É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.
Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...
Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
António Cardoso
Friday, 30 October 2009
Tuesday, 27 October 2009
Fénix
Não seriam palavras o meu canto
nem seria assim quieta a minha morte,
se à viva sorte, um mar de desencanto,
não me tivesse adiado certo norte...
E no acto de viver, se a vida canto,
pura, a este coração lúcido e forte
o devo, mas com temor e já quebranto
na carne agora mais perto da morte;
Entre grades não corre qualquer rio,
nem pode a vida florescer sem luto,
se no exílio até o sol é um astro frio...
Mas das cinzas renasço resoluto,
(Meu canto é já sereno desafio):
Se o presente dói, pelo futuro, luto!...
António Cardoso
nem seria assim quieta a minha morte,
se à viva sorte, um mar de desencanto,
não me tivesse adiado certo norte...
E no acto de viver, se a vida canto,
pura, a este coração lúcido e forte
o devo, mas com temor e já quebranto
na carne agora mais perto da morte;
Entre grades não corre qualquer rio,
nem pode a vida florescer sem luto,
se no exílio até o sol é um astro frio...
Mas das cinzas renasço resoluto,
(Meu canto é já sereno desafio):
Se o presente dói, pelo futuro, luto!...
António Cardoso
Saturday, 24 October 2009
AMIZADE
Passam anos - passa a dor;
passa a dor - passam enganos...
Só nunca passa o calor
dos amigos que ganhamos...
António Cardoso
passa a dor - passam enganos...
Só nunca passa o calor
dos amigos que ganhamos...
António Cardoso
Wednesday, 21 October 2009
RATICIDA
Os ratos são covardes.
Os ratos mordem, pela calada,
correm,
saltam,
fogem,
mijam
- Têm medo da Madrugada.
Os ratos têm ratas
que não parem
- «Dão à luz»
Mas vivem na escuridão...
E também têm filhos,
coitados dos filhos!
- Têm de ser ratos à força.
Há ratos felpudos, carnudos,
de conselhos de administração...
Há ratos amarelos, pés-de-lã,
de corredores de prisões...
Há ratos sanguíneos, róseos, taurinos,
linfáticos, atebrínicos, fleumáticos,
e de todos os tamanhos, feitios e cores...
Os ratos são finos:
quando a água entra,
até fogem dos vapores...
Os ratos são muitos!
Os ratos são demais!
Mas não tantos, assim,
que a Madrugada não rompa!!!
António Cardoso
Os ratos mordem, pela calada,
correm,
saltam,
fogem,
mijam
- Têm medo da Madrugada.
Os ratos têm ratas
que não parem
- «Dão à luz»
Mas vivem na escuridão...
E também têm filhos,
coitados dos filhos!
- Têm de ser ratos à força.
Há ratos felpudos, carnudos,
de conselhos de administração...
Há ratos amarelos, pés-de-lã,
de corredores de prisões...
Há ratos sanguíneos, róseos, taurinos,
linfáticos, atebrínicos, fleumáticos,
e de todos os tamanhos, feitios e cores...
Os ratos são finos:
quando a água entra,
até fogem dos vapores...
Os ratos são muitos!
Os ratos são demais!
Mas não tantos, assim,
que a Madrugada não rompa!!!
António Cardoso
Sunday, 18 October 2009
INVENCIBILIDADE
Os braços desfaleçam, jorre o sangue, o último grito
fira, agónico, o silêncio da noite petrificada...
Ainda no corpo morto ficará, como granito,
imperecível certeza da mais rubra madrugada!...
António Cardoso
fira, agónico, o silêncio da noite petrificada...
Ainda no corpo morto ficará, como granito,
imperecível certeza da mais rubra madrugada!...
António Cardoso
Thursday, 15 October 2009
FUGA DA CELA DISCIPLINAR
Está uma noite
com lua, tão lua,
que quase endoidece.
Que até apetece
desertar da cela,
cair numa rua,
prender uma bela,
deitá-la no chão
tão nua, tão nua,
em beijos tão longos,
tão longos, tão longos,
que quase endoidece.
António Cardoso
com lua, tão lua,
que quase endoidece.
Que até apetece
desertar da cela,
cair numa rua,
prender uma bela,
deitá-la no chão
tão nua, tão nua,
em beijos tão longos,
tão longos, tão longos,
que quase endoidece.
António Cardoso
Monday, 12 October 2009
PONHO A MÃO SOBRE ESPANHA
Ponho a mão sobre Espanha e juro
que nunca escreverei seu nome em vão.
Se me sabeis alguma vez perjuro
de Espanha e do seu povo,
decepai-me esta mão.
Jesus Lopez Pacheco
que nunca escreverei seu nome em vão.
Se me sabeis alguma vez perjuro
de Espanha e do seu povo,
decepai-me esta mão.
Jesus Lopez Pacheco
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