Thursday, 6 April 2017
CAPOEIRA
Sacudindo subitamente o silêncio e o sono, um galo
anunciou alegremente a madrugada.
E bom será declará-lo:
aquilo não foi um canto, foi um grito
vibrado como um dardo. Um grito
lúcido, largo, límpido como a madrugada.
Na impossibilidade de ser julgado o galo
o dono vai responder pelo delito.
Mais nada.
Sidónio Muralha
Monday, 3 April 2017
COMENTÁRIO
Era tão embaladora a sua poesia,
tão vestida de rendas e tão despida de violência,
que ele por vezes adormecia
naquela cadência.
- Coitado.
Trabalhou com tanto afinco
e andou de lá para cá,
de cá para lá,
arrastado
numa tempestade amena...
- Poeta do chá das 5
a poesia dissolveu-se no chá.
Foi pena.
Sidónio Muralha
tão vestida de rendas e tão despida de violência,
que ele por vezes adormecia
naquela cadência.
- Coitado.
Trabalhou com tanto afinco
e andou de lá para cá,
de cá para lá,
arrastado
numa tempestade amena...
- Poeta do chá das 5
a poesia dissolveu-se no chá.
Foi pena.
Sidónio Muralha
Saturday, 1 April 2017
RENOVAÇÃO
Em cada dia morre um homem em mim.
Em cada dia nasce um homem em mim.
Só o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.
E eu tenho saudade dos homens que fui!
E eu anseio, espero os homens que serei!
Dia após dia, eu me renovo, sigo sempre.
Meus olhos de ontem não são meus olhos de hoje.
Um mundo morre, outro mundo nasce em cada dia.
So o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.
Papiniano Carlos
Thursday, 30 March 2017
PRESENÇA
Quem virá salvar o mundo?
Os deuses faliram,
todas as súplicas resultaram inúteis.
Mesmo a grande esperança que Jesus nos trouxe
foi ultrajada.
E Jesus não volta mais.
Os vendilhões abriram tendas inumeráveis
e Judas multiplicou por milhões os 30 dinheiros.
Por isso as cidades foram abrasadas
e os heróis moços tombaram
entre as papoilas rubras da planície.
E a angústia suprema alagou os campos e as cidades
e se fechou a maior noite dos tempos.
Agora só NÓS salvaremos o mundo.
Papiniano Carlos
Monday, 27 March 2017
ORDEM DO DIA
Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poema na terra
com as vossas ferramentas!
Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
Sidónio Muralha
(«Companheira dos Homens» - 1950)
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poema na terra
com as vossas ferramentas!
Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
Sidónio Muralha
(«Companheira dos Homens» - 1950)
Friday, 24 March 2017
SPARTACUS
Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco
Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo
Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel
Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto
Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida
Teu nome-espiga
que se transforma em pão
Teu nome-pedra
da construção do mundo
que será o fruto do teu gesto
Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa
Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem
Teu nome
em cada grito
em cada mão
Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto
Spartacus!
Teu nome-irmão.
Maria Eugénia Cunhal
Tuesday, 21 March 2017
PEQUENOS DEUSES CASEIROS
Pequenos deuses caseiros que brincais aos temporais,
passam-se os dias, as semanas, os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias,
tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,
derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,
espancai vossos criados, violai vossas criadas,
e bebei, bebei o vinho dos traidores
servido em taças roubadas.
Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem, e alteai vossas janelas,
e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
Que é sempre um dia a menos este dia que passa,
e cada dia a mais aumenta o preço da traição,
e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,
e a nossa moeda não é piedade nem perdão
porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.
Não, pequenos deuses caseiros, não!
Sidónio Muralha
(«Companheira dos Homens» - 1950)
passam-se os dias, as semanas, os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias,
tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,
derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,
espancai vossos criados, violai vossas criadas,
e bebei, bebei o vinho dos traidores
servido em taças roubadas.
Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem, e alteai vossas janelas,
e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
Que é sempre um dia a menos este dia que passa,
e cada dia a mais aumenta o preço da traição,
e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,
e a nossa moeda não é piedade nem perdão
porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.
Não, pequenos deuses caseiros, não!
Sidónio Muralha
(«Companheira dos Homens» - 1950)
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