Estavas mais bonita que nunca esta manhã. E nunca quer dizer: nunca. Não o tinhas estado antes. E é possível que não o venhas a estar depois. Não sei. E nem isso importa. Importante foi ver-te hoje, assim. Linda. Atraentemente linda. Não como um modelo, não como uma actriz, não como um estereótipo. Linda, apenas como uma mulher o pode ser quando não é apenas rosa, ou borboleta, ou cigarra. Quando não é outra coisa que não seja uma mulher.
E eu nem soube o que dizer-te. Poderia ter dito, simplesmente, que estavas linda. E diria a verdade. Mas senti que isso soaria a galanteio, soaria a qualquer coisa que não era mais verdadeira que o meu silêncio. E eu, que vivo das palavras, não tive palavras que te abraçassem, que corressem mansamente pelos teus ombros, que se aninhassem nos teus cabelos, que nas tuas pequeninas orelhas se dependurassem como brincos. Ou como perguntas.
Já vês como a beleza pode calar a poesia! Já vês como uma imagem não vale apenas mil palavras, mas todas as palavras. Ou unicamente as que pudessem bastar.
Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs. Cheia de ti. Do teu brilho, do teu cheiro, do teu sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós. E à tua pergunta natural: “o que é que estamos aqui a fazer?”, eu responderia também naturalmente: “se cá estamos, é porque fazemos cá falta!”
Joaquim Pessoa