Thursday, 21 May 2026

Para um Pássaro

 
Deixa o poema ser um pássaro de alegria e abre-lhe a janela.
Dá-lhe o ramo mais verde ou o céu mais azul
e deixa-o cantar no coração dos homens.
Não o retenhas nas tuas mãos
ou nos teus lábios onde cresce o frio.
Dá-lhe o teu sangue a beber
ou a madrugada — e deixa-o partir.
Os olhos das crianças estão à sua espera,
os ombros das raparigas estão à sua espera,
os amantes desesperados estão à sua espera!
Enche a alma de felicidade ou de barcos
quando o vires partir.
Deixa-o ser livre.
Deixa-o ser pássaro!
Eugénio de Andrade