Saturday, 18 April 2026

O Corpo Os Corpos

 
O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos
que somados seriam nossos corpos
implantam-se no espaço novos corpos
ora mais ora menos que dois corpos
Que escorpião de súbito estes corpos
quando um espelho reflecte os nossos corpos
e num só corpo feitos os dois corpos
ao mesmo tempo somos quatro corpos
Não indagues agora se o meu corpo
se contenta só corpo no teu corpo
ou se busca atingir todos os corpos
que no fundo residem num só corpo
Mas indaga sem pausa além do corpo
o finito infinito destes corpos
David Mourão-Ferreira

Wednesday, 15 April 2026

O menino que carregava água na peneira

 
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
Manoel de Barros

Sunday, 12 April 2026

Cantar de Amigo

 
O claro pão
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.
A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.
O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.
Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
terão amigo, companheiro e camarada?
Geir Nuffer Campos

Thursday, 9 April 2026

AMOR VERDADEIRO

 
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Pablo Neruda

Monday, 6 April 2026

Cântico

 
Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Carlos Nejar

Friday, 3 April 2026

Se Me Esqueceres

 
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda

Wednesday, 1 April 2026

*_*

 
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranquilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Bertold Brecht

Monday, 30 March 2026

Esta lei

 
Ainda que não houvéssemos feito
mais nada desde o século XVI,
erigimos este corpo de leis
invulgarmente justas e certas,
em nome da vontade popular.
A lei democraticamente escrita
pelos representantes legítimos de um povo
e o rosto que esse povo levanta
perante as outras nações.
Resplandecente de esperança e dignidade,
esta lei há-de fazer-nos maiores
do que somos na adversidade e dependência,
porque os homens são construídos ou destruídos
pelas leis que os obrigam e abrigam.
Esta é uma Constituição aventurosa,
projecto de vida certa
deste povo para este povo.
Estes são os novos mandamentos
a que ater-nos durante a longa travessia
até à justiça de todas as leis do mundo.
Mais uma vez chegamos primeiro,
acaso sem ter com quê.
Mas destruir estas tábuas seria
destruir algo daquilo em que sempre
fomos grandes – a capacidade de inscrever
o sonho realizável
na memória e no assombro dos outros povos.
Maria Velho da Costa

Friday, 27 March 2026

O VERÃO PARTIU

 
O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
*
Tudo veio para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
*
Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
*
Agarra-me a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
*
Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.

Arsenii Tarkovsky

Tuesday, 24 March 2026

TROVAS GENEALÓGICAS

 
Minha avó era uma pulga
minha mãe era um sardão.
Sou neto dum corno velho
(não há pulga sem senão).
Nascemos intempestivos
dum coito de ideias tolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.
Arre lagarto lagarto
lagarta da geração
mais vale morrer de parto
que nascer de inspiração.
Nascemos intempestivos
duma réstia de cebolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas
De sete primos que tinha
quatro são peixes da horta
dois peixes da ribeirinha
e um peixe de retorta.
Peixe espada peixe cama
avó pescada do alto
titicaca citirama
paisagem de pó de talco.
Nascemos intempestivos
do rolo das pianolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas
Jesu jesu que não posso
dar passada no passado
sem que tropece no osso
de algum avô desusado.
Ossos que dançam o tango
caveiras valsificadas
orangonassaugotango
esgotado de almas panadas.
Nascemos intempestivos
do tango das castanholas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas
Tíbias peróneos famílias
Rotuladas titulares
chi de burro chá de tília
esqueletos protocolares.
Sentimentos sedimentos
sacramentos sedativos
alimentos excrementos
mas nunca preservativos.
Nascemos intempestivos
duma união de santolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.
Jesu jesu que pecado
impedir a criancinha
de passar um mau bocado
quando sair da bainha
Jesu jesu que pecado
pôr o ovo na sentina.
Nascemos rebarbativos
dum coito de ideias tolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.
Nascemos intempestades
dum parto de ideias falsas.
Somos homens na verdade
assim o provam as calças.
Ary dos Santos

Saturday, 21 March 2026

Para não deixar de amar-te nunca

 
Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.
Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Pablo Neruda

Wednesday, 18 March 2026

*

 
O amor é o mesmo
em todo o tempo e em todos
os lugares.
Mas o meu amor
é quando estás.
É onde estás.
Quando
as minhas palavras beijam
os teus olhos.
Onde
o poema penetra lentamente
no teu corpo e
o poeta sente
o orgasmo deslumbrado
das estrelas.
Joaquim Pessoa

Sunday, 15 March 2026

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

 
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade

Thursday, 12 March 2026

Procuro-te

 
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade

Monday, 9 March 2026

Calendário

 
Janeiro. O sol vem devagarinho
bater à minha porta. Vem dizer
que o frio é um punhal. E o caminho
é uma rosa de sono a apodrecer.
Fevereiro. As aves têm medo
de poisar nos braços da manhã.
Morreu a toutinegra. O arvoredo
deita lágrimas de cinza e hortelã.
Depois Março rasteja. É uma hera
penetrando o vente da alegria.
A terra é verde. E é loira a primavera
bordada a fios de sol do meio-dia.
Abril é um abraço. É uma flor.
A flor que tem raiz no coração.
Abril foi um sol dado. Um sol maior.
Uma espingarda dentro da razão.
E Maio? Ah sim! De Maio o menos
que poderei dizer é a verdade.
É da luta na rua que faremos
um país que seja a própria liberdade.
Mês de Junho: a pedra sobre o lago.
Um barco de palavras que não vejo.
O mar da estranha calma em que naufrago.
A praia onde respira o meu desejo.
De Julho quase nada. Fiz um filho.
As noites são irmãs da minha boca.
E há beijos que me sabem a tomilho
quando abraço das estrelas a mais louca.
Agosto é a seara. A lua cheia
de promessas. De raivas. De cantigas.
O sol é uma aranha. E faz a teia
entre o azul do céu e as espigas.
Setembro da tristeza. Das vindimas.
Ai vinhas da mentira! Orgasmo das videiras!
Há cachos de uvas brancas nestas rimas.
Borboletas colorindo as bebedeiras.
Outubro é um cavalo. Um potro branco.
Escoiceando o vento. Mordendo a claridade.
E ferido de um só golpe sobre o flanco
ainda vai trotando esta ansiedade.
E vem Novembro. Um assassino deixa
morrer a minha pátria. E jaz no chão
a minha rosa negra. A minha queixa.
Novembro não tem paz. Não tem perdão.
Dezembro. Cantaram-se outros hinos.
Gritaram-se os poemas que não fiz.
E morro entre palavras. Entre os sinos
que tocam a rebate o meu país.
Joaquim Pessoa

Friday, 6 March 2026

TOMAR PARTIDO

 
Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.
Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos

Tuesday, 3 March 2026

Cavalo à solta

 
Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédea,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura
José Carlos Ary dos Santos