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Wednesday, 9 November 2022

Interrogatório


- Fala! A Dor lhe grita (impuro
seu grito branco que de rastos medra)

- Nunca! Quero quebrar de corpo duro
como as estátuas de pedra.

Luís Veiga Leitão

Thursday, 9 November 2017

COLUNA

Levanta a fronte, levanta!

Que toda a gente saiba de quem é.
Não faças dela a cinza duma chama
nem planta nua dum pé
abrindo covas na lama.

Levanta a fronte, levanta!

Não faças dela espelho a descoberto
onde o quebrado corpo se despoja,
num chão intérmino e deserto
em que a dor se roja.

Levanta a fronte, levanta!

Para quê essas sombras que te inundam,
sombras roxas e lôbregas de becos?
Para quê essas rugas que se afundam
como leitos de rios secos?

Levanta a fronte, levanta!

Foi a cela que te anoiteceu
com charcos de medo e gelo?
Quem trouxe um sonho como o teu,
jamais deve perdê-lo.

Levanta a fronte, levanta!

Quem ergue a fronte, levanta a voz,
levanta o sonho num facho a arder:

Luís Veiga Leitão

Saturday, 6 May 2017

ODE À AMIZADE

Por teu verbo em passes de mágica
eu te louvo
quando pões «o coração nas mãos»
ou entre
os dentes
«o coração na boca»

Por tua palavra gesto e fruto
que nos tempos dos tempos renovas
eu te louvo
não pelo gesto que és
mas pelo fruto que provas

Por tua faca e suas artes
por teu punho a romper do seio
eu te louvo
pão único que repartes
migalha cortada ao meio

Fome nenhuma fica impune

Teu gume é como golpe na água:
a lâmina que a retalha
é a mesma que a reúne.

Luís Veiga Leitão

Sunday, 12 February 2017

SALAZAR E FRANCO


Criadores de infernos, garras da Pide
trespassando a desarmada presa:
em Lisboa, Augusto Fineza
Julián Grimau em Madride

Salazar e Franco
do Apocalipse a dupla besta nua
cavalgando nas trevas da encruzilhada:
um a matar à luz da rua
outro, de madrugada

Que a nossa dor, pedra que nos oprime
seja a memória também de pedra
e o bronze de uma voz que não se cala:
Assassinos Assassinos


Luís Veiga Leitão

Monday, 18 April 2016

Manhã


Bom dia - diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão

Wednesday, 6 April 2016

Quem escolhe o caminho das pedras


Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte

Luís Veiga Leitão

Friday, 1 January 2016

ÁRVORE QUE NÃO CANSA


Sabes o que é a luta? Embora pises
areias ardendo e cimentos
aflorando pontas de lança?
- É a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA
de dar folhas, frutos, rebentos,
com lanhos no tronco e nas raízes.

Luta em ti, fora de ti, na rua,
porque lutando
a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA será TUA.

E enquanto a vida queira e possa,
lura sempre, porque lutando
a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA será NOSSA!

Luís Veiga Leitão

Thursday, 9 July 2015

A CRIANÇA


Aberta, discreta
ou desatenta
é como o poeta:
não mente, inventa.

Luís Veiga Leitão

Tuesday, 9 June 2015

O MINEIRO E O DIAMANTE


Mineiro pobre e viúvo.
De volta do turno da noite, ao descalçar as botas,
encontrou, em uma delas,
um pequeno diamante. Tão breve no tamanho
que alembrava a mais pequena das estrelas
na escuridão da noite.
Não se conteve. Chamou a filha.
E no azul dos olhos dela viu
o pequeno diamante mais crescido
que a estrela, que a estrela de alva.
De repente, mergulhou a cabeça entre as mãos
e pensou:
Entregá-lo à empresa das minas?
Não.

Ninguém devolve uma estrela. Sobretudo,
uma estrela que fugiu da Via-Láctea
e na bota de um mineiro se escondeu.

Luís Veiga Leitão

Thursday, 15 January 2015

TESTAMENTO


Abre os olhos - o sol é teu.
Mergulha as mãos - a água é tua.
Deixo-te o sol, o mar o céu
que poisa no beiral da nossa rua.
E os trigais do dia que desponta
e as flores da terra que me cobre.
Toda a riqueza milenar, sem conta,
de mais um poeta pobre.

Deixo-te as palavras que não gritaram
estranguladas pelo nó do medo;
e as outras, fuziladas, que tombaram
nos pátios do degredo.
E os sonhos por abrir; hoje, no sono
dos séculos que chamaram eterno.
Toda a Primavera, todo o Outono,
das minhas árvores de Inverno.
E a luta que fundiu meu coração
num canto que sangrou certeza:
depois de mim virás, ó meu irmão!,
mais claro e mais limpo de tristeza.

Luís Veiga Leitão

Sunday, 3 July 2011

Os grandes amigos


São como as árvores
de grande porte.
Quando elas partem
as raízes ficam
aquém da morte.


Luís Veiga Leitão