Thursday, 27 August 2020
Eleição
onde o amor mais puro é transformado em excremento
e um homem em tamanho natural
é reduzido em poucos minutos a escombros
onde os crocodilos são rapidamente promovidos
e os buracos de fechadura são pistolas automáticas
onde se esmaga o cordão umbilical dos sonhos
e se transformam os venenos em fogos de artifício
onde caixeiros viajantes se exercitam
para vender provetas saturadas de morte
é hoje inaugurada uma nova caveira
e muitos depositam nela imensa esperança.
Egito Gonçalves
Sunday, 24 November 2019
A BOMBA
O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques...
O esqueleto não compreendia sozinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.
(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes
entre o gradeamento das costelas.)
Egito Gonçalves
Tuesday, 12 November 2019
MAIS TARDE SIM
Escreverei mais tarde
simples poemas claros
e falarei das aves
sem sofisma.
Escreverei mais tarde
de navios, lagunas,
das tuas roupas soltas
manchadas de luar...
Escreverei mais tarde
saudades da infância
e de pedras e rosas
sem dúbios sentidos.
Escreverei mais tarde
de um anel muito simples
e das tardes plenas
em que o amor se inscreve.
Mas agora deixai-me
chorar sobre estas lágrimas.
Egito Gonçalves
Wednesday, 1 November 2017
MAIS TARDE SIM
Escreverei mais tarde
simples poemas claros
e falarei das aves
sem sofisma.
Escreverei mais tarde
de navios, lagunas,
das tuas roupas soltas
manchadas de luar...
Escreverei mais tarde
saudades da infância
e de pedras e rosas
sem dúbios sentidos.
Escreverei mais tarde
de um anel muito simples
e das tardes plenas
em que o amor se inscreve.
Mas agora deixai-me
chorar sobre estas lágrimas.
Egito Gonçalves
Wednesday, 30 March 2016
O progresso das ciências
Conseguiram encerrar o vento,
retirar a pouco e pouco o ar
e - maravilha! - o povo
resiste ainda e vive.
A asfixia é lenta e os que morrem
parecem ir de morte natural.
Hoje porém os sábios consideram
enganosa essa fórmula que reduz
o paciente à condição de peixe triste.
Pois no repouso fictício a onda
aguarda o luar da maré cheia.
Nas manhãs da terra
as manchas de sangue ganham punhos;
a viva carne cobre o inesperado.
Egito Gonçalves
Monday, 27 October 2014
Cassandra particular
Amanhã de manhã lereis no jornal uma nova guerra
e formulareis o desejo de vitória de um dos lados...
amanhã desejareis uma nova mulher,
fechareis um negócio, comprareis bilhete para o cinema,
passareis em revista as vossas ambições,
suareis, tereis cóleras, jogareis brídge...
Amanhã a Morte olhar-vos-á um passo mais de perto;
amanhã o Amor olhar-vos-á um passo mais de longe.
Continuará a haver estrelas, rosas,
o luar, as dálias, as crianças,
os jardins, o crepúsculo, a poesia
- os livros dos poetas bem baratos...
Mas amanhã não tereis tempo
um minuto sequer
Amanhã vendereis ao Diabo mais um comboio de mercadorias.
Egito Gonçalves
Tuesday, 24 January 2012
Notícia para colar na parede
Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente
Egito Gonçalves
Saturday, 21 January 2012
Os vegetantes
Continuam aqui
roendo as unhas!
Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.
Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.
Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradoiras urtigas, seixos
sem horizonte, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.
Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
«É a vida!», Sementes violadas
não germinam.
Em vão os bombardeiam os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para dar vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressacam.
E fazem do amor essa triste humidade,
um delíquio formal logo amortalhado.
São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.
Egito Gonçalves
Wednesday, 18 January 2012
Também aqui Vietnam
Cada manhã
recebemos no telégrafo o pão que nos impõem,
o que em agonia mastigamos vigiando
a dolorosa digestão: passará
nas tripas?
Leveda negro este pão da morte
a que não escaparemos
sem destruir esse forno de sombras
onde coze
a incurável ferida que rasgará as entranhas da terra.
Que outra coisa comer se é este o pão
que nos fere a garga
nta a cada fome
onde quer que estejamos?
O tempo morde-nos os ossos. A tenaz
aperta-nos a voz sob os detritos.
Que casulo protege da farinha
assassina? Saiamos para a luz, Façamos
de toda a pedra bala
antes que o relâmpago irrompa e a música
seja o leve tombar da poeira radioactiva.
Egito Gonçalves
Sunday, 15 January 2012
APONTAMENTOS PARA UMA CANÇÃO, MAIS TARDE
Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
para os que aprendem geografia nos comunicados de guerra,
nas notícias dos jornais,
nos telegramas do estrangeiro...
para os jovens que aprendem nomes complicados
de pronúncia estranha
com o coração
com a esperança
com o desalento...
para os que, como eu,
e outros mais novos
sabem com os nervos onde fica Adis-Abeba e Guadalajara,
Guadalcanal, o golfo de Akaba, Birkenau e Dien-Bien-Puh...
para os que sabem tudo da mistificação de Munique
da destruição de Oradour
da configuração de Seul
da conspiração de Caracas
da reconstrução de Coventry
da punição de Nuremberga...
Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
terrível como um campo de trigo incendiado,
ardente como os povos que resistem,
para os que sabem
o essencial de Granada - o nome de Federico,
de Istambul - o nome de Nazim Hikmet,
de Buchenwald, Drancy, Auschwitz, os nomes de Desnos
Max Jacob
Fondane
etc., etc.
centenas de etceteras
cada um correspondendo a um nome válido,
a um pássaro morto.
Uma canção sanguinária como a religião dos Tughs,
insólita como a erecção dos enforcados,
para os que ligam o nome dos generais ao número de cadáveres,
sabem os locais onde operam os construtores de ruínas,
sofrem cólicas diante dos placards
e regressam a casa, solitários,
para comer a sopa de mais uma derrota
em que não intervieram.
Uma canção selvagem como os caçadores de escalpes,
destruidora como um terramoto japonês,
para os que sabem de cada crime o ponto certo no mapa
e aprendem, cada manhã, novos nomes invulgares
que lhes rebentam os ouvidos
como se deflagrassem bombas dentro da «paz» que habitam.
(Nomes que os turistas não encontram nos roteiros de viagens
que as Agências lhes fornecem com o prazer enlatado.)
Um dia escreverei uma canção,
uma simples canção,
firme como as flechas da Morte,
para os jovens eruditos da Geografia
que sabem tudo sobre Hiroshima
e respiram - até quando? - ao ritmo de Oak Ridge.
Egito Gonçalves
Thursday, 12 January 2012
A um espantalho
Estás aqui a quê, espanta-pássaros? Ridícula
a tua pretensão, tu, tão frágil, grotesco,
armado de olhos mortos e cabeça empalhada.
Que podes tu fazer às pobres aves,
tão inútil que és - jornais e velhas roupas -
espeto solitário no meio da seara?
Mas é verdade, sim! Espantas, é bem certo!
Oh, vinde ver, incréus! Maravilha! As aves
afastam-se, voam longe, miram-no de lado,
buscam outras paragens. O trigo está guardado,
intocável... Que impotência (dos pássaros)
justifica tal coisa, que jeito em seu aspecto,
que truque alimenta esse receio? Que possui
para dar de fiador a um tal respeito? Paro
na margem deste campo; olho-te, espantalho. Nada
sei de ti e nada posso ler em teu perfil.
Surpreso assisto a desafiares a vida, hirto
papão, de olhos cegos ao mundo. (Serão olhos
os botões cosidos ao pano do teu rosto?)
Verifico daqui que o vivo te repele;
que as aves temem a tua maligna sombra
e somente longe engordam, nidificam,
procriam. Produzes apenas o silêncio
que eu em vão interrogo. Que mortalha sugeres?
Que horror te colaram ao dar-te forma humana?
Egito Gonçalves
Monday, 9 January 2012
Campo de batalha
O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.
O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e de bandeiras.
Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...
Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.
Cada um deles esta rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.
Egito Gonçalves
Friday, 6 January 2012
Creio termos sido feitos para amar
Creio termos sido feitos para amar
tranquilos. Creio sermos velhos
e termos já sofrido o necessário
para comer em paz e ver o sol
cada manhã subir um novo dia
sem angústia alicerçada no nascente.
Creio termos gritado já bastante
em todos estes séculos - estes duros
anos que passaram - Navegámos
em círculo, morremos, renascemos...
Fugazes as tangentes que traçámos
e falharam a alegria.Tanto tempo
e nova morte espreita. A mão
habitual nos comprime as artérias,
Sempre os beijos longos nos escapam.
Não é então para nós? Não é ainda
o tempo de sorrir?
Egito Gonçalves
Sunday, 1 January 2012
Minuto de silêncio em Buchenwald
Este minuto não é da minha morte!
Respiro normalmente
mas vejo num relance anos desfeitos
na ferrugem de ciclos,
na corrosão da juventude; anos
passados em furor, no estremecer da teia;
longo itinerário de textos cifrados onde
as atropelam imagens
que transportam um tempo calcinado
em amargura. Dois camaradas avançam,
colocam
no solo
a homenagem dos poetas. Distingo
o ruído de botas
no ar cinzento que conduz à morte,
o zumbido em atalho de angústia
que partilhei, imaginando. Concentro-me
pois sei que um sorriso então me salvará
da obsessão. Não se tolera
esta descida; mantém-se
em só lamento, invocação
de palavras no rastro das algemas
que se sabem abertas. A memória da dor
não é a dor; assim a reconheço
no decepar do grito mais claro
que a esperança criou há trinta anos
ao renascer as ruas num rio de alegria.
Em torno da torre,
ondas de névoa rasgadas de fantasmas
simulam o mármore do isolamento. Penso
em Abril - um ano; e pude
estar aqui! - um ano; e pude
estar aqui! Ter vivido! Chegado
ao solene minuto
numa linha de bétulas,
para verter a emoção que deixo
- neste instante de silêncio -
livremente rolar no chão sagrado
se Buchenwald.
(1975)
Egito Gonçalves
Friday, 30 December 2011
Inventário
Há os que gravam no vento e sonham
para se iludir apenas. Sonham
que finalmente tudo corre bem,
que uma manhã arrancam os pregos
que os pregam ao muro, que por fim
podem mover as pernas livremente...
Tísicos do sonho tossem imaginação.
Parece que isso os ajuda a passar
a noite, a imaginar o pão barato,
os dentes menos cariados, o almoço
mais rico em calorias.
Há os que não sabem sonhar. Esses
bebem às vezes arsénico, penhoram
o último alento, deixam-se frigir
panados de escórias e amargura.
O ópio grava no vento. Valem
apenas os sonhos que na pedra gravam.
Egito Gonçalves
Tuesday, 27 December 2011
O amor, a poesia...
O tempo rola; os vossos rostos crescem
no sulco das lágrimas; vossos longos cabelos
cobrem, na noites difíceis, o nosso frio.
Sopram os ventos na planície, fecundando
hectare a hectare um solo adubado
pelas nossas esperanças.
As pupilas da liberdade boiam em grandes olhos
desmedidos
abertos ao futuro.
Entre a noite e a tempestade
um barco de milagres busca um porto seguro:
um rosto de abrigo.
Egito Gonçalves
Saturday, 24 December 2011
A propósito do Natal
Após o bem conhecido episódio da Estrela do Oriente
o colérico Herodes gritou aos seus sicários:
«Matem as crianças;
matem todas as criancinhas!»
Redigiu uma proclamação bilingue: judeu e latim,
e como gostava muito de provérbios, declamou:
«Mais vale prevenir do que remediar!»
Os sicários dispersaram em todas as direcções;
contrataram auxiliares
e sem perda de tempo iniciaram a matança
de que falam os livros da especialidade.
Várias espadas partiram com o uso excessivo;
durante algum tempo os cofres dos armeiros
receberam o sorriso das fortunas.
Apesar disso
nada serviu a Herodes o saber de ofício:
como bem se recordam a Criança escapou.
..........................................................................
Hoje Herodes empregaria armas modernas:
radar, cães-robots, espiões magnéticos,
aviões de pesquisa meteorológica...
E por certo a Criança uma vez mais
cresceria saudável e robusta.
Herodes voltaria a não compreender nada.
Mas estaria seguro de si aos microfones
e os directores de cemitérios enviariam
belas mensagens e flores de parabéns.
Egito Gonçalves
Wednesday, 21 December 2011
Variações da política
Foi preso pela Bauxite
interrogado pelo Aço
condenado pelo Petróleo
fuzilado pelo Urânio.
No dia seguinte caíu o governo!
A Bauxite, o Aço, o Petróleo, o Urânio
fuzilaram os fuziladores
e passaram a tomar comboios na direcção oposta.
Egito Gonçalves
Sunday, 18 December 2011
Vietnam
Haverá, meu amor, ainda pássaros no céu
entre aviões e aviões,
crianças com o sorriso ao ombro
entre bombas e bombas?
Tão longe,
podes imaginar, amor, desta ponta
da Europa
aquela morgue
onde morremos indefesos,
aquela invasão de bactérias, uma
putrefacção armada,
tentando impor a lei,
a destruição à sua imagem?
Cai a tarde. O vento
anula o peso dos teus pés na areia
mas na tua cabeça
mantém-se a raiva, a pedra
em que ameaças transformar-te
de impotência.
O ódio que marca a tua cinta
é o único remédio. Alimenta-o
em cada colher de sopa se não queres
ser apenas o gato, a rã, o mineral
cibernético
que querem modelar no espaço do teu corpo.
Poderás, sem isso,
imaginar a paz de que precisam
os filhos que te esperam?
Egito Gonçalves
Thursday, 15 December 2011
O ponto de vista do espectador
Pensa ele que mereceu
de algum modo a cadeira,
ou pagando ou de borla,
de algum modo adquiriu,
pensa ele, um direito.
Parece-lhe que, sentado,
o que no palco vê apenas
é um espectáculo. Num minuto
sairá, poderá historiar
aquilo que fixou, outros
verão através dele, até
talvez o invejem, afinal
foi ele que viu, sim, foi ele
quem esteve lá.
No entanto não sai, algo
o perturba, um dos actores
aponta, e é para ele,
e é a ele que já levam
de rastos pela coxia,
- que rede o envolveu?,
temia todo o gesto, era
um simples espectador -
estava tão quieto, vai
agora para onde, para
o cárcere, para a morgue,
para o segredo que não é dos deuses...?
Egito Gonçalves