Tuesday, 1 March 2016
A FLOR DA SOLIDÃO
Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
Ruy Belo
Saturday, 27 February 2016
Comício
Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.
Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!
José Gomes Ferreira
Wednesday, 24 February 2016
ANNA IMROTH
Cruza-lhe os braços sobre o peito - assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas - assim.
E chama o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há-de chorar,
e também as irmãs e os irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única
rapariga da fábrica que não teve sorte
ao saltar cá para baixo
quando o fogo irrompeu.
Andou aqui a mão de Deus -
e a falta de uma saída de emergência
Carl Sandburg
Sunday, 21 February 2016
PAZ
Paz a não há na morte.
Na morte não há nada.
Paz a não há senão
no que é próspero e farto.
Paz é a aplicação
no trabalho salubre.
Paz é a segurança
da amizade na luta.
Armindo Rodrigues
Na morte não há nada.
Paz a não há senão
no que é próspero e farto.
Paz é a aplicação
no trabalho salubre.
Paz é a segurança
da amizade na luta.
Armindo Rodrigues
Thursday, 18 February 2016
SEIS QUADRAS
Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade...
Tu que vives na grandeza,
se calçasses e vestisses
daquilo que produzisses,
andavas nu, com certeza.
O pouco que te sobeja
dás mas a gente percebe
que isso é mais p'ra quem te veja
do que p'ra quem o recebe.
Numa ambição desmedida
a gente grande quer ter
dois céus: - um cá nesta vida,
outro depois de morrer.
Os que vivem na grandeza
dizem, vendo alguém subir:
- há que manter a pobreza,
p'rá grandeza não cair.
Tu fazes a vida inteira
esgares junto ao altar,
porque vês nisso a maneira
de viver sem trabalhar.
António Aleixo
Monday, 15 February 2016
PAZ
Paz de pão,
de alegria
e de fraternidade,
é a única inteira, é a única livre
e só ela merece o combate comum.
Armindo Rodrigues
de alegria
e de fraternidade,
é a única inteira, é a única livre
e só ela merece o combate comum.
Armindo Rodrigues
Friday, 12 February 2016
Bastava-nos amar
Bastava-nos amar.
e não bastava o mar. e o corpo? o corpo que se enleia?
o vento como um barco: a navegar. pelo mar. por um rio ou uma veia.
bastava-nos ficar. e não bastava o mar a querer doer em cada ideia.
já não bastava olhar. urgente: amar.
e ficar. e fazermos uma teia.
respirar. respirar.
até que o mar pudesse ser amor em maré cheia.
e bastava. bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
bastava, sim, encher o peito de ar.
fazer amor contigo sobre a areia.
Joaquim Pessoa
já não bastava olhar. urgente: amar.
e ficar. e fazermos uma teia.
respirar. respirar.
até que o mar pudesse ser amor em maré cheia.
e bastava. bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
bastava, sim, encher o peito de ar.
fazer amor contigo sobre a areia.
Joaquim Pessoa
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