Thursday, 9 April 2015
DEMOTADURA
Estações de TV governo dá.
Descabeladamente aumenta o pão.
O Braga diz que mais aumentos, «não»
e que salários aumentados, ná.
Na Educação mil cortes? É pra já.
Os remédios mais caros? Aí estão.
A CEE vem-nos comer à mão
quiquiriqui, cocoricó, cacaracá...
Cavaco quer ter sempre o trunfo de ás.
Ele pensa, ele quer - logo ele faz.
Controvérsias, debates, não atura.
Na maré alta da hipocrisia
ele soletra bem de-mo-cra-cia
mas traduz mentalmente «ditadura».
Mário Castrim
Monday, 6 April 2015
Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
Natália Correia
Friday, 3 April 2015
NÃO TRAIO (boca cerrada de raiva)
Não traio.
Porque insistes?
Não traio.
Desde criança que meu Pai me ensinou
não haver tempestade
na terra ou nos céus
que não traga
a praga
de um falso herói
salvador da Cidade.
Ou a esperança de um semideus
com um raio
na Mão
que tudo destrói
para pintar depois o sol e o Chão
de outra realidade.
Mas nunca encontrarás traidores
entre os que sempre como eu sonhámos combustões
de novas flores
com pétalas de asas de liberdade
que só nascem e crescem regadas pelos gritos e lágrimas
das multidões.
Povo, continua! Não páres a tua tempestade.
José Gomes Ferreira
Wednesday, 1 April 2015
Quanto mais amada mais desisto
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
.
Natália Correia,
in “Poesia Completa”
Monday, 30 March 2015
Vem
Vem
Enleia os teus braços
Como o sol das sete da tarde
Desmaia sobre os lilases.
Quem és?
Trazes agarrado à pele
Vestígios peregrinos
De quem busca resposta para a sede.
Já vi muitos morrerem disso
Nesta estepe que habito.
Chegam, abrem o hiato das bocas
Secas
Como se quisessem uivar qualquer injustiça
Antiga
e que lhes corrói a urgência da pele.
Depois
Deixam-se cobrir pelo salitre
Que vai gretando os corpos
Aos montes
Abandonados.
Como despojos de guerra
da minha fome.
Ao certo, sei dizer-te
Nenhumas pernas produziram sémen como as tuas
Quando me devoraram o desejo
Que eram palavras na garganta.
Muda, Eufórica, desnuda
Pelo álcool que a tua ausência obriga.
Não sei de onde venho
Apenas que me findo.
Olho as mãos. Prometem pó.
Se ao menos pudessem alcançar-te ainda...
Recolho os vestígios da fogueira
(o mundo é tão escuro
Visto de dentro)
Aceno um adeus triste ao meu pai
(então, meu querido, essa reforma agrária?)
Arrasto o corpo como cão atropelado
Em dia de calor
Para a sombra do riso.
Escarneço.
Porque entregam os deuses à morte
Os homens nascidos?
Lains de ourém
Friday, 27 March 2015
ACERCA DA VIDA
A vida não é uma brincadeira,
deves tomá-la a sério,
como faz, por exemplo, o esquilo,
sem nada esperar
nem fora nem para além da vida.
Quer dizer: a tua única preocupação será viver.
A vida não é uma brincadeira,
deves tomá-la a sério
e a tal ponto a sério
que de mãos atadas, por exemplo, de costas para a parede,
ou num laboratório
de bata branca e óculos enormes,
morrerás para que os homens vivam,
os homens a quem nem sequer viste a cara.
Morrerás sabendo
que nada é mais belo, nada é mais verdadeiro do que a vida.
Deves tomá-la a sério
e a tal ponto a sério
que aos setenta anos, por exemplo, plantarás oliveiras,
não para herança dos teus filhos, não,
mas porque não acreditarás na morte,
temendo-a embora,
mas porque a vida pesará mais na balança.
Nazim Hikmet
Tuesday, 24 March 2015
Corpo de Mulher...
Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.
Pablo Neruda
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.
Pablo Neruda
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