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Tuesday, 18 August 2026

O clitóris


Eis na flor
o nervo mais antigo
na boca dela o botão dos lábios
Centro do gozo no lugar
mais íntimo
Lugar do corpo
de me vir a nado
Cisterna
cisterna
de todo o orgasmo
Maria Teresa Horta
in "As Palavras do Corpo"

Sunday, 9 August 2026

Mulher-Resistente

(A Mariana Janeiro em nome de todas
as mulheres que lutaram contra o fascismo)
Eram tantas as torturas...
O chicote sobre a carne
que o corpo te inchava
inchava
pelas vergastas cortado
Eram dias sobre noites
em que os olhos te queimaram
em que as veias te romperam
e os ouvidos te rasgaram
Eram meses sobre meses
na cela
isolada
Torturas quantas sofreste
minha irmã
sempre calada
Que à polícia não se fala
nem que se morra
à pancada!
Maria Teresa Horta

Saturday, 30 May 2026

Liberdade

 
Se exijo liberdade
Tenho firmeza
Se digo liberdade
Passo a mensagem
Se afirmo liberdade
Vem a beleza
Se escrevo liberdade
Canto a coragem.
Maria Teresa Horta
(poema escrito para o centenário do
Partido Comunista Português)

Wednesday, 27 May 2026

Morrer de amor

 
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Maria Teresa Horta

Tuesday, 30 April 2024

AS MULHERES E O 1º DE MAIO

Tanto povo!
Tanto povo!
*
Tanta bandeira
vermelha!
*
Tanta mulher que caminha
Cantando à sua maneira
Camponesas e operárias
Todas elas companheiras
*
Ombro a ombro com os homens
os filhos às cavaleiras
*
Tanto povo!
Tanto povo!
*
Tanta bandeira
vermelha!

Maria Teresa Horta

Saturday, 9 May 2020

DESCRENTE


Sou uma descrente
ensombrada

que acredita somente
na invenção da palavra
poética e sol poente

Só da poesia sou crente

Maria Teresa Horta

Saturday, 18 January 2020

GOLPE DE MÃO


Conforme o destino me derruba
e eu me ergo
ignorando o pancada com um golpe de mão

A febre das folhas na raiz
do silêncio

O negrume do medo
a ferir de raspão

De borco fica a morte
a finura da asa
a fissura da alma que me enleia

A dúvida acesa
sem que nunca se acalme
e me vai magoando a vida inteira

Maria Teresa Horta

Wednesday, 12 June 2019

Segredo


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
*
nem que corro
os cortinados
para uma sombra mais espessa
*
deixa que feche o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço
*
Não contes do meu
vestido
nem da roca de fiar
*
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
*

Maria Teresa Horta

Tuesday, 9 October 2018

MINHA SENHORA DE MIM


Comigo me desavim
minha senhora
de mim
*
sem ser nem ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
*
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
*
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
*
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Maria Teresa Horta

Saturday, 30 June 2018

Tantos anos


Tantos anos depois
meu amor
tanta paixão
*
tanto fogo de chama
acicatada
*
tanto desejo
meu amor
pelo teu corpo
*
nesta entrega
de nós
inseparável

*

Maria Teresa Horta

Wednesday, 27 June 2018

Êxtase e Perdição


Sempre
que me despia
eu vestia a desmesura
*
entretecendo o prazer
da vertigem
com a loucura
*
na minha entrega
sem pressa
de êxtase e perdição
*
Sempre
que me despia
eu vestia o coração

*

Maria Teresa Horta

Sunday, 24 June 2018

Voamos


Voamos a lua
menstruadas
*
Os homens gritam:
- são as bruxas
*:
As mulheres pensam:
- são os anjos
*
As crianças dizem:
- são as fadas

*

Maria Teresa Horta

Thursday, 21 June 2018

No lençol da minha página


Faço poesia erótica
quando me deito contigo
no lençol da minha página
*
ao escrever o infinito
*
A iludir a vertigem
da paixão que eu persigo
sem confessar o desejo
*
de fazer amor contigo

*

Maria Teresa Horta

Monday, 18 June 2018

VIAGEM



Desejo-te que mordas
o meu pulso
desejas-me ir tocar o cotovelo
*
Entreabres-me as pernas
tão de súbito
e devagar afagas-me os cabelos
*
Debruças-te sobre a boca que tão ávida
se abre no meu corpo
e ao descê-lo
*
Vais nadando de bruços
e na viagem
preferes morrer de amor do que perdê-lo

*

Maria Teresa Horta

Monday, 12 June 2017

DISPO


Cerco e troco
escrevo e ponho
*
Levanto a saia e o subido
mostra a bainha do corpo
descubro o nu no vestido
*
Perpasso as mãos
nas penumbras
desacato o que é restrito
Disponho do proibido
permito, dispo
desdigo
*
Caminho pelo prazer
por onde afirmo e prossigo

Maria Teresa Horta

Wednesday, 12 October 2016

DESOBEDIÊNCIA


Sou feita de muitos
nós
desobediência e meio-dia

Sou aquela que negou
aquilo
que os outros queriam

Disse não à minha sina
de destino preparado

Recusei as ordens escusas
preferi a liberdade
e vivo deste meu lado

Maria Teresa Horta

Tuesday, 6 September 2016

PERDIMENTO


É como se nós os dois
dançássemos
o perdimento

Tu de rojo a meus pés
e eu erguida num ímpeto
a tentar turbar o tempo

As minhas mãos
a suster
e as tuas a empurrar

num mesmo gesto sedento

A entrega e a recusa
o corpo e o pensamento

Maria Teresa Horta

Saturday, 18 June 2016

SEM VASSALAGEM


Nada mais de mim
haverá memória

- sei -

só os poemas darão conta
de minha avidez

da minha passagem

Da minha limpidez
sem vassalagem

Maria Teresa Horta

Monday, 6 June 2016

POEMA AO CUIDADO


Cuidado de mal amado
meu mal
de mal cuidado
*
novas de dano chorado
ou perjuro do que
afirmo
quando olho o meu cuidado
*
Cuidado meu fruto
cedo
colhido sobre o seu
ramo
*
cuidado de muito engano
quando descanso o cuidado
como a cuidar de quem amo

Maria Teresa Horta

Thursday, 30 July 2015

A MINHA SECRETÁRIA


Tenho um ramo
de nuvens
na minha secretária

por entre versos
cartas
cadernos e diários

uma caneta
com tinta de gardénia
de paixão e soneto

E na gaveta de segredo
porque
a poesia salva

eu guardo a minha alma

Maria Teresa Horta