Não peço o de ninguém.
Apenas o meu pão,
meu ar.
Apenas a flor,
o fruto do que fazem minhas mãos.
Jesus Lopez Pacheco
Wednesday, 6 July 2011
Canção dos que vivem das suas mãos
Sunday, 3 July 2011
Os grandes amigos
São como as árvores
de grande porte.
Quando elas partem
as raízes ficam
aquém da morte.
Luís Veiga Leitão
Friday, 1 July 2011
(A «INTERNACIONAL»)
Acabou o comício.
E, como de costume,
no final,
todos de braço dado cantámos
o embalar de lume
da «Internacional»...
... esse hino
que um marceneiro
compôs durante a sua guerra
pelo Destino
de operário verdadeiro
- melodia
arrancada certo dia
da raiz de uma flor
no coração da Terra.
(Da Terra futura
sem amos,
mas só com amor.)
Entretanto cantamos.
José Gomes Ferreira
Thursday, 30 June 2011
Ana e António
A Ana e o António trabalhavam
na mesma empresa.
Agora foram ambos despedidos.
Lá em casa, o silêncio sentou-se
em todas as cadeiras
em volta da mesa vazia.
«Neo-Realismo!», dirão os estetas
para quem ser despedido
é o preço do progresso.
Os estetas, esses, nunca
serão despedidos.
Ou julgam isso, ou julgam isso.
Mário Castrim
Monday, 27 June 2011
O PONTO DE VISTA DO ESPECTADOR
Pensa ele que mereceu
de algum modo a cadeira,
ou pagando ou de borla,
de algum modo adquiriu,
pensa ele, um direito.
Parece-lhe que, sentado,
o que no palco vê apenas
é espectáculo. Num minuto
sairá, poderá historiar
aquilo que fixou, outros
verão através dele, até
talvez o invejem, afinal
foi ele que viu, sim, foi ele
quem esteve lá.
No entanto não sai, algo
o perturba, um dos actores
aponta, e é para ele,
é a ele que já levam pela coxia,
- que rede o envolveu?,
temia todo o gesto, era
um simples espectador -
estava tão quieto, vai
agora para onde, para
o cárcere, para a morgue,
para o segredo que não é
dos deuses...?
Egito Gonçalves
Friday, 24 June 2011
O primeiro astronauta
O primeiro astronauta
devia ter sido
Silvestre José Nhampose
Só ele
teria sacudido os pés
à entrada da Lua
Só ele
teria pedido
com suave delicadeza:
- dá licença?
Mia Couto
Tuesday, 21 June 2011
ROMANCE DE SINHÁ CARLOTA
Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.
Um círculo da cuspo
a seu lado...
Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.
Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!
Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados.
Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baila mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
sàbuá?
Sinhá Carlota
nos seus olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...
Francisco José Tenreiro