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Thursday, 30 April 2015
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Não morrerei.
Procurarei a sombra dos amieiros
-podes encontrar-me lá,
Quando buscares os meus dedos
À tua sede.
Junto ao rio
Adormecem as inquietações.
A vida toda fui lume
A consumir ao vento dos dias
O desassossego das giestas.
Procura-me lá.
Rente ao fresco
Como as tuas mãos frias
Depois do fogo.
Lains de Ourém
Monday, 30 March 2015
Vem
Vem
Enleia os teus braços
Como o sol das sete da tarde
Desmaia sobre os lilases.
Quem és?
Trazes agarrado à pele
Vestígios peregrinos
De quem busca resposta para a sede.
Já vi muitos morrerem disso
Nesta estepe que habito.
Chegam, abrem o hiato das bocas
Secas
Como se quisessem uivar qualquer injustiça
Antiga
e que lhes corrói a urgência da pele.
Depois
Deixam-se cobrir pelo salitre
Que vai gretando os corpos
Aos montes
Abandonados.
Como despojos de guerra
da minha fome.
Ao certo, sei dizer-te
Nenhumas pernas produziram sémen como as tuas
Quando me devoraram o desejo
Que eram palavras na garganta.
Muda, Eufórica, desnuda
Pelo álcool que a tua ausência obriga.
Não sei de onde venho
Apenas que me findo.
Olho as mãos. Prometem pó.
Se ao menos pudessem alcançar-te ainda...
Recolho os vestígios da fogueira
(o mundo é tão escuro
Visto de dentro)
Aceno um adeus triste ao meu pai
(então, meu querido, essa reforma agrária?)
Arrasto o corpo como cão atropelado
Em dia de calor
Para a sombra do riso.
Escarneço.
Porque entregam os deuses à morte
Os homens nascidos?
Lains de ourém
Monday, 12 January 2015
*
Escrevo em silêncio
A palavra mora debaixo
Do linho
Rente ao arrepio da pele.
Sorvo-a
Demoro-me
E lá encontro o sentido
Possível
Para a desarrumação do mundo.
Sei então
O lugar da sede
Onde o pó do tempo
Demora a pousar
E ninguém se lembra mais da morte.
São segundos de fome
E nem o delírio das mãos
Sabe mesmo
Do inicio da matéria.
Apenas os viajantes
Mais antigos
Sabem deste mar
Onde o sal das águas
É a vontade dos dedos
Em ânsia
À procura de carne
que lhes dê fôlego.
Todos habitamos o limiar da loucura
Ou não fosse a canina solidão
Capaz de tão afiados dizeres.
Não sei de onde venho
Nem que paisagens rasgar
Mas tenho o rosto do que amo
Agarrado ao tacto cego
E às milhas por andar
Da saudade
(outro nome para a memória
Do que fomos construindo)
E da imensa estepe
Que sempre rompe
As membranas finas
Que vamos
Teimosamente
Ancorando nos outros.
Também eles
Bestas feridas
Buscando em todos
(como mães à pergunta do filho morto)
Alguma ternura que nos salve.
Lains de Ourém
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