Thursday, 30 July 2026

A cavalo no vento

 
A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

David Mourão Ferreira

Monday, 27 July 2026

Didáctica

 

Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos

Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

David Mourão-Ferreira

Friday, 24 July 2026

Instante

 

Quem retirou o navio
de diante do terraço?

Porque fica emudecido
agora mesmo este pássaro?

Ouço de repente um silvo
como se ardesse um teatro.

E nada disto é comigo.
Mas sinto-me abandonado.

David Mourão-Ferreira

Tuesday, 21 July 2026

Labirinto ou não foi nada

 

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

Saturday, 18 July 2026

Soneto do cativo

 

Se é sem duvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira

Wednesday, 15 July 2026

Aviso de mobilização

 

Passaram pelo meu nome e eu era um número

– menos que a folha seca de um herbário.

Colheram-no com mãos de zelo e gelo;

escreveram-no, sem mágoa, num postal.

 

Convite a que morresse. .. mas por quê?

Convite a que matasse. .. mas por quem?

Ó vago amanuense, ó apressado

e súbito verdugo, que te ocultas

numa rubrica rápida, ilegível,

que dirás tu do meu e de outros nomes,

que dirás tu de mim e de outros mais,

no Dia do Juízo já tão próximo

– que dirás tu de nós, se nem tremeu,

na rápida rubrica, a tua mão?

 

Bem sei que a tua mão só executa;

mas para além do ombro a ti pertences.

Bem puderas chorar, ter hesitado. . .

– A mancha de uma lágrima bastara

para dar um sentido a esta morte

a que a tua indiferença nos convoca!

 

david mourão ferreira

tempestade de verão

Sunday, 12 July 2026

Litania da sombra

 

Não perguntem nada: nós estamos dentro

do aro de frio, no frio do muro,

tão longe, tão longe da feira do Tempo!

Não perguntem nada.

Nós estamos mudos.

 

Puseram açaimes nas ventas do vento,

ergueram açudes nas águas do Mar…

Não perguntem nada: nós estamos dentro,

ou fora de tudo.

Não perguntem nada.

Tumulto na estrada? O bicho na concha.

Miséria na casa? O farol na montra.

Não perguntem nada, não perguntem nada:

há sempre de gládios

a ríspida sombra.

 

Não perguntem nada: as razões são longas.

Não perguntem nada: as razões são tristes.

Não perguntem nada: nós estamos contra.

E talvez perdidos.

E talvez perdidos.

 

david mourão-ferreira

memoriam memoriae

E por vezes

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira, in ‘Matura Idade’

Thursday, 9 July 2026

Segredo

 
Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira
No Veio do Cristal

Secreta viagem

 

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós  olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

David Mourão-Ferreira

Monday, 6 July 2026

Nocturno

 

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança… 

David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

Friday, 3 July 2026

Inscrições Sobre as Ondas

 

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou. 

David Mourão-Ferreira

Wednesday, 1 July 2026

Porque não me vês


Meu amor adeus 
Tem cuidado 
Se a dor é um espinho 
Que espeta sozinho 
Do outro lado 
Meu bem desvairado 
Tão aflito 
Se a dor é um dó 
Que desfaz o nó 
E desata um grito 
Um mau olhado 
Um mal pecado 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono 
Porque não me vês 
Maresia 
Se a dor é um ciúme 
Que espalha um perfume 
Que me agonia 
Vem me ver amor 
De mansinho 
Se a dor é um mar 
Louco a transbordar 
Noutro caminho 
Quase a espraiar 
Quase a afundar 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono

Fausto Bordalo Dias

Quotidiano

 

Morre todas as noites uma águia
que só de minha vida se alimenta

Que mistura de cânhamo e de carne
no seu rosto de carne me desvenda

Morre todas as noites no momento
em que volta a nascer de madrugada

E para lhe fugir ainda é cedo
E para celebrá-la já é tarde

David Mourão-Ferreira