Entre vento e navalha escolho o vento
entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.
David Mourão-Ferreira
Sunday, 6 December 2009
Thursday, 3 December 2009
Paraíso
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira
Tuesday, 1 December 2009
Nocturno
Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral, o espinho de uma rosa brava...
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era, no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...
David Mourão-Ferreira
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral, o espinho de uma rosa brava...
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era, no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...
David Mourão-Ferreira
Monday, 30 November 2009
Letreiro
Porque não sei mentir,
não vos engano:
nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
diante de qualquer adoração,
ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
de cada paraíso.
Miguel Torga
não vos engano:
nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
diante de qualquer adoração,
ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
de cada paraíso.
Miguel Torga
Friday, 27 November 2009
(«Requiem» de Verdi.)
Verdi
- Garibaldi dos mortos...
... que não deixaram apodrecer as bocas
nem transformá-las em flores,
para poderem cantar o entusiasmo da morte
num coro de vermes
que roem os pulmões dos tenores.
(Muito tempo passado, em Setembro de 1975,
em Leninegrado, ouvi este «Requiem»
tocado e cantado por uma orquestra da Arménia
numa noite que me encheu de glória.)
José Gomes Ferreira
- Garibaldi dos mortos...
... que não deixaram apodrecer as bocas
nem transformá-las em flores,
para poderem cantar o entusiasmo da morte
num coro de vermes
que roem os pulmões dos tenores.
(Muito tempo passado, em Setembro de 1975,
em Leninegrado, ouvi este «Requiem»
tocado e cantado por uma orquestra da Arménia
numa noite que me encheu de glória.)
José Gomes Ferreira
Tuesday, 24 November 2009
(Primeiro intervalo no Teatro de S. Carlos. Sorrimos uns para os outros. «Então como está?» «Há muito que não o via!»... Musgo. Teias de aranha nos ou
Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.
Mas vivos que são?
Mortos incompletos.
José Gomes Ferreira
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.
Mas vivos que são?
Mortos incompletos.
José Gomes Ferreira
Saturday, 21 November 2009
(«Requiem de Mozart».)
Ímpeto de rasgar o tecto com as mãos
para gritarmos aos astros,
cá de baixo das labaredas do nosso poste:
«O mistério somos nós.
Fomos nós, os homens,
que criámos a morte.»
José Gomes Ferreira
para gritarmos aos astros,
cá de baixo das labaredas do nosso poste:
«O mistério somos nós.
Fomos nós, os homens,
que criámos a morte.»
José Gomes Ferreira
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