Wednesday, 3 June 2026

Instruções para os superiores

 
No dia em que o soldado desconhecido morto na guerra
foi enterrado com salvas de canhão,
de Londres a Singapura parou
ao meio dia ao mesmo tempo,
das doze horas e dois às doze horas e quatro,
durante dois minutos completos,
todo o trabalho,
só com o fim de honrar o
Soldado Desconhecido Morto na Guerra.
Mas, apesar disso tudo, talvez
se devesse ordenar
que ao Trabalhador Desconhecido
das grandes cidades dos Continentes povoados
se prestassem também honras finalmente.
Um homem qualquer da rede do trânsito,
cuja face não fora notada,
cujo ser secreto passara despercebido,
cujo nome não fora ouvido distintamente,
um tal homem devia,
no interesse de todos nós,
ser contemplado com honras de excepção,
com uma alocução na rádio
«Ao Trabalhador Desconhecido»
e
com um pausa no trabalho de todos os homens
por todo o Planeta.
Bertolt Brecht

Monday, 1 June 2026

DIA 196

 
O que leva um homem a mudar?
Talvez os erros, talvez a paixão, talvez a sombra do cansaço. Pego na tua mão e beijo-a. Pego na tua mão e danço. Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois. Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira. Hoje, só o meu coração sabe dançar. A tua outra mão segura-o, partilha-o, é testemunha desta forma de alegria.
Escuta esta música que a noite sorri. Sente como, através dela, se excitam já os tímbalos, se apaixonam as cordas, como exulta o oboé. É uma música magnífica que se alimenta da luz, incandescendo as emoções. Pensamentos, desejos, nervos, tudo gritando por dentro. Não sinto o teu corpo, não sinto o meu corpo, tudo é transparência, tudo é fantasia, e assim são as palavras.
Movo-me contigo respirando o segredo noturno dos desertos. Não tenho ideias, nem casa, nem sei adormecer. Inspiro-te. Respiro-te. O cansaço é doce, estupendo, para sempre. À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a inquietação é um fruto excitante por colher. Não pares. Continua a dançar comigo. Como se fizéssemos amor.
Joaquim Pessoa

Saturday, 30 May 2026

Liberdade

 
Se exijo liberdade
Tenho firmeza
Se digo liberdade
Passo a mensagem
Se afirmo liberdade
Vem a beleza
Se escrevo liberdade
Canto a coragem.
Maria Teresa Horta
(poema escrito para o centenário do
Partido Comunista Português)

Wednesday, 27 May 2026

Morrer de amor

 
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Maria Teresa Horta

Sunday, 24 May 2026

Se me esqueceres


Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda

Thursday, 21 May 2026

Para um Pássaro

 
Deixa o poema ser um pássaro de alegria e abre-lhe a janela.
Dá-lhe o ramo mais verde ou o céu mais azul
e deixa-o cantar no coração dos homens.
Não o retenhas nas tuas mãos
ou nos teus lábios onde cresce o frio.
Dá-lhe o teu sangue a beber
ou a madrugada — e deixa-o partir.
Os olhos das crianças estão à sua espera,
os ombros das raparigas estão à sua espera,
os amantes desesperados estão à sua espera!
Enche a alma de felicidade ou de barcos
quando o vires partir.
Deixa-o ser livre.
Deixa-o ser pássaro!
Eugénio de Andrade

Monday, 18 May 2026

As Putas da Avenida

 
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
Fernando Assis Pacheco