Thursday, 3 September 2026
Soneto menor à chegada do verão
Tuesday, 1 September 2026
CANÇÃO DA CORAGEM
Sunday, 30 August 2026
Pela liberdade viva
Thursday, 27 August 2026
Os Comunistas
Monday, 24 August 2026
A ti regresso
Friday, 21 August 2026
Flashback
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.
Nuno Júdice
Meu corpo
Tempestade no mar morto, sem ti
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti
Teus olhos
São memórias do desejo
São as praias que eu não vejo, em ti
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde eu fico e me revejo, sem ti
Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
As amarras de quem sofre
Quem fica é que se lembra toda a vida
Das saudades de quem parte
E dos olhos de quem morre
Não sei
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza
Não sei
Mas sei
Que estou para sempre presa
À ternura sem defesa, que eu dei
Sozinha
Numa cama que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu
Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito de vingança, sou eu
Sou eu
de cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo
sou eu
Tuesday, 18 August 2026
O clitóris
Saturday, 15 August 2026
Insónia alentejana
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar…
Wednesday, 12 August 2026
O meu Alentejo
Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…
Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!
Florbela Espanca
Sunday, 9 August 2026
Mulher-Resistente
Thursday, 6 August 2026
Revolução e Mulheres
Monday, 3 August 2026
AGARRA-TE AO POEMA
Se a luz da manhã te fizer tropeçar,
agarra-te ao poema.
Se não conseguires suportar a solidão,
agarra-te ao poema.
Se te rasteirar a mentira, não esqueças,
agarra-te ao poema.
Se sentires que a verdade te faz fugir o chão,
agarra-te ao poema.
Se o medo te impede de avançar, coragem,
agarra-te ao poema.
Se a tua insegurança é mais forte do que tu,
agarra-te ao poema.
Se alguém quiser fazer retroceder o teu sorriso,
agarra-te ao poema.
Se uma dor insuportável te faz tremer as pernas,
agarra-te ao poema.
Se o amor te deixar um dia abandonado e frágil,
agarra-te ao poema.
Porque em cada circunstância
a vida escreveu
um poema
especialmente para ti.
Joaquim Pessoa
Saturday, 1 August 2026
Palavra acesa
Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
José Francisco das Chagas
Thursday, 30 July 2026
A cavalo no vento
A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!
E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?
. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!
David Mourão FerreiraMonday, 27 July 2026
Didáctica
Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos
Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos
Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos
Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos
É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos
David Mourão-Ferreira
Friday, 24 July 2026
Instante
Quem retirou o navio
de diante do terraço?
Porque fica emudecido
agora mesmo este pássaro?
Ouço de repente um silvo
como se ardesse um teatro.
E nada disto é comigo.
Mas sinto-me abandonado.
David Mourão-Ferreira
Tuesday, 21 July 2026
Labirinto ou não foi nada
Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!
Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.
Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.
David Mourão-Ferreira
Saturday, 18 July 2026
Soneto do cativo
Se é sem duvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
David Mourão-Ferreira
Wednesday, 15 July 2026
Aviso de mobilização
Passaram pelo meu nome e eu era um número
– menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.
Convite a que morresse. .. mas por quê?
Convite a que matasse. .. mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
– que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?
Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado. . .
– A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca!
david mourão ferreira
tempestade de verão
Sunday, 12 July 2026
Litania da sombra
Não perguntem nada: nós estamos dentro
do aro de frio, no frio do muro,
tão longe, tão longe da feira do Tempo!
Não perguntem nada.
Nós estamos mudos.
Puseram açaimes nas ventas do vento,
ergueram açudes nas águas do Mar…
Não perguntem nada: nós estamos dentro,
ou fora de tudo.
Não perguntem nada.
Tumulto na estrada? O bicho na concha.
Miséria na casa? O farol na montra.
Não perguntem nada, não perguntem nada:
há sempre de gládios
a ríspida sombra.
Não perguntem nada: as razões são longas.
Não perguntem nada: as razões são tristes.
Não perguntem nada: nós estamos contra.
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.
david mourão-ferreira
memoriam memoriae
E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira, in ‘Matura Idade’
Thursday, 9 July 2026
Segredo
Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas
deste rio correndo
entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega
David Mourão Ferreira
No Veio do CristalSecreta viagem
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.
David Mourão-Ferreira
Monday, 6 July 2026
Nocturno
Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…
David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal
Friday, 3 July 2026
Inscrições Sobre as Ondas
Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.
David Mourão-Ferreira
Wednesday, 1 July 2026
Porque não me vês
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono