Sunday, 1 March 2026

Desespero

 
Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
Ary dos Santos

Friday, 27 February 2026

Soneto presente

 
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu
Ary dos Santos

Tuesday, 24 February 2026

KYRIE

 
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos

Saturday, 21 February 2026

NA PASSAGEM DE UM ANO

 
Erros nossos não são de toda a gente
tropeçamos às vezes na entrega
mas retomamos sempre a marcha em frente
massa humana que nada desagrega.
Para nós o passado e o presente
são futuro no qual o povo pega
com as suas mãos de luz incandescente
que aquece que deslumbra mas não cega.
Para nós não há tempo. O tempo é vento
soprando ano após ano sobre a história
que para nós é vida e não memória.
Por isso é que no tempo em movimento
cada ano que passa é menos tempo
para chegar ao tempo da vitória.
José Carlos Ary dos Santos

Wednesday, 18 February 2026

Nona Sinfonia

 
É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
Ary dos Santos

Sunday, 15 February 2026

***

 
A ti ninguém te põe a terra em cima
a não ser a terra que dá trigo
na seara da revolta e do talento.
Não te digam mais nada se não morres
a não ser a força de um amigo
que diz, tudo não por fora mas por dentro.
A ti ninguém te põe a voz em cima
porque nunca se calou quem tem razão.
Operários camponeses são teu leito
e na rua saudade que eu já tenho
quando acordas escreves Maio em solidão
e adormeces com Abril dentro do peito.
Só num verso escreve um grito, bebe um gin
e é com raiva e ternura que tu vestes
o suor e a razão dos explorados
José Carlos ou Poeta ou só Ary,
dos Santos e dos cantos que escreveste
e no campo na cidade são cantados.
As cepas que plantaste nesta vinha
darão uvas com o Sol da madrugada
Inda é cedo p'ra fazer essa vindima
até logo que o futuro se adivinha
até sempre meu amigo e camarada,
aqui ninguém te põe a pata em cima.
POETA TRIGO POETA AMIGO
POETA AMOR EM SOFRIMENTO
SE EU NÃO CANTASSE POETA VIVO
JÁ ESTAVA MORTO HÁ MUITO TEMPO.
POETA FLOR POETA DOR
CORAÇÃO GRANDE
ALMA SERENA
POETA LOUCO DESCANSA UM POUCO
ATÉ AO PRÓXIMO POEMA.
Á esquina do tejo com o mar.
D.l.14974/87 Carlos Paulo

Thursday, 12 February 2026

O Poema Original

 
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
Ary dos Santos