Thursday, 1 October 2026

NO MEIO DO CAMINHO


No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho 
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, 30 September 2026

Soneto do penico


Vê debaixo da cama se o encontras.
Inútil procurá-lo noutro lado,
muito menos nas ruas, ou nas montras
dos novos armazéns que há no Chiado 
Não lhe mexi, não. Há já muitos meses
que não o utilizo. Até me esqueço.
Ficou fora de moda. E por vezes
dá-me aquele ar senil que eu não mereço.
Não é que eu não gostasse de parti-lo.
Calado a noite inteira como um grilo
que possui de nascença uma só asa!
Se calhar é por isso que não canta.
E se não está aí, o que me espanta,
vais ter de procurá-lo em toda a casa.

Joaquim Pessoa

Sunday, 27 September 2026

Um sussurro

Um sussurro 
ou o canto longínquo 
de um pássaro triste 
talvez uma palavra
lançada ao acaso soprada ao vento 
ou a espuma do mar 
tomando conta do meu pensamento 
uma criança perdida estremece de frio dentro de mim 
sozinha ao relento
Ruth Ministro

Thursday, 24 September 2026

Sonata de Outono

Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.
Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.
Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.
Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.
Ary dos Santos

Monday, 21 September 2026

Um Homem não chora


Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!
José Craveirinha

Friday, 18 September 2026

Canção das prostitutas de Lisboa


Eu vi as raparigas do meu povo
que o meu povo fez tão magoadas.
Com os olhos inchados de ternura
e doces olhos, doces como amêndoas.
Eu vi as raparigas magoadas
ilegítimas filhas do meu povo.
Nas esquinas eu vi a madrugada
com um cravo de amargura nos cabelos.
Eu vi as raparigas do meu povo
por entre o meu povo magoado.
Aqui. Em Lisboa. Sobre a mágoa.
Aonde o amor acaba e o mal começa.
Joaquim Pessoa

Tuesday, 15 September 2026

Retrato do Herói


Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.
José Carlos Ary dos Santos