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Wednesday, 15 November 2017
A MÃO E O ARADO
Não
nós não estamos submersos
nem destruídos
nem sequer dispersos
ou vencidos.
O que nós estamos,
onde nós estamos,
é no chão ávido de madrugada
sedentos de irromper.
Mas só a mão e o arado lavram
o incêndio da manhã.
Francisco Viana
Saturday, 18 March 2017
PAPO
Lá vem o quarto administrador
pôr o ponto final na administração.
É muito sério este senhor:
Ai, meu Deus...
(Refiro-me ao poeta João da Cartilha)
«O dinheiro é tão bonito...
Tlim...)
Que bonita quadrilha!
Francisco Viana
Sunday, 12 March 2017
QUE PESSOA PERDOE...
Digo:
Vamos olhar para longe?
Insinuas
- Não vale a pena...
Murmuro:
Vamos saber o que existe?
Amuas
- Não vale a pena...
Balbucio:
Vamos ser o que não fomos?
Lamentas-te
- Não vale a pena...
Grito:
Vamos dizer a verdade?
Abespinhas-te
- Não vale a pena...
Chiça,
que mesquinhez de alma tão pequena!
Francisco Viana
Monday, 6 March 2017
PERSPECTIVA
Um dia,
quando eu sair do meu emprego,
hei-de encontrar
logo ali, à esquina,
o meu bravo cavalo de batalha
e irei cavalgando por aí fora.
Na minha grande lança
ficarão naturalmente espetados todos os capitalismos
- levemente torcidos como um colar de chouriços -
Não havendo, enfim, logo a seguir mais lutas a travar,
darei liberdade ao meu cavalo de batalha
e ficarei quieto
sossegado
a vê-lo pastar.
Mas se assim não for,
muita coisa me poderá acontecer
nesta minha bela terra.
Perseguições,
vigílias, fomes, calabouços,
e os meus filhos pequeninos a mendigar.
Francisco Viana
Friday, 9 December 2016
CELEBRAÇÕES
Celebrou Dona Ema seu aniversário natalício.
Santos & Santos, banqueiros, o trigésimo quinto ano do ofício.
Encerrou-se o emprego para celebrar a data do Poder.
Carlos e Branca celebraram nó doirado
ainda firme, já um tanto empoeirado.
Clandestinamente, estralejou o foguete
a celebrar o dia de que se querem esquecer:
(a História tem folhas asas
que às vezes não podem poisar.)
Num âmbito vigente de agasalho
celebrou-se o Contrato Colectivo do Trabalho:
quarenta e cinco páginas brancas,
oito capítulos novos,
noventa cláusulas gordas
- e uns salários negros, velhos, magros...
Francisco Viana
Thursday, 24 November 2016
LIVRE ARBÍTRIO
Dentro dum tosco barco
puseram-me a navegar
nas águas da absurdidade.
Sou livre de ser ou estar
- mas, estranha fatalidade -
ou vou no barco
ou charco...
Francisco Viana
Friday, 18 November 2016
SÓCIO GRANDE + SÓCIOS PEQUENOS
Havia no ar sornice e expectativa;
Não tinha chegado ainda o senhor Tota.
Todos falavam por falar, todos esperavam o senhor Tota.
«As reuniões não se fizeram para dormir.
É preciso fomentar as vendas da loja três.
Então as obras na loja quatro,
são as obras de Santa Engrácia?
E o senhor, o senhor que é que lá está a fazer?
E o senhor, o senhor com os seus cabelos brancos
o que é que vendeu nesta viagem?
Fez o que pôde, não!,
é preciso fazer sempre mais do que se pode.
A mercadoria é de terceira, mas não é boa?,
os senhores é que não sabem vender...
Os senhores é que não a querem vender...
E assim, onde é que isto tudo vai parar?»
O senhor Tota já tinha chegado.
- Senhor Tota, é necessário substituto para a loja oito.
O rapaz coitado só tem um rim
e a acartar, a acartar, tem o outro doente.
Pediu-me para lhe pedir, bem... agora era preciso...
precisava de algum dinheiro para a estreptomicina...
bem, é claro, trata-se de uma vida...
«Mas em que é que ele se meteu?
É a fazenda que tem bacilos?
Não se estejam a rir, é claro que não tem bacilos,
mas isto aqui também não é nenhum saco roto;
O senhor não sabe? O senhor agora que é sócio não sabe?
Então se sabe por que é que não lhe disse?»
Bem, o rapaz é ainda muito novo:
e assim, só com um rim, a acartar, a acartar...
O senhor Tota compreende, sim, os fardos são pesados...
Está bem, senhor Tota, pronto está bem...
Não é nada comigo,
eu ainda tenho os dois, por enquanto...
«Por enquanto?
Não, o senhor não compreende as minhas intenções.
Não é com esmolas que se derruba a miséria;
Deprimir, humilhar o homem nosso semelhante
é deprimir e humilhar a nossa própria dignidade.
E a esmola humilha que a dá e quem a recebe.
Estamos aqui para tratar de negócios
mas sempre lhe direi:
Isto está caótico!
Está tudo caótico!!
São precisas vastas reformas, reformas integrais.
Não se trata agora da estreptomicina
nem do rapaz, coitado, também tenho pena dele
(ele não acarta assim tanto como diz...)
mas como sabe o negócio vai mau.
Um remédio a mais, um remédio a menos, não conta.
O que é necessário, o que é fundamental,
são hospitais, hospitais, muitos hospitais...
Percebe?
Muitos hospitais!!!»
O rapaz morreu.
O senhor Tota ainda não morreu.
Francisco Viana
Saturday, 27 December 2014
O TEMPO É NOSSO
Espancaste-me.
Cegaste-me.
Olho por olho? dente por dente?
Talião perdeu a pena
que embora cheia de penas
o tempo é nosso, da nossa gente.
E mal na noite que dura
a dura dor permanece
já a canção amanhece.
Francisco Viana
Sunday, 21 December 2014
ANTRO - 1966
Este é o Homem de Java,
o Pitecantropo,
há uns 600 mil anos!
Este é o Homem de Neanderthal,
há 60 a 70 mil anos!
Este é o Homem-Sequestrado
há já quarenta anos.
Francisco Viana
Monday, 21 October 2013
FLORILÉGIO
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
Tão longa
procissão,
tão curto
o pão.
Francisco Viana
Wednesday, 15 June 2011
Marcha
Lá vem o cortejo
pela rua fora
tocando os seus gritos
de que está na hora.
Estremecem vidraças
tremem os portões
na casa da praça
e a velha transida
com medo da morte
por medo da vida
lá vai aos baldões
estreitar-se ao pescoço
do seu cão de caça.
Vêm baionetas
correndo em tropel
mais metralhadoras
gargalhando triste
e tinta a granel
de mangueira em riste.
Lá vêm a passo
os lacrimogéneos
os arquimausgénios
capacetes de aço.
Lá vêm em bicha
defender vidraças
defender portões
defender a praça
defender a velha
defender o cão
defender a caça.
E viva o poeta
que tem tanta graça.
Francisco Viana
Wednesday, 18 August 2010
CONFIDÊNCIA
Absorto, chegou-se ao pé de mim
e disse:
«Sabe, não sei se o patrão tem culpa ou não
de ser patrão;
mas a sarna também não tem culpa de ser sarna
- e é uma chatice!»
Francisco Viana
e disse:
«Sabe, não sei se o patrão tem culpa ou não
de ser patrão;
mas a sarna também não tem culpa de ser sarna
- e é uma chatice!»
Francisco Viana
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