Thursday, 3 September 2026

Soneto menor à chegada do verão


Eis como o verão
Chega de súbito,
Com seus potros fulvos,
Seus dentes miúdos,
Seus múltiplos, longos
Corredores de cal,
As paredes nuas,
A luz de metal,
Seu dardo mais puro
Cravado na terra,
Cobras que despertam
No silêncio duro –
Eis como o verão
Entra no poema.
Eugénio de Andrade

Tuesday, 1 September 2026

CANÇÃO DA CORAGEM


Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
deixaria a minha casa
como se fosse culpada
Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
Nem que morte me dissesse:
"Virás de noite comigo..."
eu trairia um amigo
Nem que a morte me levasse
Nem que a morte me dissesse
Nem que vida me fugisse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar
Nem que a morte me calasse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de viver
todo o amor de joelhos
Nem que a morte me acontecesse
ou me amor, me cegasse
Ai nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencida
Nem que a morte me doesse
Ai que nem a morte viesse
como só vem a tristeza
E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança
como um pássaro de sangue
ou uma bala perdida.
Joaquim Pessoa

Sunday, 30 August 2026

Pela liberdade viva


Meu amor
no teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.
Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.
Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.
Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido
Dou-te o meu nome
raiz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos
mas é por outra que vivo
Joaquim Pessoa
Poemas da Resistência (1968/1971)

Thursday, 27 August 2026

Os Comunistas


Os que colocam a alma na pedra,
no ferro, na dura disciplina,
ali vivemos só por amor
e já se sabe que nos dessangramos
quando a estrela foi tergiversada
pela lua sombria do eclipse.
Agora vereis que somos e pensamos.
Agora vereis que somos e seremos.
Somos a prata pura da terra,
o verdadeiro mineral do homem,
a fortificação da esperança;
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.
Pablo Neruda

Monday, 24 August 2026

A ti regresso


A ti regresso, mar, ao gosto forte 
Do sal que o vento traz à minha boca, 
À tua claridade, a esta sorte 
Que me foi dada de esquecer a morte 
Sabendo embora como a vida é pouca.
A ti regresso, mar, corpo deitado, 
Ao teu poder de paz e tempestade, 
Ao teu clamor de deus acorrentado, 
De terra feminina rodeado, 
Prisioneiro da própria liberdade.
A ti regresso, mar, como quem sabe 
Dessa tua lição tirar proveito. 
E antes que esta vida se me acabe, 
De toda a água que na terra cabe 
Em vontade tornada, armado o peito.
José Saramago

Friday, 21 August 2026

Flashback


Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
 
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

Nuno Júdice 

Meu corpo


Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti

Teus olhos
São memórias do desejo
São as praias que eu não vejo, em ti
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde eu fico e me revejo, sem ti

Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
As amarras de quem sofre
Quem fica é que se lembra toda a vida
Das saudades de quem parte
E dos olhos de quem morre


Não sei 
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza
Não sei
Mas sei
Que estou para sempre presa
À ternura sem defesa, que eu dei

Sozinha
Numa cama que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu
Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito de vingança, sou eu

Sou eu 
de cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo
sou eu

Ary dos Santos

Tuesday, 18 August 2026

O clitóris


Eis na flor
o nervo mais antigo
na boca dela o botão dos lábios
Centro do gozo no lugar
mais íntimo
Lugar do corpo
de me vir a nado
Cisterna
cisterna
de todo o orgasmo
Maria Teresa Horta
in "As Palavras do Corpo"

Saturday, 15 August 2026

Insónia alentejana


Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar…

Miguel Torga

Wednesday, 12 August 2026

O meu Alentejo


Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,

Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…

Andam asas no ar; e raparigas,

Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…

Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

Florbela Espanca

Sunday, 9 August 2026

Mulher-Resistente

(A Mariana Janeiro em nome de todas
as mulheres que lutaram contra o fascismo)
Eram tantas as torturas...
O chicote sobre a carne
que o corpo te inchava
inchava
pelas vergastas cortado
Eram dias sobre noites
em que os olhos te queimaram
em que as veias te romperam
e os ouvidos te rasgaram
Eram meses sobre meses
na cela
isolada
Torturas quantas sofreste
minha irmã
sempre calada
Que à polícia não se fala
nem que se morra
à pancada!
Maria Teresa Horta

Thursday, 6 August 2026

Revolução e Mulheres

1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
3. PRODUÇÃO
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.
4. SERVIÇOS
Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.
5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quis.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
6. PRODUÇÃO DE DESEJO
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
7. REVOLUÇÃO
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Dezembro 1975
Maria Velho da Costa, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1976.

Monday, 3 August 2026

AGARRA-TE AO POEMA


Se a luz da manhã te fizer tropeçar,
agarra-te ao poema.
Se não conseguires suportar a solidão,
agarra-te ao poema.
Se te rasteirar a mentira, não esqueças,
agarra-te ao poema.
Se sentires que a verdade te faz fugir o chão,
agarra-te ao poema.
Se o medo te impede de avançar, coragem,
agarra-te ao poema.
Se a tua insegurança é mais forte do que tu,
agarra-te ao poema.
Se alguém quiser fazer retroceder o teu sorriso,
agarra-te ao poema.
Se uma dor insuportável te faz tremer as pernas,
agarra-te ao poema.
Se o amor te deixar um dia abandonado e frágil,
agarra-te ao poema.
Porque em cada circunstância
a vida escreveu
um poema
especialmente para ti.

Joaquim Pessoa

Saturday, 1 August 2026

Palavra acesa


Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama

Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada 

José Francisco das Chagas

Thursday, 30 July 2026

A cavalo no vento

 
A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

David Mourão Ferreira

Monday, 27 July 2026

Didáctica

 

Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos

Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

David Mourão-Ferreira

Friday, 24 July 2026

Instante

 

Quem retirou o navio
de diante do terraço?

Porque fica emudecido
agora mesmo este pássaro?

Ouço de repente um silvo
como se ardesse um teatro.

E nada disto é comigo.
Mas sinto-me abandonado.

David Mourão-Ferreira

Tuesday, 21 July 2026

Labirinto ou não foi nada

 

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

Saturday, 18 July 2026

Soneto do cativo

 

Se é sem duvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira

Wednesday, 15 July 2026

Aviso de mobilização

 

Passaram pelo meu nome e eu era um número

– menos que a folha seca de um herbário.

Colheram-no com mãos de zelo e gelo;

escreveram-no, sem mágoa, num postal.

 

Convite a que morresse. .. mas por quê?

Convite a que matasse. .. mas por quem?

Ó vago amanuense, ó apressado

e súbito verdugo, que te ocultas

numa rubrica rápida, ilegível,

que dirás tu do meu e de outros nomes,

que dirás tu de mim e de outros mais,

no Dia do Juízo já tão próximo

– que dirás tu de nós, se nem tremeu,

na rápida rubrica, a tua mão?

 

Bem sei que a tua mão só executa;

mas para além do ombro a ti pertences.

Bem puderas chorar, ter hesitado. . .

– A mancha de uma lágrima bastara

para dar um sentido a esta morte

a que a tua indiferença nos convoca!

 

david mourão ferreira

tempestade de verão

Sunday, 12 July 2026

Litania da sombra

 

Não perguntem nada: nós estamos dentro

do aro de frio, no frio do muro,

tão longe, tão longe da feira do Tempo!

Não perguntem nada.

Nós estamos mudos.

 

Puseram açaimes nas ventas do vento,

ergueram açudes nas águas do Mar…

Não perguntem nada: nós estamos dentro,

ou fora de tudo.

Não perguntem nada.

Tumulto na estrada? O bicho na concha.

Miséria na casa? O farol na montra.

Não perguntem nada, não perguntem nada:

há sempre de gládios

a ríspida sombra.

 

Não perguntem nada: as razões são longas.

Não perguntem nada: as razões são tristes.

Não perguntem nada: nós estamos contra.

E talvez perdidos.

E talvez perdidos.

 

david mourão-ferreira

memoriam memoriae

E por vezes

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira, in ‘Matura Idade’

Thursday, 9 July 2026

Segredo

 
Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira
No Veio do Cristal

Secreta viagem

 

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós  olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

David Mourão-Ferreira

Monday, 6 July 2026

Nocturno

 

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança… 

David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

Friday, 3 July 2026

Inscrições Sobre as Ondas

 

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou. 

David Mourão-Ferreira

Wednesday, 1 July 2026

Porque não me vês


Meu amor adeus 
Tem cuidado 
Se a dor é um espinho 
Que espeta sozinho 
Do outro lado 
Meu bem desvairado 
Tão aflito 
Se a dor é um dó 
Que desfaz o nó 
E desata um grito 
Um mau olhado 
Um mal pecado 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono 
Porque não me vês 
Maresia 
Se a dor é um ciúme 
Que espalha um perfume 
Que me agonia 
Vem me ver amor 
De mansinho 
Se a dor é um mar 
Louco a transbordar 
Noutro caminho 
Quase a espraiar 
Quase a afundar 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono

Fausto Bordalo Dias