Monday, 24 August 2026

A ti regresso


A ti regresso, mar, ao gosto forte 
Do sal que o vento traz à minha boca, 
À tua claridade, a esta sorte 
Que me foi dada de esquecer a morte 
Sabendo embora como a vida é pouca.
A ti regresso, mar, corpo deitado, 
Ao teu poder de paz e tempestade, 
Ao teu clamor de deus acorrentado, 
De terra feminina rodeado, 
Prisioneiro da própria liberdade.
A ti regresso, mar, como quem sabe 
Dessa tua lição tirar proveito. 
E antes que esta vida se me acabe, 
De toda a água que na terra cabe 
Em vontade tornada, armado o peito.
José Saramago

Friday, 21 August 2026

Flashback


Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
 
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

Nuno Júdice 

Meu corpo


Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti

Teus olhos
São memórias do desejo
São as praias que eu não vejo, em ti
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde eu fico e me revejo, sem ti

Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
As amarras de quem sofre
Quem fica é que se lembra toda a vida
Das saudades de quem parte
E dos olhos de quem morre


Não sei 
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza
Não sei
Mas sei
Que estou para sempre presa
À ternura sem defesa, que eu dei

Sozinha
Numa cama que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu
Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito de vingança, sou eu

Sou eu 
de cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo
sou eu

Ary dos Santos

Tuesday, 18 August 2026

O clitóris


Eis na flor
o nervo mais antigo
na boca dela o botão dos lábios
Centro do gozo no lugar
mais íntimo
Lugar do corpo
de me vir a nado
Cisterna
cisterna
de todo o orgasmo
Maria Teresa Horta
in "As Palavras do Corpo"

Saturday, 15 August 2026

Insónia alentejana


Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar…

Miguel Torga

Wednesday, 12 August 2026

O meu Alentejo


Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,

Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…

Andam asas no ar; e raparigas,

Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…

Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

Florbela Espanca

Sunday, 9 August 2026

Mulher-Resistente

(A Mariana Janeiro em nome de todas
as mulheres que lutaram contra o fascismo)
Eram tantas as torturas...
O chicote sobre a carne
que o corpo te inchava
inchava
pelas vergastas cortado
Eram dias sobre noites
em que os olhos te queimaram
em que as veias te romperam
e os ouvidos te rasgaram
Eram meses sobre meses
na cela
isolada
Torturas quantas sofreste
minha irmã
sempre calada
Que à polícia não se fala
nem que se morra
à pancada!
Maria Teresa Horta