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Tuesday, 1 September 2026

CANÇÃO DA CORAGEM


Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
deixaria a minha casa
como se fosse culpada
Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
Nem que morte me dissesse:
"Virás de noite comigo..."
eu trairia um amigo
Nem que a morte me levasse
Nem que a morte me dissesse
Nem que vida me fugisse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar
Nem que a morte me calasse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de viver
todo o amor de joelhos
Nem que a morte me acontecesse
ou me amor, me cegasse
Ai nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencida
Nem que a morte me doesse
Ai que nem a morte viesse
como só vem a tristeza
E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança
como um pássaro de sangue
ou uma bala perdida.
Joaquim Pessoa

Sunday, 30 August 2026

Pela liberdade viva


Meu amor
no teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.
Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.
Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.
Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido
Dou-te o meu nome
raiz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos
mas é por outra que vivo
Joaquim Pessoa
Poemas da Resistência (1968/1971)

Monday, 3 August 2026

AGARRA-TE AO POEMA


Se a luz da manhã te fizer tropeçar,
agarra-te ao poema.
Se não conseguires suportar a solidão,
agarra-te ao poema.
Se te rasteirar a mentira, não esqueças,
agarra-te ao poema.
Se sentires que a verdade te faz fugir o chão,
agarra-te ao poema.
Se o medo te impede de avançar, coragem,
agarra-te ao poema.
Se a tua insegurança é mais forte do que tu,
agarra-te ao poema.
Se alguém quiser fazer retroceder o teu sorriso,
agarra-te ao poema.
Se uma dor insuportável te faz tremer as pernas,
agarra-te ao poema.
Se o amor te deixar um dia abandonado e frágil,
agarra-te ao poema.
Porque em cada circunstância
a vida escreveu
um poema
especialmente para ti.

Joaquim Pessoa

Monday, 15 June 2026

MULHER

 
És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.
Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.
Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!
Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!
Joaquim Pessoa

Saturday, 6 June 2026

SONETO

 
Em lume brando cozo estas ideias:
Jesus que andou descalço em Nazaré
soube por experiência que as areias
têm a dimensão que tem o pé.
E os fariseus? A corja mais barata
digere as avelãs e o ananás.
Comem o tempo com talher de prata
vivendo em congestão de tanta paz.
Por entre as estrelinhas mais miúdas
nesse céu onde nunca há-de entrar Judas
perdem-se as minhas horas não gozadas.
E atravesso o deserto em seu encalço
sabendo que é melhor andar descalço
que usar umas sandálias apertadas.
Joaquim Pessoa

Monday, 1 June 2026

DIA 196

 
O que leva um homem a mudar?
Talvez os erros, talvez a paixão, talvez a sombra do cansaço. Pego na tua mão e beijo-a. Pego na tua mão e danço. Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois. Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira. Hoje, só o meu coração sabe dançar. A tua outra mão segura-o, partilha-o, é testemunha desta forma de alegria.
Escuta esta música que a noite sorri. Sente como, através dela, se excitam já os tímbalos, se apaixonam as cordas, como exulta o oboé. É uma música magnífica que se alimenta da luz, incandescendo as emoções. Pensamentos, desejos, nervos, tudo gritando por dentro. Não sinto o teu corpo, não sinto o meu corpo, tudo é transparência, tudo é fantasia, e assim são as palavras.
Movo-me contigo respirando o segredo noturno dos desertos. Não tenho ideias, nem casa, nem sei adormecer. Inspiro-te. Respiro-te. O cansaço é doce, estupendo, para sempre. À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a inquietação é um fruto excitante por colher. Não pares. Continua a dançar comigo. Como se fizéssemos amor.
Joaquim Pessoa

Friday, 1 May 2026

Canção de Amor

 
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.
Joaquim Pessoa

Monday, 20 April 2026

Os Amantes com Casa

 
Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.
Joaquim Pessoa

Wednesday, 18 March 2026

*

 
O amor é o mesmo
em todo o tempo e em todos
os lugares.
Mas o meu amor
é quando estás.
É onde estás.
Quando
as minhas palavras beijam
os teus olhos.
Onde
o poema penetra lentamente
no teu corpo e
o poeta sente
o orgasmo deslumbrado
das estrelas.
Joaquim Pessoa

Monday, 9 March 2026

Calendário

 
Janeiro. O sol vem devagarinho
bater à minha porta. Vem dizer
que o frio é um punhal. E o caminho
é uma rosa de sono a apodrecer.
Fevereiro. As aves têm medo
de poisar nos braços da manhã.
Morreu a toutinegra. O arvoredo
deita lágrimas de cinza e hortelã.
Depois Março rasteja. É uma hera
penetrando o vente da alegria.
A terra é verde. E é loira a primavera
bordada a fios de sol do meio-dia.
Abril é um abraço. É uma flor.
A flor que tem raiz no coração.
Abril foi um sol dado. Um sol maior.
Uma espingarda dentro da razão.
E Maio? Ah sim! De Maio o menos
que poderei dizer é a verdade.
É da luta na rua que faremos
um país que seja a própria liberdade.
Mês de Junho: a pedra sobre o lago.
Um barco de palavras que não vejo.
O mar da estranha calma em que naufrago.
A praia onde respira o meu desejo.
De Julho quase nada. Fiz um filho.
As noites são irmãs da minha boca.
E há beijos que me sabem a tomilho
quando abraço das estrelas a mais louca.
Agosto é a seara. A lua cheia
de promessas. De raivas. De cantigas.
O sol é uma aranha. E faz a teia
entre o azul do céu e as espigas.
Setembro da tristeza. Das vindimas.
Ai vinhas da mentira! Orgasmo das videiras!
Há cachos de uvas brancas nestas rimas.
Borboletas colorindo as bebedeiras.
Outubro é um cavalo. Um potro branco.
Escoiceando o vento. Mordendo a claridade.
E ferido de um só golpe sobre o flanco
ainda vai trotando esta ansiedade.
E vem Novembro. Um assassino deixa
morrer a minha pátria. E jaz no chão
a minha rosa negra. A minha queixa.
Novembro não tem paz. Não tem perdão.
Dezembro. Cantaram-se outros hinos.
Gritaram-se os poemas que não fiz.
E morro entre palavras. Entre os sinos
que tocam a rebate o meu país.
Joaquim Pessoa

Thursday, 15 January 2026

ESTA MANHÃ

 
Estavas mais bonita que nunca esta manhã. E nunca quer dizer: nunca. Não o tinhas estado antes. E é possível que não o venhas a estar depois. Não sei. E nem isso importa. Importante foi ver-te hoje, assim. Linda. Atraentemente linda. Não como um modelo, não como uma actriz, não como um estereótipo. Linda, apenas como uma mulher o pode ser quando não é apenas rosa, ou borboleta, ou cigarra. Quando não é outra coisa que não seja uma mulher.
E eu nem soube o que dizer-te. Poderia ter dito, simplesmente, que estavas linda. E diria a verdade. Mas senti que isso soaria a galanteio, soaria a qualquer coisa que não era mais verdadeira que o meu silêncio. E eu, que vivo das palavras, não tive palavras que te abraçassem, que corressem mansamente pelos teus ombros, que se aninhassem nos teus cabelos, que nas tuas pequeninas orelhas se dependurassem como brincos. Ou como perguntas.
Já vês como a beleza pode calar a poesia! Já vês como uma imagem não vale apenas mil palavras, mas todas as palavras. Ou unicamente as que pudessem bastar.
Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs. Cheia de ti. Do teu brilho, do teu cheiro, do teu sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós. E à tua pergunta natural: “o que é que estamos aqui a fazer?”, eu responderia também naturalmente: “se cá estamos, é porque fazemos cá falta!”

Joaquim Pessoa

Thursday, 1 January 2026

EM BUSCA DE UM ANO MAIS FELIZ


Gostaria de visitar hoje todos os meus amigos, abraçá-los com ternura, como se o facebook fosse uma pequena aldeia onde a fraternidade e o carinho têm sido constantes.
Mas porque é impossível essa visita pessoal a cada um de vós, aqui vos deixo, com um abraço imenso, um obrigado por tudo o que de vós recebi ao longo do ano: carinho, ternura, amizade, e o sentimento de que nada é impossível para nós.
Com amor, com dignidade e com luta, poderemos fazer um Ano Novo melhor e ajudar a transformar, também para melhor, um País que é o nosso mas que há muito o não sentimos assim.
E é preciso reafirmar o dito do nosso povo: "O seu a seu dono."
Vamos em frente.
"Dá-me as tuas mãos. Aqui tens as minhas.
Tentaremos passar!"

Saturday, 27 December 2025

AS NOITES ACABAM SEMPRE NO FUTURO

 
Quando o céu gira à volta da minha cabeça,
desaba uma trovoada estremecendo os animais
que acordam dentro de mim. Tudo me surpreende
e não conheço nenhuma razão para sofrer calado,
como azeitona no lagar, tão longe da árvore,
trocando a claridade por uma sombra fechada e húmida,
corpo exigindo um motim, uma festa no sangue,
quando tudo está a um palmo da respiração
e a dois da realidade. As noites acabam sempre
no futuro e é aí que procuro a clara raiz do dia,
esse diamante breve que resgata o próprio chão,
para de novo semear a paixão, com inteligência
e luz, como faz, em cada ano, a primavera.

Friday, 12 December 2025

O BAR

 
Andei com Maiakovsky a servir
sumos de ananás num Bar de putas.
Por essas noites, a noite cheirava a mijo
e a ódio. Sim, a mijo e a ódio.
Um homem costumava entrar
e perguntar pelo seu irmão.
Nunca estava. O seu irmão
nunca estava e, então, o homem
desaparecia
sem mais interrogações.
Um dia houve uma guerra num vaso de flores
e na noite desse dia o Bar fechou.
Reabrimos na noite seguinte
muito orgulhosos da nossa guerrazinha
que continuava, mas agora
de certo modo longe do nosso local de trabalho.
Voltámos a servir sumos de ananás
regularmente. Maiakovsky
não usava meias desde a guerra
e as putas quase sempre comentavam isso.
Constou nessa altura
que tinha morrido como um valente
o homem que costumava entrar
e perguntar pelo seu irmão.
Confirmámos isso quando o irmão dele passou a frequentar o Bar
sem fazer uma única pergunta.
De vez em quando tínhamos de pôr fora
os clientes que se embebedavam.
Alguns, no auge da noite,
pretendiam ser Deus,
outros,
faziam discursos que irritavam os chulos
diziam coisas tremendas
e um deles era um general de cavalaria
que ao terceiro copo já queria vender as esporas.
No último verão houve a crise do ananás
e passámos a servir batidos de morango.
As putas adoravam.
Maiakovsky olhava de soslaio umas vezes,
outras, pelo cantinho do olho
e fazia-me sinais.
Eu levantava geralmente os cinzeiros e as gorjetas
Enquanto ele passava um pano húmido
Pelo tampo das mesas.
Dividíamos desta maneira o nosso trabalho
porque ele era alérgico ao cheiro das notas
e a mim dava-me prazer
ajudá-lo no que pudesse.
Uma tarde veio num jornal que ele tinha morrido.
Nem ele próprio acreditou.
Ficou desiludido, muito desiludido mesmo
e confessou-mo.
Não chegou a haver entrevistas, fotógrafos, nada.
Ele fez as malas calmamente
(e, no entanto, esqueceu-se de uma gravata),
abraçou-me e partiu com
lágrimas nos olhos.
Então, sozinho, abri o Bar apenas
uma ou outra noite em que senti saudades.
Por vezes entravam turistas americanos
que me ofereciam somas terríveis
pela cadeira onde ele costumava sentar-se
nos nossos dias de folga.
Quase nunca chegava a responder.
Eles percebiam o meu olhar e não diziam nada,
não insistiam mais.
O mesmo acontecia com as putas,
que deixaram de fazer-me perguntas.
Creio que agora estou desempregado.
Fechei o Bar definitivamente.
Muita coisa mudou embora as noites
continuem hoje a cheirar
a mijo e a ódio.
Faleceu o general
que negociava as esporas ao terceiro copo,
Deus caiu abaixo da sua bebedeira,
e eu acabei por vender a cadeira do meu camarada
que está agora algures no Colorado atrás de uma secretária
num Boss Office de uma fabriqueta de pastilha elástica.
Estou mais novo
e vou sobrevivendo a todas estas recordações.
Mas quando agora saio por aí, de noite, roído de saudades,
já nem mesmo as putas,
as mesmas putas,
me reconhecem.

Thursday, 6 November 2025

Abraça-me

 
Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa

Monday, 3 November 2025

A LIGA

 
Louva-a-deus martins agarrou o marido pela cintura,
enlaçou-o ternamente, acariciou-o e fez amor com ele
até atingir o orgasmo. Depois, como é normal entre os
louva-a-deus, ele, submisso e resignado, entregou-se
inteirinho para que ela o devorasse, e assim sucedeu:
louva-a-deus martins foi retraçando o companheiro
com os seus finíssimos dentes, lenta e ritualmente, até
que dele nada restou senão uma ligeira azia que a ter-
rível amante combateu com duas ou três dentadinhas
numa folha de hortelã. Ah!..., suspirou ela, que destino
o meu!... Amar é a minha perdição!... E, rapidamente,
convocou as outras louva-a-deus para uma reunião
extraordinária, que veio a realizar-se no cimo de um
loureiro, de onde ninguém saiu sem que ficassem apro-
vados os estatutos da nova-liga-feminina-para-a-defe-
sa-dos-machos. Machistas!, gritaram no final, em coro,
as não aderentes, de temperamento mais ardente, ou
de maior apetite. E, a partir daí, naquele imenso cam-
po de girassóis, as louva-a-deus ficaram divididas (até
quando?) em duas espécies: as que comem os machos
e as que se deixam comer.
Joaquim Pessoa
In Histórias Fabulosas, PORTUGUÊS SUAVE