Tuesday, 16 June 2020

Pele


Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele


David Mourão-Ferreira

Monday, 15 June 2020

ÁFRICA


África do Congo,
África distante do Congo
distante...
África apertada, cingida,
no périplo do meu abraço:
nó dos meus pulsos
fechando o teu corpo negro
aberto para a minha ânsia.
Descoberta do acaso
das minhas navegações:
África perdida nos «cabarets»
com o teu riso branco de espanto
das civilizações.

Ó minha negra,
escrava humilde e fiel,
encontro do meu destino pirata...

Floresta nunca pisada;
virgindade das florestas virgens rasgada;
rosa desfolhada
como a tua boca no riso branco,
como o teu destino branco
na lotaria da vida.

Cadeia dos meus sentidos,
febre da minha aventura...

Roubei os diamantes do teu seio,
o oiro das tuas pulseiras,
e negociei tudo nas bancas!
Vendi as tuas terras
e os teus rebanhos,
derrubei as tuas florestas
e arrasei as tuas aldeias,
despovoei os teus reinos,
trocei as tuas crenças...

Veneno europeu...

Fiz dos teus filhos escravos
e, senhor do meu destino,
amarrei-te à minha sorte.

Veneno europeu...

Teu corpo de mapas,
neste leito do mundo,
quantas vezes o fiz meu...

Ris com esse riso de cartaz:
branco,
límpido,
fixo.
Ris.

O jazz toca um desses blues
- e o negro do cornetim
rasga o silêncio
com o seu grito de faca.

O eco fica bailando
no teu corpo
como o ramo das palmeiras...
das palmeiras lá do Congo.
O som cavo das marimbas
bate o compasso no fundo da música...

África civilizada,
vestida à moda das nações,
fazendo ouvir nos boulevards
a tua música de recorte primitivo.

Outros batuques distantes,
ouros batuques mais distantes
que me vêm no sangue
- o bater das marimbas foi que o acordou.

A virgem loira desfalece
nos barços de quem dançou.
A saxofone, do espanto
dos teus olhos, se entornou...

E o teu riso de cartaz,
branco
como marfim de amuletos,
brilha nos acordes do piano.

Capa de magazine:
A luz correu no teu corpo
que brilhou como uma lança...
Já não há lanças em África...
dança,
dança...
Já não há lanças em África,
já não há guerra,
já não há guerra...
- batuque de lanças quebradas,
batuques do Congo já não são de guerra!
Batuques de lanças quebradas:
batuques de guerra... não!

Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras...
- Yes, whisky and soda.

Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras:
África da colonização!

Joaquim Namorado

Friday, 12 June 2020

ROMANCE DE SEU SILVA COSTA


«Seu Silva Costa
chegou na ilha...»

Seu Silva Costa
chegou na ilha:
calcinha no fiozinho
dois moeda de ilusão
e vontade de voltar.

Seu Silva Costa
chegou na ilha:
fez comércio di álcool
fez comércio di homem
fez comércio di terra.

Ui!
Seu Silva Costa
virou branco grande:
su calça não é fiozinho
e sus moedas não têm mais ilusão!...

Francisco José Tenreiro

Tuesday, 9 June 2020

ROMANCE DE SAM MÀRINHA


Sam Màrinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.

Risadas brancas
e goles de champanhe!

À hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço di seda que importou do Japão!

Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha à terra.

Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando pra lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...

Francisco José Tenreiro

Saturday, 6 June 2020

Solidão


Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…

(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

Manuel da Fonseca

Wednesday, 3 June 2020

REFEIÇÃO


Estendemos a toalha
Trouxeste o pão, o vinho
Eu trouxe a fome, a sede o cansaço
E a mão para colher
A pureza espontânea do teu gesto
Que tem a dimensão do teu braço

Eu recebi
Tu deste
Compartilhámos.
Da refeição ficou o travo doce e bom do mel
E a certeza daquilo que está certo.

Maria Eugénia Cunhal

Monday, 1 June 2020

Che Guevara


Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra
De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen