Friday, 15 May 2026

Intelectuais apolíticos

 
Um dia,
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo.
Serão questionados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente
como uma fogueira frágil,
pequena e só.
Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
sestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar ao dinheiro.
Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentirão de si,
quando alguém, no seu íntimo,
se dispunha a morrer
cobardemente.
Ninguém lhes perguntará
sobre as suas justificações
absurdas,
crescidas na sombra
de uma rotunda mentira.
Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros de versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que iam todos os dias
levar-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que lhes costuravam a roupa,
os que conduziam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimavam,
gravemente, a ternura e a vida?”
Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.
Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.
Otto Rene Castillo

Tuesday, 12 May 2026

CANTIGA À RALIDADE

 
S’a ralidade não me chatiar
Não vou eu chatiar a ralidade.
Porém, essa megera sem idade
Não tem tempo e fronteiras, não tem lar,
Não tem respeito, sempre a dar a dar,
Remexe-me no peito, busca o qu’ há-de
Servir-lhe de pretexto pra provar
que continua a mesma ralidade.
E eu que tenho mais o que fazer,
Dormir, dormir, morrer, talvez sonhar
–Ou contra o cruel fado a ‘spada erguer.
Mas esta dor no peito, a falta de ar,
Esta barba há três dias por fazer
Já ´stão à minha espreita ao despertar.
Manuel Resende

Saturday, 9 May 2026

DIGO QUE NÃO SOU UM HOMEM PURO

 
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se a pureza existe.
Ou se ela é, digamos, necessária.
Ou possível.
Ou se é agradável.
Acaso alguma
vez bebeste água quimicamente pura,
água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
água não mais feita de oxigénio e hidrogénio?
Puf!, que porcaria.
Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas precisamente o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois o meu amor pode dizer o seu nome)
e gosto de carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e marisco,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (mesmo com o estômago cheio).
Sou impuro, que queres que te diga?
Totalmente impuro.
No entanto,
penso que há no mundo muitas coisas puras
que mais não são que pura merda.
Por exemplo, a pureza do nonagenário virgem.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de
dormirem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
a fauna pederasta
abre as suas flores de sémen provisório.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que afiançam
que é preciso ser puro, puro, puro.
A pureza dos que
nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza que nunca sugou um clítoris.
A pureza que nunca pariu.
A pureza que nunca gerou.
A pureza do que bate no peito e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, um diabo, um diabo.
A pureza, enfim,
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.
Ponto final, data e assinatura.
Assim fica escrito.
Nicolás Guillén
(Cuba, 1902-1989)

Wednesday, 6 May 2026

Férias

 

Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros  um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar  como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão

E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.

Ary dos SantosO sangue das Palavras

Sunday, 3 May 2026

Samba da Utopia

Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra TIRANIA

Pegue o tambor e o ganzá
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA

Jonathan Silva

Friday, 1 May 2026

Canção de Amor

 
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.
Joaquim Pessoa

Thursday, 30 April 2026

Corpo habitado

 
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.
Eugénio de Andrade