Thursday, 9 March 2017

JACKSON, JUNHO 63

A caça foi aberta esta semana.
Que seja ou que não seja autorizado
é branco o caçador, negro o caçado,
lá onde ninguém sana a luta insana.

Sobe no ar um ódio electrizado
e sobre cada prédio paira e plana.
Lincoln que quis a vida mais humana
quantas vezes será assassinado.

A caça foi aberta, só a cor
faz distinguir caçado e caçador,
e é cor de noite a cor que vai fugindo.

Chove cinza nas ruas da cidade,
levanta as mãos tremendo a liberdade
e cobre de vergonha o rosto lindo.

Sidónio Muralha

Monday, 6 March 2017

PERSPECTIVA


Um dia,
quando eu sair do meu emprego,
hei-de encontrar
logo ali, à esquina,
o meu bravo cavalo de batalha
e irei cavalgando por aí fora.

Na minha grande lança
ficarão naturalmente espetados todos os capitalismos
- levemente torcidos como um colar de chouriços -
Não havendo, enfim, logo a seguir mais lutas a travar,
darei liberdade ao meu cavalo de batalha
e ficarei quieto
sossegado
a vê-lo pastar.

Mas se assim não for,
muita coisa me poderá acontecer
nesta minha bela terra.
Perseguições,
vigílias, fomes, calabouços,

e os meus filhos pequeninos a mendigar.

Francisco Viana

Friday, 3 March 2017

CORDIALIDADE SEM CORES

Homens divididos. Brancos e pretos,
mulatos, vermelhos e amarelos,
divindades, crenças, amuletos,
choupanas e castelos.

Como se a condição e a cor da tez
fossem deste momento supersónico
que vai estourar o muro da estupidez

- eu sou daltónico.

Sidónio Muralha
(«Os Olhos das Crianças» - 1963)

Wednesday, 1 March 2017

SENTENÇA


Quem pense e não aja
conforme ao que pensa
faz aos mais ofensa
e a si próprio ultraja.
Bem haja, bem haja
quem o medo vença.


Armindo Rodrigues

Monday, 27 February 2017

O LACRAU


Couraçado como um guerreiro antigo,
o lacrau de orgulhoso e esbelto porte,
no chão, quieto, espreita o inimigo,
para num brusco abraço lhe dar a morte.
Não se lhe chame traiçoeiro e ruim.
É da condição dele ser assim.


Armindo Rodrigues

Friday, 24 February 2017

A PRIMEIRA PRISÃO...


A primeira prisão é a pele que nos veste,
a segunda a família que nos coube em sorte,
e, limitado a sul, limitado a norte,
limitado a leste, limitado a oeste,
em seguida o país,
em que habita uma gente
que o que faz ou não faz,
que o que diz ou não diz
nos marca para sempre, irremediavelmente.


Armindo Rodrigues

Tuesday, 21 February 2017

INVENTÁRIO DE DOMINGO

No domingo pastoso e lento
há um relógio realejo
redondo como um bocejo
que rói o tempo e o pensamento.

Há o bairro puído e humilhado,
há sempre o disco usado na vitrola
e há uma lágrima que rola
entre o presente e o passado.

E há a chuva, que prevê o calendário,
e há o tédio, e há a monotonia
banal na sua geometria
que vai da gaiola ao aquário.

E há o amor, um amor assim-assim,
burguês, dominical e burocrático
que seria alegre se não fosse dramático,
que seria tudo se não fosse um folhetim.

E há pessoas ancoradas nos salões
horas e horas com olhar fixo e duro
para que os olhos das crianças do futuro
sejam rectangulares como televisões.

Sidónio Muralha
(«Os Olhos das Crianças» - 1963)