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Sunday, 24 August 2025

Palavras

 
Queria chamar-te tanta coisa bela
pássaro, fogo, vento, caravela
terra, semente, pão
Chamar-te amigo
e inventar as palavras que não digo
com medo de as dizer sem ter razão.
Maria Eugénia Cunhal

Wednesday, 3 June 2020

REFEIÇÃO


Estendemos a toalha
Trouxeste o pão, o vinho
Eu trouxe a fome, a sede o cansaço
E a mão para colher
A pureza espontânea do teu gesto
Que tem a dimensão do teu braço

Eu recebi
Tu deste
Compartilhámos.
Da refeição ficou o travo doce e bom do mel
E a certeza daquilo que está certo.

Maria Eugénia Cunhal

Friday, 24 March 2017

SPARTACUS


Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco

Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo

Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel

Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto

Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida

Teu nome-espiga
que se transforma em pão
Teu nome-pedra
da construção do mundo
que será o fruto do teu gesto

Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa

Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem

Teu nome
em cada grito
em cada mão

Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto

Spartacus!
Teu nome-irmão.


Maria Eugénia Cunhal

Sunday, 12 June 2016

*


Andámos a distribuir cigarros pelos soldados.
De guarda aos quartéis, espingardas mansas assentes no chão.
E os cravos [tão presentes em nós, ainda].
E a gente... tanta.
Tu aqui, e tu, e tu, também. Afinal...
Os cartazes alinhavados por mãos apaixonadas gritando todas as palavras só conhecidas em letra clandestina.
Todos os abraços, todas as presenças até então atrás de grades, de fronteiras, de casas escondidas.
Todas as lágrimas choradas de alegrias, agora.
- Como cresci, irmão. Como embranqueceram entretanto os teus cabelos.
Esquecer a dor. Soltá-la. Vê-la transformada num imenso rio a caminho do amanhã.
Em cada rosto, em cada olhar, lia-se uma só palavra - Liberdade.
E nas vozes um grito forte que continua ainda hoje a comandar os nossos passos.
Mesmo quando silenciosos, mesmo quando nasce o desencanto.
Nunca mais!


Maria Eugénia Cunhal

Tuesday, 21 July 2015

VIAGEM


I

Capitão, aqui estou.

Comigo, a bagagem:
No saco de marujo trago um naco de pão
dentro do peito a ânsia da viagem.

II

Venho de longe, sabes, de tão longe
de países que não existem nos mapas.
Percorri rotas, cortei a nado os mares mais temerosos
e cheguei
cansada e desperta da viagem.

Aqui estou
inteira.

Na intimidade do chão, da comida saboreada,
porque não é apenas comida
mas um pretexto para fazer gestos em comum
Para sentir o prazer de os repetir - os repartir

Até quando...
prefiro não pensar

Por agora
fico-me
no imenso prazer de partilhar.

III

Lá fora
no frio da noite sei que a lua nasceu
sei que no cais há barcos que esperam
e gente, como nós, a aguardar a hora impossível da partida.

Maria Eugénia Cunhal

Monday, 30 June 2014

Bastaste tu


Bastou aquele gesto
Da tua mão tocar tão docemente a minha
Pra nascerem raízes
Que me prendem à terra e me alimentam
Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar
- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu –
Para iluminar as noites em que a lua se esconde
E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,
Um sorriso em que vejo despontar a confiança
Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,
Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.

Maria Eugénia Cunhal

Saturday, 30 July 2011

Palavras


Queria chamar-te tanta coisa bela

pássaro, fogo, vento, caravela
terra, semente, pão

Chamar-te amigo
e inventar as palavras que não digo
com medo de as dizer sem ter razão.


Maria Eugénia Cunhal