Friday, 21 August 2026

Meu corpo


Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti

Teus olhos
São memórias do desejo
São as praias que eu não vejo, em ti
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde eu fico e me revejo, sem ti

Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
As amarras de quem sofre
Quem fica é que se lembra toda a vida
Das saudades de quem parte
E dos olhos de quem morre


Não sei 
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza
Não sei
Mas sei
Que estou para sempre presa
À ternura sem defesa, que eu dei

Sozinha
Numa cama que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu
Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito de vingança, sou eu

Sou eu 
de cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo
sou eu

Ary dos Santos