Saturday, 1 August 2026

Palavra acesa


Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama

Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada 

José Francisco das Chagas

Thursday, 30 July 2026

A cavalo no vento

 
A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

David Mourão Ferreira

Monday, 27 July 2026

Didáctica

 

Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos

Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

David Mourão-Ferreira

Friday, 24 July 2026

Instante

 

Quem retirou o navio
de diante do terraço?

Porque fica emudecido
agora mesmo este pássaro?

Ouço de repente um silvo
como se ardesse um teatro.

E nada disto é comigo.
Mas sinto-me abandonado.

David Mourão-Ferreira

Tuesday, 21 July 2026

Labirinto ou não foi nada

 

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

Saturday, 18 July 2026

Soneto do cativo

 

Se é sem duvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira

Wednesday, 15 July 2026

Aviso de mobilização

 

Passaram pelo meu nome e eu era um número

– menos que a folha seca de um herbário.

Colheram-no com mãos de zelo e gelo;

escreveram-no, sem mágoa, num postal.

 

Convite a que morresse. .. mas por quê?

Convite a que matasse. .. mas por quem?

Ó vago amanuense, ó apressado

e súbito verdugo, que te ocultas

numa rubrica rápida, ilegível,

que dirás tu do meu e de outros nomes,

que dirás tu de mim e de outros mais,

no Dia do Juízo já tão próximo

– que dirás tu de nós, se nem tremeu,

na rápida rubrica, a tua mão?

 

Bem sei que a tua mão só executa;

mas para além do ombro a ti pertences.

Bem puderas chorar, ter hesitado. . .

– A mancha de uma lágrima bastara

para dar um sentido a esta morte

a que a tua indiferença nos convoca!

 

david mourão ferreira

tempestade de verão