Wednesday, 1 February 2012

Caxias 68

Luz recortada nesta manhã fria
muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
confirmado nas grades deste dia


Sophia de Mello Breyner Andresen

Monday, 30 January 2012

DUAL




Dois cavalos a par eu conduzia
Não me guiava a mim mas meus cavalos

E no país de espanto e de tumulto
em mim se desuniu o que eu unia


Sophia de Mello Breyner Andresen

Friday, 27 January 2012

TRADUZIDO DE KLEIST

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
e brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
são olhos apodrecidos


Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, 24 January 2012

Notícia para colar na parede


Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


Egito Gonçalves

Saturday, 21 January 2012

Os vegetantes


Continuam aqui
roendo as unhas!

Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.

Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.

Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradoiras urtigas, seixos
sem horizonte, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.

Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
«É a vida!», Sementes violadas
não germinam.

Em vão os bombardeiam os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para dar vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressacam.

E fazem do amor essa triste humidade,
um delíquio formal logo amortalhado.

São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.


Egito Gonçalves

Wednesday, 18 January 2012

Também aqui Vietnam


Cada manhã
recebemos no telégrafo o pão que nos impõem,
o que em agonia mastigamos vigiando
a dolorosa digestão: passará
nas tripas?

Leveda negro este pão da morte
a que não escaparemosNegrito
sem destruir esse forno de sombras
onde coze
a incurável ferida que rasgará as entranhas da terra.

Que outra coisa comer se é este o pão
que nos fere a gargaNegritonta a cada fome
onde quer que estejamos?

O tempo morde-nos os ossos. A tenaz
aperta-nos a voz sob os detritos.
Que casulo protege da farinha
assassina? Saiamos para a luz, Façamos
de toda a pedra bala
antes que o relâmpago irrompa e a música
seja o leve tombar da poeira radioactiva.


Egito Gonçalves

Sunday, 15 January 2012

APONTAMENTOS PARA UMA CANÇÃO, MAIS TARDE


Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
para os que aprendem geografia nos comunicados de guerra,
nas notícias dos jornais,
nos telegramas do estrangeiro...
para os jovens que aprendem nomes complicados
de pronúncia estranha
com o coração
com a esperança
com o desalento...
para os que, como eu,
e outros mais novos
sabem com os nervos onde fica Adis-Abeba e Guadalajara,
Guadalcanal, o golfo de Akaba, Birkenau e Dien-Bien-Puh...
para os que sabem tudo da mistificação de Munique
da destruição de Oradour
da configuração de Seul
da conspiração de Caracas
da reconstrução de Coventry
da punição de Nuremberga...

Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
terrível como um campo de trigo incendiado,
ardente como os povos que resistem,
para os que sabem
o essencial de Granada - o nome de Federico,
de Istambul - o nome de Nazim Hikmet,
de Buchenwald, Drancy, Auschwitz, os nomes de Desnos
Max Jacob
Fondane
etc., etc.
centenas de etceteras
cada um correspondendo a um nome válido,
a um pássaro morto.

Uma canção sanguinária como a religião dos Tughs,
insólita como a erecção dos enforcados,
para os que ligam o nome dos generais ao número de cadáveres,
sabem os locais onde operam os construtores de ruínas,
sofrem cólicas diante dos placards
e regressam a casa, solitários,
para comer a sopa de mais uma derrota
em que não intervieram.

Uma canção selvagem como os caçadores de escalpes,
destruidora como um terramoto japonês,
para os que sabem de cada crime o ponto certo no mapa
e aprendem, cada manhã, novos nomes invulgares
que lhes rebentam os ouvidos
como se deflagrassem bombas dentro da «paz» que habitam.
(Nomes que os turistas não encontram nos roteiros de viagens
que as Agências lhes fornecem com o prazer enlatado.)

Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
firme como as flechas da Morte,
para os jovens eruditos da Geografia
que sabem tudo sobre Hiroshima
e respiram - até quando? - ao ritmo de Oak Ridge.


Egito Gonçalves