Tuesday, 30 December 2025

Exercícios de ser criança

 
No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo
Manoel de Barros

Saturday, 27 December 2025

AS NOITES ACABAM SEMPRE NO FUTURO

 
Quando o céu gira à volta da minha cabeça,
desaba uma trovoada estremecendo os animais
que acordam dentro de mim. Tudo me surpreende
e não conheço nenhuma razão para sofrer calado,
como azeitona no lagar, tão longe da árvore,
trocando a claridade por uma sombra fechada e húmida,
corpo exigindo um motim, uma festa no sangue,
quando tudo está a um palmo da respiração
e a dois da realidade. As noites acabam sempre
no futuro e é aí que procuro a clara raiz do dia,
esse diamante breve que resgata o próprio chão,
para de novo semear a paixão, com inteligência
e luz, como faz, em cada ano, a primavera.

Wednesday, 24 December 2025

Natal, e não Dezembro

 
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira

Sunday, 21 December 2025

FÁBULA

 
O lobo foi ter
com a galinha
e disse-lhe:
«Devíamos conhecer-nos
melhor para vivermos
com amor e confiança.»
A galinha achou bem
e foi com o lobo.
Foi por isso que as suas
penas ficaram espalhadas
por todo o lado.
Bertold Brecht

Thursday, 18 December 2025

*

 
As traineiras abrigam-se na barra,
os mastros em fantástico arvoredo.
São peixes coloridos, de brinquedo,
e eu o triste rapaz que solta a amarra.
Os telhados reúnem-se no largo,
assembleia de pobres e crianças.
Em falas, cantos cobram-se esperanças.
Homens chegam do mar com rosto amargo.
Lá baixo a vaga escreve na muralha
a história destes muros. Toda em brios
salta adiante o Baleal e falha.
E na gávea da velha fortaleza,
fico a seguir o rumo dos navios,
num choro de asas de gaivota presa.
António Borges Coelho
Nota: Na Fortaleza de Peniche, no espaço onde funcionava o Parlatório há vários testemunhos de prisioneiros. Entre eles existe um manuscrito deste poema.

Tuesday, 16 December 2025

Massacre de Wiriyamu

 
A16 de dezembro de 1972 teve lugar um dos episódios mais tenebrosos do colonialismo português, conhecido como “Massacre de Wiriyamu”. Uma operação, com o nome de código “Marosca”, que envolveu aviação, elementos dos comandos e agentes da PIDE/DGS, decorreu na zona de Tete, no Norte de Moçambique, visando cinco aldeias: Wiriyamu, Juwau, Djemusse, Riacho e Chaworha.
Depois de lançadas bombas sobre a aldeia de Wiriyamu, entraram em ação os militares dos Comandos e seguiu-se a barbárie. O morticínio estender-se-ia às referidas quatro povoações ao longo do rio Zambeze sob variadas e desumanas formas. Centenas de pessoas são chacinadas, entre elas mulheres e crianças. Muitas são fechadas dentro das cubatas onde morrem carbonizadas por ação de granadas incendiárias, outras são simplesmente fuziladas. Soldados destroem palhotas, infraestruturas e aldeias, saqueiam bens, abrem fogo sobre pessoas cujos corpos são depois colocados, com alguns vivos pelo meio, em piras funerárias para serem consumidos pelo fogo.
385 pessoas terão morrido, cerca de um terço dos 1350 habitantes das cinco aldeias. A listagem das vítimas e o relato dos acontecimentos são apurados por Domingo Kansande e pelo padre Domingos Ferrão que faz chegar as informações a padres espanhóis e holandeses. O massacre seria divulgado pelo também padre inglês Adrian Hastings no jornal britânico “The Times”, a 10 de julho de 1973, dias antes da visita de Marcelo Caetano a Londres. O caso chegaria ainda à Organização das Nações Unidas.
Oficialmente, Portugal nunca assumiu o sucedido neste episódio que, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade recorda, evocando as vítimas.
📷 Documento presente no Centro de Documentação do @museudoaljube, 16.12.72 | BMRR – Biblioteca-Museu República e Resistência



Monday, 15 December 2025

MEU GLORIOSO PARTIDO

 
Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.
Na multidão já fui só.
Hoje, em mim, sou multidão.
Basta-me aceitar que sou
como os demais homens são.
O olhar antes estreito
em redor passou-me a ver.
Meu coração no meu peito,
oiço-te noutros bater.
A voz que isolada era
fundia-a numa maior.
Fez-se-me a dor primavera
e a desconfiança amor.
A própria pátria que eu tinha,
idêntica a não ter nada,
de alheia voltou a minha,
pelo teu dom reconquistada.
Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.
Armindo Rodrigues