçalves
Wednesday, 30 November 2011
Expulso, e com razão
Eu cresci como filho
de gente abastada. Os meus pais puseram-me
um colarinho ao pescoço e criaram-me
nos costumes de ser servido
e ensinaram-me a arte de mandar. Mas
quando já era crescido e olhei à minha roda,
não me agradou a gente da minha classe,
nem o mandar nem o ser servido.
E eu abandonei a minha classe e juntei-me
à gente pequena.
Assim
criaram eles um traidor, educaram-no
nas suas artes, e ele
atraiçoa-os ao inimigo.
Sim , eu divulgo segredos. Entre o povo
estou eu e explico
como eles enganam, e predigo o que vai vir, pois eu
estou iniciado nos seus planos.
O latim dos seus padres corruptos
traduzo-o palavra a palavra para a língua comum,
e então se descobre que é tudo pantomina.
A balança das sua justiça
tiro-a pra baixo e mostro os pesos falsos.
E os seus informadores vão dizer-lhes
que eu estou com os roubados que conjuram
a revolta.
Admoestaram-me e tiraram-me
o que ganhei com o meu trabalho. E quando eu não melhorei,
deram-me caça, porém
já só havia
escritos em minha casa, que descobriam
os seus conluios contra o povo. E assim
perseguiram-me com um mandato de captura
que me acusava de opiniões baixas, isto é:
de opiniões dos de baixo.
Aonde chego, fico marcado
pra todos os possidentes, mas os que nada têm
lêem o mandato e
dão-me abrigo.
«A ti» - ouço eu dizer -
«Expulsaram-te eles, e
com razão».
Bertold Brecht
Sunday, 27 November 2011
Estou mais perto de ti porque te amo
Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
... Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
Joaquim Pessoa
Thursday, 24 November 2011
Edital
Já estão a funcionar os moinhos da morte,
prontos,
oleados,
com motores novos e peças de reserva.
A instrução militar é muito vagarosa
e é urgente inventar um novo método.
Ainda não há soldados bastantes este verão,
é preciso incorporar mais cedo.
Não é possível perder tempo, ouviram!
Os moinhos da morte estão prestes a iniciar a sua tarefa,
os depósitos de bombas estão repletos,
as rampas de lançamento distribuídas pelos pontos estratégicos.
Tudo está a postos para o próximo dia M.
Os soldados, porém, são ainda insuficientes.
É necessário acabar com os cursos de Botânica,
de Arqueologia, Belas-Artes e Direito Civil.
É preciso queimar os escritos de Malthus,
destruir o método de Ogino-Knaus,
fuzilar um ou outro poeta recalcitrante.
Não ouvem as velas dos moinhos cortando a atmosfera
nos últimos, definitivos, ensaios?
É necessário inventar uma gigantesca correia-sem-fim
que produza diariamente milhares de soldados,
que taylorize o exército e bata os recordes de produção.
Sábios, estudantes, estadistas, pais de família,
homens e mulheres de boa vontade,
onde quer que habitem
seja qual for o vosso trabalho,
parem de perder tempo, de tomar chá,
de jogar o xadrez, a canasta, a bisca lambida,
parem de ter ócios, ler jornais, fazer ginástica:
atendam este apelo desesperado;
dediquem-se à solução deste problema.
As Escolas de Guerra vão diminuir de dois anos o seu curso.
Os moinhos estão prontos.
Não querelem,
não discutam a Arte pela Arte,
não frequentem exposições:
transmitam-nos ideias - nada é desaproveitável.
A mais humilde sugestão,
a mais aparentemente inútil,
pode ser a faísca reveladora do Grande Acontecimento.
Na doença ou na saúde,
na febre delirante, no banho quente,
na praia, no consultório médico,
nas salas de espera, na paragem dos eléctricos,
trabalhem sem descanso,
tentem,
contribuam.
Não leiam livros, não ouçam música,
não pintem - É UMA ORDEM.
Trabalhem sem hesitação;
o problema é urgente.
Egito Gonçalves
Monday, 21 November 2011
Não canto porque sonho
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinha.
Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.