Thursday, 15 January 2026

ESTA MANHÃ

 
Estavas mais bonita que nunca esta manhã. E nunca quer dizer: nunca. Não o tinhas estado antes. E é possível que não o venhas a estar depois. Não sei. E nem isso importa. Importante foi ver-te hoje, assim. Linda. Atraentemente linda. Não como um modelo, não como uma actriz, não como um estereótipo. Linda, apenas como uma mulher o pode ser quando não é apenas rosa, ou borboleta, ou cigarra. Quando não é outra coisa que não seja uma mulher.
E eu nem soube o que dizer-te. Poderia ter dito, simplesmente, que estavas linda. E diria a verdade. Mas senti que isso soaria a galanteio, soaria a qualquer coisa que não era mais verdadeira que o meu silêncio. E eu, que vivo das palavras, não tive palavras que te abraçassem, que corressem mansamente pelos teus ombros, que se aninhassem nos teus cabelos, que nas tuas pequeninas orelhas se dependurassem como brincos. Ou como perguntas.
Já vês como a beleza pode calar a poesia! Já vês como uma imagem não vale apenas mil palavras, mas todas as palavras. Ou unicamente as que pudessem bastar.
Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs. Cheia de ti. Do teu brilho, do teu cheiro, do teu sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós. E à tua pergunta natural: “o que é que estamos aqui a fazer?”, eu responderia também naturalmente: “se cá estamos, é porque fazemos cá falta!”

Joaquim Pessoa

Monday, 12 January 2026

Esquecimento


O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e cadência, flutua.
O esquecimento é como um pássaro de asas unidas,
estendidas e imóveis, -
Um pássaro que adormece aos ventos da costa
O esquecimento é chuva durante a noite,
Ou uma velha casa na floresta, - ou uma criança.
O esquecimento é branco, - branco como as árvores sem vida,
e pode atordoar a sibila em profecia,
ou enterrar os deuses.
Posso-me lembrar de muitos esquecimentos.

Harold Hart Crane 

Friday, 9 January 2026

**

 
Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.
Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.
Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.
Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.
Ary dos Santos

Tuesday, 6 January 2026

Pranto pelo dia de hoje

 
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, 3 January 2026

Abandono

 
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.
David Mourão-Ferreira

Thursday, 1 January 2026

EM BUSCA DE UM ANO MAIS FELIZ


Gostaria de visitar hoje todos os meus amigos, abraçá-los com ternura, como se o facebook fosse uma pequena aldeia onde a fraternidade e o carinho têm sido constantes.
Mas porque é impossível essa visita pessoal a cada um de vós, aqui vos deixo, com um abraço imenso, um obrigado por tudo o que de vós recebi ao longo do ano: carinho, ternura, amizade, e o sentimento de que nada é impossível para nós.
Com amor, com dignidade e com luta, poderemos fazer um Ano Novo melhor e ajudar a transformar, também para melhor, um País que é o nosso mas que há muito o não sentimos assim.
E é preciso reafirmar o dito do nosso povo: "O seu a seu dono."
Vamos em frente.
"Dá-me as tuas mãos. Aqui tens as minhas.
Tentaremos passar!"

Tuesday, 30 December 2025

Exercícios de ser criança

 
No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo
Manoel de Barros