Thursday, 12 January 2012

A um espantalho


Estás aqui a quê, espanta-pássaros? Ridícula
a tua pretensão, tu, tão frágil, grotesco,
armado de olhos mortos e cabeça empalhada.
Que podes tu fazer às pobres aves,
tão inútil que és - jornais e velhas roupas -
espeto solitário no meio da seara?
Mas é verdade, sim! Espantas, é bem certo!
Oh, vinde ver, incréus! Maravilha! As aves
afastam-se, voam longe, miram-no de lado,
buscam outras paragens. O trigo está guardado,
intocável... Que impotência (dos pássaros)
justifica tal coisa, que jeito em seu aspecto,
que truque alimenta esse receio? Que possui
para dar de fiador a um tal respeito? Paro
na margem deste campo; olho-te, espantalho. Nada
sei de ti e nada posso ler em teu perfil.
Surpreso assisto a desafiares a vida, hirto
papão, de olhos cegos ao mundo. (Serão olhos
os botões cosidos ao pano do teu rosto?)
Verifico daqui que o vivo te repele;
que as aves temem a tua maligna sombra
e somente longe engordam, nidificam,
procriam. Produzes apenas o silêncio
que eu em vão interrogo. Que mortalha sugeres?
Que horror te colaram ao dar-te forma humana?


Egito Gonçalves

Monday, 9 January 2012

Campo de batalha


O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.

O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e de bandeiras.

Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...

Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.

Cada um deles esta rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.


Egito Gonçalves

Friday, 6 January 2012

Creio termos sido feitos para amar


Creio termos sido feitos para amar
tranquilos. Creio sermos velhos
e termos já sofrido o necessário
para comer em paz e ver o sol
cada manhã subir um novo dia
sem angústia alicerçada no nascente.
Creio termos gritado já bastante
em todos estes séculos - estes duros
anos que passaram - Navegámos
em círculo, morremos, renascemos...
Fugazes as tangentes que traçámos
e falharam a alegria.Tanto tempo
e nova morte espreita. A mão
habitual nos comprime as artérias,
Sempre os beijos longos nos escapam.
Não é então para nós? Não é ainda
o tempo de sorrir?


Egito Gonçalves

Tuesday, 3 January 2012

INVENTÁRIO

E, apesar de tudo, sou ainda o Homem,
um bípede com fala e sentimentos!
Ao cabo de misérias e tormentos,
continua
a ser a minha imagem que flutua
na podridão dos charcos luarentos!

Sou eu ainda a grande maravilha
que se mostra ao mundo!
O negro abismo que tem lá no fundo
um regato a correr:
uma risca de céu e de frescura
que murmura
a ver se alguma boca quer beber.

Quanto o grave silêncio da paisagem
me renega e protesta,
pouco importa na festa
deste encontro feliz;
Obra de Arcanjo ou de Satanás,
eu é que fui capaz
de fazer o que fiz!

Podia ser melhor o meu destino,
ter o sol mais aberto em cada mão...
Mas, Adão,
dei o que a argila deu.
E, corpo e alma da degradação,
o milagre é que o Homem não morreu!

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
no meu canto!
Sou eu que na pureza do meu grito
me levanto!

Miguel Torga

Sunday, 1 January 2012

Minuto de silêncio em Buchenwald


Este minuto não é da minha morte!

Respiro normalmente
mas vejo num relance anos desfeitos
na ferrugem de ciclos,
na corrosão da juventude; anos
passados em furor, no estremecer da teia;
longo itinerário de textos cifrados onde
as atropelam imagens
que transportam um tempo calcinado
em amargura. Dois camaradas avançam,
colocam
no solo
a homenagem dos poetas. Distingo
o ruído de botas
no ar cinzento que conduz à morte,
o zumbido em atalho de angústia
que partilhei, imaginando. Concentro-me
pois sei que um sorriso então me salvará
da obsessão. Não se tolera
esta descida; mantém-se
em só lamento, invocação
de palavras no rastro das algemas
que se sabem abertas. A memória da dor
não é a dor; assim a reconheço
no decepar do grito mais claro
que a esperança criou há trinta anos
ao renascer as ruas num rio de alegria.
Em torno da torre,
ondas de névoa rasgadas de fantasmas
simulam o mármore do isolamento. Penso
em Abril - um ano; e pude
estar aqui! - um ano; e pude
estar aqui! Ter vivido! Chegado
ao solene minuto
numa linha de bétulas,
para verter a emoção que deixo
- neste instante de silêncio -
livremente rolar no chão sagrado
se Buchenwald.

(1975)


Egito Gonçalves

Friday, 30 December 2011

Inventário


Há os que gravam no vento e sonham
para se iludir apenas. Sonham
que finalmente tudo corre bem,
que uma manhã arrancam os pregos
que os pregam ao muro, que por fim
podem mover as pernas livremente...

Tísicos do sonho tossem imaginação.
Parece que isso os ajuda a passar
a noite, a imaginar o pão barato,
os dentes menos cariados, o almoço
mais rico em calorias.

Há os que não sabem sonhar. Esses
bebem às vezes arsénico, penhoram
o último alento, deixam-se frigir
panados de escórias e amargura.

O ópio grava no vento. Valem
apenas os sonhos que na pedra gravam.


Egito Gonçalves

Tuesday, 27 December 2011

O amor, a poesia...


O tempo rola; os vossos rostos crescem
no sulco das lágrimas; vossos longos cabelos
cobrem, na noites difíceis, o nosso frio.

Sopram os ventos na planície, fecundando
hectare a hectare um solo adubado
pelas nossas esperanças.

As pupilas da liberdade boiam em grandes olhos
desmedidos
abertos ao futuro.

Entre a noite e a tempestade
um barco de milagres busca um porto seguro:
um rosto de abrigo.


Egito Gonçalves