Friday, 6 May 2016
POEMA OCTOGÉSIMO QUARTO
A manhã rompe-se com o canto dos pássaros e as flores amarelas pedem justiça ao vento, que saiu de casa feliz, para incendiar nos pensamentos a intimidade do dia.
Ganham entusiasmo as minhas mãos, os olhos dizem-me que hoje a felicidade é possível, que é de vida que se alimenta a fogueira do amor.
E eu caminho com a sabedoria das coisas que escolheram apaixonar-se pelo mar, essas coisas simples que procuram tornar ainda mais simples cada minuto, cada gesto, cada beijo.
Amo as coisas simples porque a sua simplicidade é a de carregar o mundo, grávidas que estão da sua nudez, sabendo que a morte não é mais que uma palavra e o amor são todas as palavras, as doces e temíveis palavras que vestem a vida de brocados e de sedas tão macias, tão raras, tão intensas como a simples e profunda memória do cheiro e do sabor que só tem a pele de uma mulher.
Joaquim Pessoa
Tuesday, 3 May 2016
O TURISMO
Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto a bola e a bolota
o que é como quem diz
itinerar a derrota.
Tudo tem lugar no mapa
Paris Washington Moscovo
Em Itália vê-se o papa
em Lisboa vê-se o povo.
Welcome Bienvenus Salud Wilkommen Viva
a sífilis saúda-vos saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata
vindes matar a sede com uva
beber o sumo de ócio que nos mata.
Desemborcais nos cais desembolsais demais
mas não sabeis
as coisas viscerais as coisas principais
deste país azul
com mais hotéis do que hospitais
talvez por ser ao sol talvez por ser ao sul.
Aqui ao pé do mar bordamos a tristeza
as toalhas de mão as toalhas de mesa
que levais para casa Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.
Aqui ao pé do rio gememos a saudade
nosso fado submisso nossa água a correr.
Canção de mal devir Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.
Aqui ao pé do vento forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu nos xailes pretos.
Aqui ao pé do fel gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:
é apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.
José Carlos Ary dos Santos
Sunday, 1 May 2016
AMIGOS...
Amigos, quero compor para vós uma canção,
uma canção nova, uma canção melhor!
Queremos instaurar aqui na terra,
agora mesmo, o reino dos céus.
Queremos ser felizes nesta terra,
aqui queremos derrotar a fome
e que o ventre preguiçoso não devore
o que mãos trabalhadoras produziram.
Cresce, aqui em baixo, pão que chega
para os filhos dos homens
e ainda há rosas e mirtos,
beleza, alegria e ervilhas-de-cheiro.
Sim, ervilhas-de-cheiro para todos,
logo ao abrir das vagens!
O céu, não o queremos para nada,
fiquem com ele os anjos e os pardais.
Uma nova canção, uma canção melhor!
Dir-se-iam flautas e violinos...
O miserere terminou,
calou-se o dobre fúnebre dos sinos.
Heinrich Heine
Saturday, 30 April 2016
Casa de penhores
I
Rua estreita - não sei quem lá passou...
Porta aberta - não sei quem lá entrou.
Não sei - não sei dizer e não me importa,
nem a rua, cansada de ser rua,
nem a porta cansada de ser porta.
Mas foi aqui, na rua triste e nua,
e junto à porta aberta, fria e larga,
que me surgiu aquela frase amarga
e nunca mais me deixou:
- Schubert empenhou o violino e o mundo não estoirou!
II
Mas não falemos de Schubert... falemos da velha tonta...
- A velha tonta que perdeu a neta
e anda, de porta em porta, a imitá-la...
Diz assim, aflautando a sua fala:
«Ó velha, conta... ó velha, conta
aquela história triste do poeta...»
- A velha tonta que perdeu a neta
todos os dias ajoelha
em frente da lamparina...
(O Cristo empenhou-o a velha
para salvar a neta pequenina...)
E a velha tonta reza à lamparina:
- «Meu Deus, perdoa-me a audácia
de ter teu Filho empenhado...
- Foi para pagar a conta da farmácia...
perdão, meu Deus, perdão!»
- e o Cristo, resignado,
em três meses de juro crucificado,
espera o dia do leilão.
Sidónio Muralha
Wednesday, 27 April 2016
A PESCA
O bafio o safio a enguia o atum
um para todos todos para um
mas nenhum por todos
e todos por nenhum.
Ai a raiva Ai a raiva
de pescar em jejum.
Amadores da fala das marés
cicatrizes da faina amadizes da gala
duma cauda de renda duma onda de espuma
este mar aprendiz da vossa força
aprende a ser o vosso
ou de coisa nenhuma.
Obrigai-os a dar-vos o que a vós
deve em suor e choro.
Quando dizeis em coro
à uma à uma à uma
se não for vosso o barco
há-de ser vossa a voz
ou de coisa nenhuma.
Uma lua uma vela uma lula uma estrela
que lindo e mole é tudo
mas quem dará por elas
mais do que um pão de silêncio uma pedra de vinho
Ah não!
deveis vencê-las
às vagas que vos saem ao caminho.
Garanhões das correntes
campeões
dos músculos da água
ide
ide e voltai contentes
com vossas redes cheias dos latentes
peixes da nossa mágoa.
Trazei monstros marinhos e ancestrais
piranhas tubarões moreias e serpentes
mas sobretudo os peixes canibais
que se nutrem de gente.
Despejai-os na lota como ao ódio
escamado que vos cobre:
Durante a luta
haveis de ver quem morre.
José Carlos Ary dos Santos
um para todos todos para um
mas nenhum por todos
e todos por nenhum.
Ai a raiva Ai a raiva
de pescar em jejum.
Amadores da fala das marés
cicatrizes da faina amadizes da gala
duma cauda de renda duma onda de espuma
este mar aprendiz da vossa força
aprende a ser o vosso
ou de coisa nenhuma.
Obrigai-os a dar-vos o que a vós
deve em suor e choro.
Quando dizeis em coro
à uma à uma à uma
se não for vosso o barco
há-de ser vossa a voz
ou de coisa nenhuma.
Uma lua uma vela uma lula uma estrela
que lindo e mole é tudo
mas quem dará por elas
mais do que um pão de silêncio uma pedra de vinho
Ah não!
deveis vencê-las
às vagas que vos saem ao caminho.
Garanhões das correntes
campeões
dos músculos da água
ide
ide e voltai contentes
com vossas redes cheias dos latentes
peixes da nossa mágoa.
Trazei monstros marinhos e ancestrais
piranhas tubarões moreias e serpentes
mas sobretudo os peixes canibais
que se nutrem de gente.
Despejai-os na lota como ao ódio
escamado que vos cobre:
Durante a luta
haveis de ver quem morre.
José Carlos Ary dos Santos
Sunday, 24 April 2016
A teu lado
A teu lado, amor,
não há muros, silêncio, morte.
Por cada espinho de aço cravado
em nossa carne,
há um rio de sangue e primavera.
Por cada bofetada,
um sorriso de criança.
Por cada insulto,
por cada punhalada,
uma seara, uma estrela, uma cidade.
Papiniano Carlos
Thursday, 21 April 2016
RETRATO DE ALVES REDOL
Porém se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.
Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.
Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.
José Carlos Ary dos Santos
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.
Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.
Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.
José Carlos Ary dos Santos
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