Showing posts with label António Borges Coelho. Show all posts
Showing posts with label António Borges Coelho. Show all posts

Thursday, 18 December 2025

*

 
As traineiras abrigam-se na barra,
os mastros em fantástico arvoredo.
São peixes coloridos, de brinquedo,
e eu o triste rapaz que solta a amarra.
Os telhados reúnem-se no largo,
assembleia de pobres e crianças.
Em falas, cantos cobram-se esperanças.
Homens chegam do mar com rosto amargo.
Lá baixo a vaga escreve na muralha
a história destes muros. Toda em brios
salta adiante o Baleal e falha.
E na gávea da velha fortaleza,
fico a seguir o rumo dos navios,
num choro de asas de gaivota presa.
António Borges Coelho
Nota: Na Fortaleza de Peniche, no espaço onde funcionava o Parlatório há vários testemunhos de prisioneiros. Entre eles existe um manuscrito deste poema.

Saturday, 12 April 2025

**

 
As traineiras abrigam-se na barra,
os mastros em fantástico arvoredo.
São peixes coloridos, de brinquedo,
e eu o triste rapaz que solta a amarra.
Os telhados reúnem-se no largo,
assembleia de pobres e crianças.
Em falas, cantos cobram-se esperanças.
Homens chegam do mar com rosto amargo.
Lá baixo a vaga escreve na muralha
a história destes muros. Toda em brios
salta adiante o Baleal e falha.
E na gávea da velha fortaleza,
fico a seguir o rumo dos navios,
num choro de asas de gaivota presa.
António Borges Coelho
Nota: Na Fortaleza de Peniche, no espaço onde funcionava o Parlatório há vários testemunhos de prisioneiros. Entre eles existe um manuscrito deste poema.

Saturday, 6 October 2018

Sou barco


Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.


Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater no fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde,
Seu brando chamamento.

Ó mar, venha a onde forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.

António Borges Coelho

Thursday, 1 October 2015

Poema de um casamento «branco» no Forte de Peniche em 4/1/59


Como está pronta a terra para a semente
assim estavas debaixo do meu braço:
os nossos corações estavam tão juntos
que não ficava entre eles o menor espaço.

Na botoeira do meu fato escuro
pregaste um cravo branco.
Não sabia que no teu peito
nasciam cravos de uma tal brancura.

Um funcionário cansado
leu em voz monótona os papéis.
Dissemos: - Sim!-
E cumpriram-se as leis.

O sol deitava bagos de arroz amarelo
ondas pequenas vinham rebentar
na muralha
como garotos endiabrados
a pedir rebuçados.

As gaivotas pelo céu piavam.
Voltei para a cela só olhando o mar:
a tua falta era um cravo branco cortado
no meu peito a sangrar.

António Borges Coelho
in No mar oceano

(Fotografia do casamento de Isaura e António Borges Coelho realizado na Cadeia do Forte de Peniche em 1959 - Na exposição "Por teu livre Pensamento" - “Havia uma mesa, ela estava de um lado e eu do outro, separados. Estava o meu sogro, estavam os meus padrinhos de um lado - o O’Neill e a Maria Amélia Padez – e estavam os meus cunhados do outro, que eram os padrinhos dela. O meu sogro começou a passear na sala e a dizer que não havia direito e, por fim, passaram-na para o meu lado. Lá estivemos até ao fim da refeição que o meu sogro tinha levado.” (António Borges Coelho, in: Jornal Público, 16 de dezembro, 2018))