Showing posts with label Sidónio Muralha. Show all posts
Showing posts with label Sidónio Muralha. Show all posts

Wednesday, 3 December 2025

**

 
A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.
Foi este o prodígio
de um dia de Abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.
Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Sidónio Muralha – Poemas de Abril. Lisboa : Prelo, 1974
Júlio Pomar, Abriliberdade, 1974.



Monday, 30 June 2025

Soneto da viagem a Marte


O tempo não tem sul e não tem norte
seja qual fôr a hora de quem parte,
não tem fronteiras, não possui estandarte,
quem for a Marte irá sem passaporte.

Nós teremos partido para a morte
quando os homens partirem para Marte
e embora Marte já não nos importe,
importante, ó futuro, é importar-te.

Importante, ó futuro, é quando a terra
falar da fome e descrever a guerra
como histórias lendárias de gnomos.

Os dias forem lúcidos, translúcidos,
e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,
se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, 
"O Pássaro Ferido", 1972

Saturday, 27 November 2021

Diálogo quase poesia

 Tu sabes, mãe - disse o pássaro - os aviões
também voam.
- Voam mas não têm coração. Engolem homens
aos milhares.
- Para quê?
- Para que o voo seja pago.
- Voo pago? Como pode ser pago e ser voo?
- É por isso que os aviões não cantam. Só nós
cantamos
porque ninguém pode comprar o nosso voo.

Sidónio Muralha

Monday, 9 October 2017

DIÁLOGO QUASE POESIA

Tu sabes, mãe - disse o pássaro - os aviões também voam.
- Voam mas não têm coração. Engolem homens aos milhares.
- Para quê?
- Para que o voo seja pago.
- Voo pago? Como pode ser pago e ser voo?
- É por isso que os aviões não cantam. Só nós cantamos
porque ninguém pode comprar o nosso voo.

Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Tuesday, 3 October 2017

O JARDINEIRO MÍOPE

O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista
às flores.
E a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
«que bem que cantam as minhas papoulas!».

Um dia, a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo,
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais bondosa do mundo
subia para o Céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.

Sidónio Muralha
("Que Saudades do Mar" - 1971)

Wednesday, 27 September 2017

O VOO DE SUA ALTEZA

O rei vai partir.
Seu avião a jacto de platina
ronca em estereofónico
e de suas turbinas
jorra uma disenteria de rubis.

Mas um bode pára na pista
e sua barbicha que não é a jacto
desafia o avião do rei.

É um bode subversivo
- gritam milhares de pessoas
simetricamente quadradas.
E o bode é enquadrado
na lei que protege os soberanos
e é fuzilado por ter tido a ousadia
de roubar ao rei um minuto de voo.

Mais um bode fuzilado
por crime de lesa-majestade
- pensam os reis.

Mais um rei que voa
por crime de lesa-bode
- respondem os bodes.

(Questão de pontos de vista)

A verdade é que ser bode
não oferece garantia nenhuma.

Sidónio Muralha
(«Que Saudades do Mar» - 1971)

Thursday, 21 September 2017

OS AMIGOS COERENTES

Minha geração
tem os gestos rudes
do semeador
e as mãos calejadas
de quem dá aos sonhos
contornos precisos
dos dois pés na terra,
da quilha que singra,
do arado que rasga,
do rasgo que cria.

Fomos perseguidos
porque a nossa falta
era a lucidez
e a coragem de
apontar os crimes
sem lhes dar perdão,
porque perdoar
é ser conivente
e essa conivência
é igual ao crime.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Friday, 15 September 2017

SONETO AO SENHOR CORREIO

Senhor Correio, Senhor Dom Correio,
por favor, por favor, Vossa Excelência
não abra as minhas cartas porque é feio
e tudo o que for feio falta à decência.

Eu leio as suas cartas? Não, não leio.
Se suas cartas lesse era demência.
Senhor Correio, veja se há um meio
de ter um pouco menos de inclemência.

Porque enfim o que escrevo a mim o devo,
Senhor Correio, é meu tudo o que escrevo,
é a tinta expressando as minhas falas.

É qualquer coisa mais que intimidade.
Senhor Correio, sabe que é verdade,
violar minhas cartas é matá-las.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Saturday, 9 September 2017

ACUSO


Vocês todos,
malditos
que nos roubaram a vida,
são, liricamente,
pesseguinhos

- filhos da fruta.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Sunday, 3 September 2017

A CORJA

A vida é bonita,
mas alguém sujou
seus rios que riem,
roubou os seus pães
alvos e morenos,
queimou os seus livros
que eram livros livres,
cortou suas flores
que tinham sol dentro,
fechou os seus homens
com sede de fora,
degradou as grades
imundas o mundo.

A vida é bonita
fizeram-na feia,
quem for o culpado
que levante o dedo.

- E a corja impassível
de braços cruzados,
falando da lua,
fingindo que não.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Sunday, 27 August 2017

DESAFIO

Desafio,
travo de amora silvestre,
agulhas da chuva no rosto,
soco do vento contrário,
distância além do horizonte,
vem
desafio
salutar vem,
revigorante vem
dizer-me que não sou capaz
para que te prove que sou.

Vem, desafio,
esfarrapa a flanela do dia-a-dia
com as tuas patas de corcel selvagem
que faiscam estrelas do chão,
galopa nas trevas e vem,
atravessa os povoados e vem,
carregado da palavras duras,
de palavras autênticas,
de palavras-palavras,
bate na minha vidraça
e na dos meus companheiros
para que acordemos todas as manhãs
plenamente
quando os galos acordam.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Tuesday, 15 August 2017

DOCE COMPANHEIRA

Música, música,
doce companheira,
teus olhos tão claros
parecem de espuma.

Teus cabelos caem
nos ombros da vida,
tuas mãos afagam
os rostos marcados.

Música, música,
ensina ao futuro
a dialogar
com homens e estrelas.

Sacode a inércia,
acorda os que dormem,
a hora chegou
de estar acordado.

Música, música,
talvez amanhã
os gestos dos homens
encontrem teus gestos.

O mundo é pequeno,
o amor é grande,
este desencontro
não pode durar.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Thursday, 3 August 2017

OS AMIGOS

Os amigos partilham
a sua desgraça
em pedaços iguais.
Cada qual recebe
o mesmo quinhão
de tristeza e bruma
e tudo repartem
os dias perdidos
as noites crispadas
as mortes comuns.

De repente falam
e apertam as mãos
levantam lareiras
desenham viagens
confiam no amor.

E no chão vazio
nascem malmequeres
frágeis como a esperança
(e tão persistentes)
frágeis como a vida
(e tão arraigados).

Obscuras flores
que irrompem do escuro
mas que trazem nelas
o espectro do sol.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Thursday, 27 July 2017

A GRANDE NOTÍCIA

A grande notícia
chegou até mim
como um rastro azul
vestido de estrelas,
um clarim de luz
no silêncio inerte,
repentinamente,
num céu cheio de nuvens,
um jacto que surge
e roça a montanha.

O meu pensamento
abriu-se num abraço
para além dos mares,
e a grande notícia
bailava nas ruas
enquanto nos esgotos
os torturadores
pareciam ratos
e o nojo de vê-los
doía na gente.

Um clarim de luz
num céu de nuvens,
foi como irrompeu
a grande notícia
vestida de estrelas.
Só um fogo oculto
consegue acordar
um grilo no inverno
mas quando ele acorda
o frio adormece.

Foi na madrugada
de um dia sem planos
que se revelou
a grande notícia,
e as águas do pântano
não podem mais sê-lo
ao ver, de repente,
no silêncio inerte,
um jacto que surge
e roça a montanha.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Friday, 21 July 2017

PONTE SOBRE O TEJO

Ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos,
devemos salvar-te
e dar-te outro nome
que traga lá dentro
o sol e o trigo,
um filho no ventre
e o sangue na terra
que floriu nos cravos.

Devemos chamar-te
Catarina Eufémia,
ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos,
e os barcos do Tejo
com as velas pandas
darão forma ao sopro
da semeadora
Catarina Eufémia.

Para que o passado
não mais se repita,
e os gestos dos monstros
sejam apagados
(mas nunca esquecidos)
devemos chamar-te
Catarina Eufémia,
ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos.

Rumo lá no alto
olhando Lisboa,
no frémito novo
de sabê-la nossa
e poder dizê-lo,
ponte que nos liga
no fluir presente
que já é futuro,
nós vamos chamar-te
Catarina Eufémia.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Saturday, 15 July 2017

POEMA DE ABRIL

A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.

Foi este o prodígio
de um dia de abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.

Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.

Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.

Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)

Wednesday, 24 May 2017

SONETO DA METAMORFOSE


Mãos, simples mãos, moldaram os meus versos
e pés humanos pisam o que escrevo.
Aos outros que conquistem universos
e a mim que pague ao povo o que lhe devo.

Mesmo que os dias sejam adversos,
é um trevo a missão a que me atrevo,
dia e noite seus gestos são diversos
- detesta o escuro, de dia abre-se o trevo.

Abre-se como o pranto, como as fontes
que irrompem das montanhas e dos montes,
descem aos vales, vão até às casas...

Um soneto estremece a manhã cálida
e o povo, num silêncio de crisálida,
forja, no sofrimento, as suas asas.

Sidónio Muralha

Thursday, 18 May 2017

O HERÓI


O herói da guerra
possui 365 medalhas,
uma para cada dia do ano
(só nos anos bissextos
tem um dia de folga).

O herói da guerra
tem um desencontro
marcado com ele mesmo
(sua vocação era ser homem
e fizeram dele um herói).

O herói da guerra
precisa esquecer
(num gesto heróico
fuma heroína).

Sidónio Muralha

Thursday, 27 April 2017

HERANÇA

Lá onde o ser tarde ou cedo
é um jogo de claridades,
vivem a ignorância e o medo,
criadores das divindades.
E, acocorado no chão,
um velho negro selvagem,
vai desenhando a carvão
para deixar como herança
um deus, feito à sua imagem
e perfeita semelhança.

Sidónio Muralha

Friday, 21 April 2017

COMPATRIOTA

Que todos os meus anseios de poeta
possam cair no teu regaço,
velha lutadora, velha analfabeta
que não sabes dos versos que te faço.

Vejo-te de joelhos,
de joelhos e de mãos postas,
de joelhos e de mãos postas num velho esfregão
lavando, lavando casas...
A tua cabeça branca é uma acusação
- passa um poeta - e a acusação tem asas.

Velha que conheceste algumas gerações
e devias ser tratada como os doentes e as crianças
- atira o teu esfregão contra os nossos corações
e grita nos meus versos agudos como lanças.

Sidónio Muralha