Thursday, 3 April 2014
NA VARANDA DE FLORBELA
Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.
Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.
Eugénio de Andrade
Tuesday, 1 April 2014
Cometes o erro
Cometes o erro de não querer
cometer erros. Se tu pensas a dúvida, o erro pensa-te.
A alegria do erro está na tua perfeição,
uma ironia que é também o contrário,
vive nos teus gestos, nos teus olhos, no olhar
por detrás dos teus olhos, no que dizes
para não errar. Que sabes tu de ti,
que sabes tu dos outros que não seja
que em todos aconteces, que estás em tudo
e tudo está em ti ainda antes
de em ti permanecer. A tua força
está no que aconteceu, no que há-de acontecer,
mesmo que não saibas que o que não aconteceu,
aconteceu sem que o soubesses.
E que sei eu, mais do que tu?
Joaquim Pessoa
in O POUCO É PARA ONTEM
Sunday, 30 March 2014
DESAVINDA
Desordenada comigo
oponho o corpo ao destino
como quem veste o vestido
e o despe em desatino
*
Desavinda com o sossego
ponho a nudez onde acendo
o grito do meu prazer
que ora prendo ora desvendo
Maria Teresa Horta
Thursday, 27 March 2014
E AGORA O NOSSO COMENTÁRIO EDITORIAL
A Revolução está aqui.
É como um projéctil
como uma maçã
como uma árvore que cresce.
Tudo acaba de começar
agora não temos tempo
- perdão -
um dia nos reuniremos
para comemorar
o canto dos heróis.
Minerva Salado
Monday, 24 March 2014
O sorriso
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
Friday, 21 March 2014
A CAMARADA
És a minha camarada
e antes de ti só ponho
a Revolução;
te afanas e afadigas,
compreendo,
pelas crianças,
pelos bairros de cartão,
lata e lixo,
pelos doentes e mortes prematuras.
Hoje estás aqui,
junto aos meus olhos que te seguem;
amanhã em Santiago
ou Pinar del Rio
ou no meio da madrugada
organizando rectificações,
tentando pôr de pé
o que caiu,
cerceando o apodrecido.
Assim, jardineira, construtora,
ser do vento, semeando e indo...
A ti não te destrói
Praia Girón,
novos mercenários ou fuzileiros,
em ti falha o terror;
tu pensas, tu trabalhas,
para que as coisas sejam
como devem ser.
Alcides Iznaga
Tuesday, 18 March 2014
SONETO DO TRABALHO
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
Levanta-te meu povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
Ary dos Santos
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