Sunday, 18 January 2015

Viver sempre também cansa


O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

José Gomes Ferreira



Thursday, 15 January 2015

TESTAMENTO


Abre os olhos - o sol é teu.
Mergulha as mãos - a água é tua.
Deixo-te o sol, o mar o céu
que poisa no beiral da nossa rua.
E os trigais do dia que desponta
e as flores da terra que me cobre.
Toda a riqueza milenar, sem conta,
de mais um poeta pobre.

Deixo-te as palavras que não gritaram
estranguladas pelo nó do medo;
e as outras, fuziladas, que tombaram
nos pátios do degredo.
E os sonhos por abrir; hoje, no sono
dos séculos que chamaram eterno.
Toda a Primavera, todo o Outono,
das minhas árvores de Inverno.
E a luta que fundiu meu coração
num canto que sangrou certeza:
depois de mim virás, ó meu irmão!,
mais claro e mais limpo de tristeza.

Luís Veiga Leitão

Monday, 12 January 2015

*


Escrevo em silêncio
A palavra mora debaixo
Do linho
Rente ao arrepio da pele.
Sorvo-a
Demoro-me
E lá encontro o sentido
Possível
Para a desarrumação do mundo.

Sei então
O lugar da sede
Onde o pó do tempo
Demora a pousar
E ninguém se lembra mais da morte.
São segundos de fome
E nem o delírio das mãos
Sabe mesmo
Do inicio da matéria.
Apenas os viajantes
Mais antigos
Sabem deste mar
Onde o sal das águas
É a vontade dos dedos
Em ânsia
À procura de carne
que lhes dê fôlego.
Todos habitamos o limiar da loucura
Ou não fosse a canina solidão
Capaz de tão afiados dizeres.
Não sei de onde venho
Nem que paisagens rasgar
Mas tenho o rosto do que amo
Agarrado ao tacto cego
E às milhas por andar
Da saudade
(outro nome para a memória
Do que fomos construindo)
E da imensa estepe
Que sempre rompe
As membranas finas
Que vamos
Teimosamente
Ancorando nos outros.
Também eles
Bestas feridas
Buscando em todos
(como mães à pergunta do filho morto)
Alguma ternura que nos salve.

Lains de Ourém

Friday, 9 January 2015

DE CABEÇA LEVANTADA

A história que se segue foi-me enviada por um amigo - e completada por umas quantas buscas minhas na internet.
É a homenagem do Cravo de Abril à memória dos heróicos jogadores de futebol do Dínamo/FCStart, que souberam morrer de cabeça levantada enfrentando os criminosos nazis.


Nos ano de 1941, as hordas nazis invadiram a Ucrânia - então uma República da União Soviética.
O país, e de forma especial a cidade de Kiev - a capital - transformou-se num inferno de violência, repressão, perseguições, prisões, terror.
A dada altura, os alemães levaram para Kiev centenas de prisioneiros de guerra, que não estavam autorizados nem a viver nas casas nem a trabalhar, pelo que, doentes e desnutridos, vagueavam pelas ruas, na mais absoluta indigência.

Entre esses soldados estava Nikolai Trusevich, o outrora famoso guarda-redes daquela que era a mais popular de todas as equipas de futebol da época - o Dínamo de Kiev.
Aí o descobriu, um dia, um tal Josef Kordik, adepto fervoroso do Dínamo, dono de uma padaria e que, por ser alemão se movimentava relativamente à vontade na cidade ocupada.
Kordik, violando as leis dos ocupantes nazis, levou para a padaria o seu ídolo Trusevich, com o qual viria a firmar grande amizade e ao qual deu a tarefa de encontrar os seus antigos colegas de equipa.

Trusevich percorreu a cidade devastada dia e noite e foi descobrindo, um a um, os seus colegas do Dínamo. Na busca, encontrou ainda três futebolistas da equipa russa do Lokomotiv, que antes fora grande rival do Dínamo.
Daí a criarem uma equipa de futebol - sempre fortemente estimulados pelo padeiro Kordik - foi um passo .
Como o Dínamo tinha sido proibido pelos nazis, deram à nova equipa o nome de FC Start, que, em 7 de Junho, de 1942, realizou o seu primeiro jogo, precisamente com uma equipa formada por soldados alemães - o FC Start venceu por 7 a 2.
O segundo jogo foi com uma equipa da guarnição húngara e o FC Start venceu por 6 a 2.
O terceiro, com uma equipa romena e o resultado final foi 11 a 0...
E assim sucessivamente, até que as vitórias do FC Start começaram a irritar os ocupantes nazis, que, a 17 de Julho, enviaram uma equipa do exército alemão para esmagar a canalha... e o resultado foi 6 a 2 - vitória do FC Start, obviamente...
Entretanto, a equipa do FC Start tornara-se um caso sério de popularidade: as suas vitórias sobre equipas dos ocupantes ganhavam um significado político e os campos de futebol enchiam-se de entusiasmados adeptos do Dínamo disfarçado, que eram, ao mesmo tempo, patriotas e militantes anti-nazis.
Os alemães requisitaram, então uma equipa de muito maior qualidade - o MSG, da Hungria - para acabar com aquilo: no primeiro jogo, o FC Start venceu por 5 a 1 e no jogo de desforra exigido pelos vencidos, voltou a ganhar, desta vez por 3 a 2.

Foi então que os alemães decidiram arrumar de vez a questão. Uma equipa composta por membros da Luftwaffe - o Flakelf, que era uma forte equipa e, como tal, era utilizada como instrumento da propaganda hitleriana, foi chamada a pôr ponto final nas façanhas desportivas dos futebolistas do FC Start...
Ou seja: os nazis recorreram ao melhor que tinham para acabar de vez com a atrevida invencibilidade do FC Start e estavam certos de que era isso que iria acontecer.
Por isso, foi grande o seu espanto e maior ainda a sua raiva quando, no final do jogo, a equipa de Hitler saiu derrotada por um humilhante 5 a 1...

Era demais!
E, de Berlim chegou a ordem para acabar com todos eles, o padeiro Kordik incluído.
Todavia, os chefes nazis ocupantes não se contentaram com isso: não queriam que a última imagem de todo aquele processo fosse a da equipa invencível e que, ainda por cima, tinha derrotado a selecção de Hitler.
E decidiram que, antes de os fuzilar, iriam fazer o grande jogo - e que, perante os badamecos soviéticos iriam demonstrar a superioridade da raça ariana...

O jogo foi em 9 de Agosto de 1942, com o estádio Zenit cheio de uma multidão que aplaudia e incitava os jogadores do FC Start - e vaiava os alemães.
Antes do início do jogo, um oficial das SS foi à cabine e, em russo, informou que iria ser ele o árbitro da partida e que todos deviam respeitar as regras, a começar pela de fazer a saudação nazi...
Alinhadas as duas equipas no campo, os jogadores do Flakelf - de camisolas brancas e calções pretos - bateram os calcanhares, fizeram a saudação nazi e gritaram «Heil Hitler!», enquanto os do FC Start - de camisolas vermelhas e calções brancos - levaram as mãos ao peito e gritaram «Fitzculthura!» - expressão soviética que proclamava a cultura física.


Ao intervalo, apesar da absoluta e escandalosa parcialidade do árbitro, o FC Start vencia por 2 a 1... e um outro oficial das SS foi à cabine dizer como era e que pode resumir-se em meia dúzia de palavra: se ganharem o jogo serão todos mortos.

Os atletas do FC Start consideraram a situação, pesaram prós e contras, colocaram a hipótese de não reentrarem em campo para a segunda parte... mas pensaram nas suas famílias em grande parte assassinadas pelos nazis... pensaram nos crimes cometidos pelos ocupantes... e ouviam a multidão, nas bancadas do estádio, gritando por eles...
E decidiram ir jogar - com a consciência de que com tal opção estavam a condenar-se à morte.

Deram um baile de futebol aos nazis. A dada altura, o avançado Klimenko, fintou o guarda-redes alemão deixando-o caído no terreno e, com a baliza à mercê, num gesto de desprezo, de superioridade absoluta, deixou a bola na linha de golo e virou as costas ao guarda-redes - assim com quem diz não marcamos mais golos porque não queremos...
O FC Start ganhou por 5 a 3.
Os jogadores saíram do campo sob os aplausos vibrantes da multidão que enchia as bancadas - e, hoje, 70 anos passados, os possuidores dos bilhetes daquele jogo memorável, têm entrada livre no estádio do Dínamo de Kiev.

O primeiro a morrer, torturado em frente de todos os outros, foi o padeiro Kordik.
Klimenko, Kuzmenko e Trusevich (este com a camisola do FC Start vestida) foram brutalmente assassinados no campo de concentração de Siretz...
Os restantes foram torturados até à morte - à excepção de dois - Goncharenko e Sviridovski - que conseguiram fugir e sobreviver até à libertação de Kiev, pelo Exército Vermelho, em Novembro de 1943.

Um monumento erguido em Kiev, homenageia esses heróicos futebolistas e cidadãos soviéticos - e nele pode ler-se: «AOS JOGADORES QUE MORRERAM DE CABEÇA LEVANTADA ANTE O INVASOR NAZI».

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Meus amigos:
A partir de hoje, vou fazer uma pausa - breve, espero - nestes encontros diários convosco.
Voltarei.
Talvez em Abril - com os Cravos...

E não esqueçam: dia 11, o encontro é no Terreiro de Paço.

Abraços.
Fernando Samuel

Tuesday, 6 January 2015

A divisão do frango


Alguns ficam com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
Uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
«dava a parte melhor do frango aos seus irmãos».

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficariam com as minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
aparte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
Que eu crescesse. É natural.
Em tempos de aviários, ninguém espera isso de um frango.
 

Filipa Leal

Saturday, 3 January 2015

MULHER-RESISTENTE

A Mariana Janeiro em nome de todas
as mulheres que lutaram contra o fascismo


Eram tantas as torturas...
O Chicote sobre a carne
que o corpo te inchava
inchava
pelas vergastas cortado

Eram dias sobre noites
em que os olhos te queimaram
em que as veias te romperam
e os ouvidos te rasgaram

Eram meses sobre meses
na cela

isolada

Torturas quantas sofreste
minha irmã
sempre calada

Que à polícia não se fala
nem que se morra
à pancada!


Maria Teresa Horta

Thursday, 1 January 2015

*


dispo-me de velhos lençóis
acumulados como os velhos sonhos
à beira do tempo que foi nosso
e onde tudo já se perdeu menos
a memória que hei-de guardar
das horas em que não percebi
que esquecias o meu nome
por entre nomes soletrados naqueles
lentos minutos em que o sono não vinha

só muito tarde percebi que
o nosso amor era apenas um
inquilino temporário da nossa pele
roubado sabe-se lá a quem
até ao dia em que disseste tenho pressa

e aquela espessura transparente que
só na cama as almas ganham
desapareceu como se descesse
sem ruído as escadas das nossas noites
e do que restava dos nossos corpos
- peças roídas de engrenagens vazias
que te habitavam até saíres de mim
como de um lugar incómodo


Alice Vieira