ou que sei eu de pássaros dormindo?
Nas velhas casa pardas vão caindo
mais paredes de sangue sobre os dedos.
A voz ainda arde em fogo brando.
E este banho, Maria, não me aquece.
Eu sei lá, quantas palavras vou gastando
e quanto vou gostando de escrevê-las!
Mas custa. Muito mais do que se gosta,
apesar de eu fazer amor com elas.
E tu que sabes, talvez, das casas pardas,
das coisas poucas, das coisas que navegam
pelas palavras coisas que sossegam
o sangue das ideias que tu guardas,
tu saberás, Maria, talvez, das casas pardas,
mas eu sei de que cor os olhos cegam.
Ou já nada sabemos, repetindo
as palavras mais pardas do que as casas?
Joaquim Pessoa
in CANÇÕES DE ex-CRAVO E MALVIVER,
Moraes Editores, 1978.
Ao jantar, ainda antes de o relógio ser guardado
na gaveta, disse ao meu pai e à minha mãe que queria ajudar a construir a
Festa. Ir trabalhar para o Avante!.
Com dez anos, naquele mês de Setembro, pensei
que toda a população do mundo estava junto ao rio Tejo, em Lisboa.
Nunca tinha visto e sentido tanta gente. Por vezes não se conseguia
andar. Olhava para cima, na tentativa de alertar os adultos par o facto
de estar ali. Sentia-me apertado. Quase esmagado. Aquela massa compacta
de gente estava feliz. Invadiam todos os lugares da antiga FIL. Eram
milhões de conversas, milhares de sorrisos, infinitos abraços. E no
domingo à tarde o comício teve de vir para a rua. A grande nave era
pequena de mais.
Era a primeira edição da Festa do Avante!. Estávamos em
1976. Nunca se tinha visto nada igual. Foi a primeira vez que vi um
palco gigante. Que vi músicos a sério. Sentia-me bem. A palavra que mais
se ouvia era “camarada”. A segunda, “liberdade”. Tudo era novidade.
Corredores de política. Corredores de comida. Corredores de música.
Corredores de arte. Mas o espaço que ficou gravado na minha memória,
porque passei lá imenso tempo, era o Espaço Internacional. Milhares de
pessoas queriam ver o pavilhão da União Soviética, da RDA ou da
Checoslováquia. Ali estavam os países socialistas e os partidos irmãos.
Ali estava o imaginário.
Os países socialistas ofereciam livros, cartazes, harmónicas,
chapéus, palas para o sol, emblemas, balões, bandeiras e até relógios de
bolso made in DDR. Algumas coisas consegui no meio de tantos
braços esticados. Não me lembro o quê. Excepto o famoso relógio de
bolso. Uma proeza. Uma prova de que a persistência dá frutos. Durante
anos, o relógio de horas certas embelezou a minha mesa-de-cabeceira.
Todos os dias lhe dava corda num ritual quase mecânico. Tinha orgulho
naquele pequeno relógio de algibeira conseguido a pulso. Com o tempo o
relógio perdeu importância. Parou um dia nas seis e seis. Foi depositado
numa gaveta.
Ao jantar, ainda antes de o relógio ser guardado na
gaveta, disse ao meu pai e à minha mãe que queria ir trabalhar. Não sei
que idade tinha. Ficaram espantados. Tinha idade ainda para estudar. Era
novo, muito novo. Disse-lhes que queria ajudar a construir a Festa. Ir
trabalhar para o Avante!. De mochila às costas, apanhei o
comboio e fui. Amigos iam para as vindimas ou para a paragem da
Celulose. Ganhavam dinheiro. Eu optei por ir para a Festa. Voluntário.
Gastar dinheiro aos meus pais. Foi um mês alucinante. Conheci tanta
gente. Fiz tanta coisa. E depois naquele fim de tarde da sexta-feira
mágica, os portões abriram-se e a maré humana invadiu tudo o que
tínhamos construído. Ficou a sensação do dever cumprido. A sensação de
que a persistência dá frutos. Antes de sair de casa, pedi ao meu pai
para todos os dias dar corda ao relógio!
Foram anos seguidos a cumprir o meu voluntariado. A Festa ficou-me no
sangue. Cresci a ver a Festa crescer. Preguei milhares de pregos.
Coloquei tubos. Pintei murais. Reguei a relva. Recolhi o lixo. Desenhei
letras. Serrei madeira. Dancei. Abracei. Beijei. Ali, naqueles metros
quadrados a perder de vista, sentíamo-nos bem. Sentíamos paz. Dávamos
sentido à vida. Éramos solidários. Éramos amigos. Ali, era outro mundo.
Um mundo sonhado e desejado. Um mundo difícil de conseguir. Um mundo
possível. Humanista. Era o electricista, o canalizador, o arquitecto, a
costureira, o cozinheiro, o pintor, o artista, o técnico de som, o
jardineiro, o médico, a enfermeira, o bombeiro, o reformado, o
estudante... eram tantos e sempre tão poucos. Era tão gigante aquela
tarefa colectiva. Ambiciosa. Construir uma cidade em três meses para
durar três dias. A Festa começava com um esqueleto de tubos ao alto. Ia
sendo construída, levantada do chão. Gostava de adivinhar as formas.
Crescia todos os dias. E depois das paredes ao alto, artistas plásticos
davam vida ao contraplacado castanho-claro. A Festa ganhava cor e
mensagem. E quando as centenas de mastros se engalanavam com bandeiras
de várias cores, a sexta-feira mágica aproximava-se. Eram três dias de
sã loucura. Uma maravilha.
Deixei de ajudar a construir a Festa no ano em que coloquei o
relógio na gaveta. O rumo da vida assim o quis. Continuo a admirar o
empenho e a dedicação que homens e mulheres entregam naquela quinta
ajoelhada perante o Tejo. Lugar de liberdade. Lugar de cultura e saber.
Lugar fraterno. O mundo necessita de muitos lugares assim. Nunca faltei à
chamada. Nunca faltei a uma Festa. São já 42 edições. Existem amigos
que só se abraçam uma vez no ano. É na Festa. Outros já partiram e
ficaram no coração. A Festa do Avante! é um caldo de emoções.
Ao fim do dia, a brisa combate o calor. Gosto de me sentar na relva e
olhar para aquela cidade que cada vez está maior. Penso como é possível.
De onde continua a vir tanta força para planear, organizar e dar vida a
um dos maiores acontecimentos políticos da Europa. Não encontro uma
resposta mas muitas respostas.
A propósito desta crónica tirei o
relógio da gaveta. Continuava nas seis horas e seis minutos. Dei corda e
os ponteiros começaram no seu ritual como se o tempo não tivesse
andado. Talvez o relógio made in DDR ainda não saiba que o Muro
de Berlim caiu. Que perdeu a nacionalidade. Que agora é alemão
unificado. Mas os ponteiros teimam em trabalhar. Numa luta por um tempo
novo. O velho relógio alemão ainda não morreu.
Com a natureza aprende, mas para a modificar. O honrado não se vende. Renega quem te pagar. Não há acção sem matéria, nem matéria sem acção, nem inteligência séria sem séria meditação. Na variedade do mundo reside a sua unidade. Até de um poço profundo pode nascer claridade.
Abre os olhos - o sol é teu. Mergulha as mãos - a água é tua. Deixo-te o sol, o mar o céu que poisa no beiral da nossa rua. E os trigais do dia que desponta e as flores da terra que me cobre. Toda a riqueza milenar, sem conta, de mais um poeta pobre.
Deixo-te as palavras que não gritaram estranguladas pelo nó do medo; e as outras, fuziladas, que tombaram nos pátios do degredo. E os sonhos por abrir; hoje, no sono dos séculos que chamaram eterno. Toda a Primavera, todo o Outono, das minhas árvores de Inverno. E a luta que fundiu meu coração num canto que sangrou certeza: depois de mim virás, ó meu irmão!, mais claro e mais limpo de tristeza.
Escrevo em silêncio A palavra mora debaixo Do linho Rente ao arrepio da pele. Sorvo-a Demoro-me E lá encontro o sentido Possível Para a desarrumação do mundo.
Sei então O lugar da sede Onde o pó do tempo Demora a pousar E ninguém se lembra mais da morte.
São segundos de fome E nem o delírio das mãos Sabe mesmo Do inicio da matéria. Apenas os viajantes Mais antigos Sabem deste mar Onde o sal das águas É a vontade dos dedos Em ânsia À procura de carne que lhes dê fôlego.
Todos habitamos o limiar da loucura Ou não fosse a canina solidão Capaz de tão afiados dizeres. Não sei de onde venho Nem que paisagens rasgar Mas tenho o rosto do que amo Agarrado ao tacto cego E às milhas por andar Da saudade (outro nome para a memória Do que fomos construindo) E da imensa estepe Que sempre rompe As membranas finas Que vamos Teimosamente Ancorando nos outros. Também eles Bestas feridas Buscando em todos (como mães à pergunta do filho morto) Alguma ternura que nos salve.