Monday, 24 August 2026

A ti regresso


A ti regresso, mar, ao gosto forte 
Do sal que o vento traz à minha boca, 
À tua claridade, a esta sorte 
Que me foi dada de esquecer a morte 
Sabendo embora como a vida é pouca.
A ti regresso, mar, corpo deitado, 
Ao teu poder de paz e tempestade, 
Ao teu clamor de deus acorrentado, 
De terra feminina rodeado, 
Prisioneiro da própria liberdade.
A ti regresso, mar, como quem sabe 
Dessa tua lição tirar proveito. 
E antes que esta vida se me acabe, 
De toda a água que na terra cabe 
Em vontade tornada, armado o peito.
José Saramago