Friday, 9 October 2026

Onde é que tu moras?

Meu amor dormindo
Meu sonho acordado
Teu ventre parindo
Um cravo encarnado.
Onde é que tu moras
Meu lençol de espanto
Por quem é que choras
Quando eu te canto.
Aqui
À procura de ti nesta canção
Vou dando tudo em troca desse não
Que faz do meu poema solidão.
Aqui
Tão só como a certeza em que te espero
Dentro de mim renasce o desespero
Por tudo o que eu não amo o que eu não quero.
Aqui
Entre rosas de raiva e de tormento
Trago anéis de silêncio e sofrimento
Conto as forças de sangue que há no vento.
Aqui
Tenho a fúria nos dedos desenhada
Farei do nosso amor a barricada
Perdendo quase tudo quase nada.
Meu amor dormindo
Meu sonho acordado
Teu ventre parindo
Um cravo encarnado.
Onde é que tu moras
Meu lençol de espanto
Por quem é que choras
Quando eu te canto.
Meu azul doendo
Meu barco parado
Pássaro morrendo
Mas sem ter voado
Joaquim Pessoa

Tuesday, 6 October 2026

Pássaro

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Saturday, 3 October 2026

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill, 
in 'Feira Cabisbaixa'

Thursday, 1 October 2026

NO MEIO DO CAMINHO


No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho 
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, 30 September 2026

Soneto do penico


Vê debaixo da cama se o encontras.
Inútil procurá-lo noutro lado,
muito menos nas ruas, ou nas montras
dos novos armazéns que há no Chiado 
Não lhe mexi, não. Há já muitos meses
que não o utilizo. Até me esqueço.
Ficou fora de moda. E por vezes
dá-me aquele ar senil que eu não mereço.
Não é que eu não gostasse de parti-lo.
Calado a noite inteira como um grilo
que possui de nascença uma só asa!
Se calhar é por isso que não canta.
E se não está aí, o que me espanta,
vais ter de procurá-lo em toda a casa.

Joaquim Pessoa

Sunday, 27 September 2026

Um sussurro

Um sussurro 
ou o canto longínquo 
de um pássaro triste 
talvez uma palavra
lançada ao acaso soprada ao vento 
ou a espuma do mar 
tomando conta do meu pensamento 
uma criança perdida estremece de frio dentro de mim 
sozinha ao relento
Ruth Ministro

Thursday, 24 September 2026

Sonata de Outono

Inverno não ainda mas Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.
Acordar é a forma de ter sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.
Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.
Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
pois viver é também acontecer.
Ary dos Santos