Saturday, 9 May 2026

DIGO QUE NÃO SOU UM HOMEM PURO

 
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se a pureza existe.
Ou se ela é, digamos, necessária.
Ou possível.
Ou se é agradável.
Acaso alguma
vez bebeste água quimicamente pura,
água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
água não mais feita de oxigénio e hidrogénio?
Puf!, que porcaria.
Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas precisamente o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois o meu amor pode dizer o seu nome)
e gosto de carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e marisco,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (mesmo com o estômago cheio).
Sou impuro, que queres que te diga?
Totalmente impuro.
No entanto,
penso que há no mundo muitas coisas puras
que mais não são que pura merda.
Por exemplo, a pureza do nonagenário virgem.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de
dormirem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
a fauna pederasta
abre as suas flores de sémen provisório.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que afiançam
que é preciso ser puro, puro, puro.
A pureza dos que
nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza que nunca sugou um clítoris.
A pureza que nunca pariu.
A pureza que nunca gerou.
A pureza do que bate no peito e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, um diabo, um diabo.
A pureza, enfim,
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.
Ponto final, data e assinatura.
Assim fica escrito.
Nicolás Guillén
(Cuba, 1902-1989)

Wednesday, 6 May 2026

Férias

 

Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros  um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar  como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão

E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.

Ary dos SantosO sangue das Palavras

Sunday, 3 May 2026

Samba da Utopia

Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra TIRANIA

Pegue o tambor e o ganzá
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA

Jonathan Silva

Friday, 1 May 2026

Canção de Amor

 
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.
Joaquim Pessoa

Thursday, 30 April 2026

Corpo habitado

 
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.
Eugénio de Andrade

Friday, 24 April 2026

A noite do meu bem

 
Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.

Dolores Duran

Tuesday, 21 April 2026

Voltar para casa

 
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?
Manuel Resende