Sunday, 6 September 2026

PORTUGAL, CRAVO VERMELHO


Em vinte e cinco de Abril,
em Portugal, de repente,
no ermo da madrugada,
floriram cravos vermelhos.

Já quarenta e oito anos
a treva nos tinha cegos,
quando da treva rasgada
floriram cravos vermelhos.

Veio a manhã que tardava.
Estava a longa noite finda.
Num rumor de asas de pombas,
floriram cravos vermelhos.

Desde os peitos dos soldados
aos peitos dos marinheiros,
nas próprias metralhadoras,
floriram cravos vermelhos.

Mal rompeu o dia novo,
logo por ruas e praças,
das cidades às aldeias,
floriram cravos vermelhos.

Quer nas mãos dos operários,
quer nas mãos dos camponeses,
no tempo de um pensamento,
floriram cravos vermelhos.

Nos olhos baços dos velhos,
na gralhada das crianças,
no enlevo das mulheres,
floriram cravos vermelhos.

Nas páginas dos escritores,
na atenção dos estudantes,
nas comoções da razão,
floriram cravos vermelhos.

Era um povo renascido
da morte em que estava morto,
em cujos gestos e gritos
floriram cravos vermelhos.

No sol, na lua, no vento,
nas searas, nos montados,
nos olivais, nas charnecas,
floriram cravos vermelhos.

Na voz das fontes e rios,
nas ondas do mar amigo,
nas penedias dos montes,
floriram cravos vermelhos.

No pão, no vinho, nos frutos,
de sangue e suor nutridos,
mais na fome e sede deles,
floriram cravos vermelhos.

No azul do céu profundo,
no branco leve das nuvens,
no canto alegre das aves,
floriram cravos vermelhos.

Na sombra vil das prisões
abertas de par em par,
dos irmãos delas libertos,
floriram cravos vermelhos.

Mas no Primeiro de Maio,
foi que, em todo Portugal,
Portugal todo floriu
num mesmo cravo vermelho.

Armindo Rodrigues

Thursday, 3 September 2026

Soneto menor à chegada do verão


Eis como o verão
Chega de súbito,
Com seus potros fulvos,
Seus dentes miúdos,
Seus múltiplos, longos
Corredores de cal,
As paredes nuas,
A luz de metal,
Seu dardo mais puro
Cravado na terra,
Cobras que despertam
No silêncio duro –
Eis como o verão
Entra no poema.
Eugénio de Andrade

Tuesday, 1 September 2026

CANÇÃO DA CORAGEM


Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
deixaria a minha casa
como se fosse culpada
Nem que a morte me soltasse
todas as velas no sangue
Nem que morte me dissesse:
"Virás de noite comigo..."
eu trairia um amigo
Nem que a morte me levasse
Nem que a morte me dissesse
Nem que vida me fugisse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
deixaria de cantar
Nem que a morte me calasse
Nem que a morte me fechasse
todas as portas do sonho
Nem que a morte acontecesse
bem por dentro dos meus olhos
eu deixaria de viver
todo o amor de joelhos
Nem que a morte me acontecesse
ou me amor, me cegasse
Ai nem que a morte viesse
como só vem a tristeza
eu me dava por vencida
Nem que a morte me doesse
Ai que nem a morte viesse
como só vem a tristeza
E se a morte violentasse
as paredes do meu peito
meu coração lá estaria
como uma rosa de esperança
como um pássaro de sangue
ou uma bala perdida.
Joaquim Pessoa

Sunday, 30 August 2026

Pela liberdade viva


Meu amor
no teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.
Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.
Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.
Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido
Dou-te o meu nome
raiz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos
mas é por outra que vivo
Joaquim Pessoa
Poemas da Resistência (1968/1971)

Thursday, 27 August 2026

Os Comunistas


Os que colocam a alma na pedra,
no ferro, na dura disciplina,
ali vivemos só por amor
e já se sabe que nos dessangramos
quando a estrela foi tergiversada
pela lua sombria do eclipse.
Agora vereis que somos e pensamos.
Agora vereis que somos e seremos.
Somos a prata pura da terra,
o verdadeiro mineral do homem,
a fortificação da esperança;
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.
Pablo Neruda

Monday, 24 August 2026

A ti regresso


A ti regresso, mar, ao gosto forte 
Do sal que o vento traz à minha boca, 
À tua claridade, a esta sorte 
Que me foi dada de esquecer a morte 
Sabendo embora como a vida é pouca.
A ti regresso, mar, corpo deitado, 
Ao teu poder de paz e tempestade, 
Ao teu clamor de deus acorrentado, 
De terra feminina rodeado, 
Prisioneiro da própria liberdade.
A ti regresso, mar, como quem sabe 
Dessa tua lição tirar proveito. 
E antes que esta vida se me acabe, 
De toda a água que na terra cabe 
Em vontade tornada, armado o peito.
José Saramago

Friday, 21 August 2026

Flashback


Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
 
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

Nuno Júdice