Saturday, 18 June 2016
SEM VASSALAGEM
Nada mais de mim
haverá memória
- sei -
só os poemas darão conta
de minha avidez
da minha passagem
Da minha limpidez
sem vassalagem
Maria Teresa Horta
Wednesday, 15 June 2016
MESMO DEPOIS DO DIA...
Mesmo depois do dia em que por fim triunfe,
abolidas as classes, a justiça no mundo,
do pior ao melhor, ascensionalmente,
prosseguirá sem pausa o movimento de sempre.
Apenas, por diferença, fundamental no entanto,
o que antes sucedia por explosões brutais
passará a fazer-se por graduais mudanças.
A luta travar-se-á não já entre interesses,
mas entre simplesmente o moderno e o antigo,
desde o exterior aos homens até a neles próprios,
nos recessos estagnados da sua consciência.
O que era, pois, forçado tornar-se-á voluntário.
O que era, pois, penoso tornar-se-á natural.
Armindo Rodrigues
Sunday, 12 June 2016
*
Andámos a distribuir cigarros pelos soldados.
De guarda aos quartéis, espingardas mansas assentes no chão.
E os cravos [tão presentes em nós, ainda].
E a gente... tanta.
Tu aqui, e tu, e tu, também. Afinal...
Os cartazes alinhavados por mãos apaixonadas gritando todas as palavras só conhecidas em letra clandestina.
Todos os abraços, todas as presenças até então atrás de grades, de fronteiras, de casas escondidas.
Todas as lágrimas choradas de alegrias, agora.
- Como cresci, irmão. Como embranqueceram entretanto os teus cabelos.
Esquecer a dor. Soltá-la. Vê-la transformada num imenso rio a caminho do amanhã.
Em cada rosto, em cada olhar, lia-se uma só palavra - Liberdade.
E nas vozes um grito forte que continua ainda hoje a comandar os nossos passos.
Mesmo quando silenciosos, mesmo quando nasce o desencanto.
Nunca mais!
Maria Eugénia Cunhal
Thursday, 9 June 2016
DAI-ME UM NOME
Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.
Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,
chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.
Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar,
possa entrar numa canção.
Eugénio de Andrade
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.
Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,
chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.
Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar,
possa entrar numa canção.
Eugénio de Andrade
Monday, 6 June 2016
POEMA AO CUIDADO
Cuidado de mal amado
meu mal
de mal cuidado
*
novas de dano chorado
ou perjuro do que
afirmo
quando olho o meu cuidado
*
Cuidado meu fruto
cedo
colhido sobre o seu
ramo
*
cuidado de muito engano
quando descanso o cuidado
como a cuidar de quem amo
Maria Teresa Horta
Friday, 3 June 2016
À ENTRADA DA NOITE
Fogem agora, os olhos: fogem
da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados,
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas,
a cor pueril dos pêssegos,
o peito espreitando entre o linho
da camisa, a friorenta
claridade de abril, o silêncio
branco sem costura, as pequenas
maçãs verdes de Cézanne, o mar.
Olhos onde a luz tinha morada,
agora inseguros, tropeçando
no próprio ar.
Eugénio de Andrade
da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados,
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas,
a cor pueril dos pêssegos,
o peito espreitando entre o linho
da camisa, a friorenta
claridade de abril, o silêncio
branco sem costura, as pequenas
maçãs verdes de Cézanne, o mar.
Olhos onde a luz tinha morada,
agora inseguros, tropeçando
no próprio ar.
Eugénio de Andrade
Wednesday, 1 June 2016
Havemos de voltar
Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar
ÀS nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar
Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar
Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar
À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
Agostinho Neto
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