Sunday, 15 March 2026

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

 
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade

Thursday, 12 March 2026

Procuro-te

 
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade

Monday, 9 March 2026

Calendário

 
Janeiro. O sol vem devagarinho
bater à minha porta. Vem dizer
que o frio é um punhal. E o caminho
é uma rosa de sono a apodrecer.
Fevereiro. As aves têm medo
de poisar nos braços da manhã.
Morreu a toutinegra. O arvoredo
deita lágrimas de cinza e hortelã.
Depois Março rasteja. É uma hera
penetrando o vente da alegria.
A terra é verde. E é loira a primavera
bordada a fios de sol do meio-dia.
Abril é um abraço. É uma flor.
A flor que tem raiz no coração.
Abril foi um sol dado. Um sol maior.
Uma espingarda dentro da razão.
E Maio? Ah sim! De Maio o menos
que poderei dizer é a verdade.
É da luta na rua que faremos
um país que seja a própria liberdade.
Mês de Junho: a pedra sobre o lago.
Um barco de palavras que não vejo.
O mar da estranha calma em que naufrago.
A praia onde respira o meu desejo.
De Julho quase nada. Fiz um filho.
As noites são irmãs da minha boca.
E há beijos que me sabem a tomilho
quando abraço das estrelas a mais louca.
Agosto é a seara. A lua cheia
de promessas. De raivas. De cantigas.
O sol é uma aranha. E faz a teia
entre o azul do céu e as espigas.
Setembro da tristeza. Das vindimas.
Ai vinhas da mentira! Orgasmo das videiras!
Há cachos de uvas brancas nestas rimas.
Borboletas colorindo as bebedeiras.
Outubro é um cavalo. Um potro branco.
Escoiceando o vento. Mordendo a claridade.
E ferido de um só golpe sobre o flanco
ainda vai trotando esta ansiedade.
E vem Novembro. Um assassino deixa
morrer a minha pátria. E jaz no chão
a minha rosa negra. A minha queixa.
Novembro não tem paz. Não tem perdão.
Dezembro. Cantaram-se outros hinos.
Gritaram-se os poemas que não fiz.
E morro entre palavras. Entre os sinos
que tocam a rebate o meu país.
Joaquim Pessoa

Friday, 6 March 2026

TOMAR PARTIDO

 
Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.
Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos

Tuesday, 3 March 2026

Cavalo à solta

 
Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédea,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura
José Carlos Ary dos Santos

Sunday, 1 March 2026

Desespero

 
Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
Ary dos Santos

Friday, 27 February 2026

Soneto presente

 
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu
Ary dos Santos