Showing posts with label António Cardoso. Show all posts
Showing posts with label António Cardoso. Show all posts

Wednesday, 1 December 2021

Necrologia

A poesia está aí, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...

Para exemplo
de pura ocasião
a poesia está, todos os dias
na necrologia dos jornais:
é crianças e mais crianças...
na relação dos feridos
nas catacumbas das prisões
e nos bancos dos hospitais:
«acometido de doença súbita
no Musseque da Lixeira,
foi transportado na ambulância,
Domingos João, que morreu
hoje, quinta-feira»

A poesia está aí, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...

E, até por ironia,
está escondida nas necrologias dos jornais!...


António Cardoso
(In Economia Política Poética)

 

Friday, 6 November 2009

Um dia...

Um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar Silva Porto
e os pretos irem embora.
Vai entrar a lua e meninos sem cor,
a Domingas quitata, o sô Floriano do talho,
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola,
os batuques da Cidrália e dos Invejados,
os batalhões do «Treze» e do «Setenta e Quatro»,
o bêbado Rebocho, o velho Salambió,
a Joana Maluca da garotada.
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de Fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao mundo!

António Cardoso

Tuesday, 3 November 2009

Espera

Nesta longa e fluctígera espera
se transmudam os dias
de desespero, luta e coerência.
Mas é tão certo a flor
do sonho florir na terra amada,
que já bebo alegrias antecipadas
- exausto de silêncio e de calor!

António Cardoso

Sunday, 1 November 2009

Combóio de Malange

Prisioneiro no meu escritório
sonho as distâncias do mato
que me traz o apito do comboio
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA
VENHO-DE-LONGE, VOU-PRA-LONGE,
VENHO-DE LONGE, VOU-PRA-LONGE.

Ainda um dia vou partir
nesse comboio do mato
que tem dor no vagão J
e vou ser como ele
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

Depois
todo povo vai dizer:
MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA!

António Cardoso

Friday, 30 October 2009

É inútil chorar

É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

António Cardoso

Tuesday, 27 October 2009

Fénix

Não seriam palavras o meu canto
nem seria assim quieta a minha morte,
se à viva sorte, um mar de desencanto,
não me tivesse adiado certo norte...

E no acto de viver, se a vida canto,
pura, a este coração lúcido e forte
o devo, mas com temor e já quebranto
na carne agora mais perto da morte;

Entre grades não corre qualquer rio,
nem pode a vida florescer sem luto,
se no exílio até o sol é um astro frio...

Mas das cinzas renasço resoluto,
(Meu canto é já sereno desafio):
Se o presente dói, pelo futuro, luto!...

António Cardoso

Saturday, 24 October 2009

AMIZADE

Passam anos - passa a dor;
passa a dor - passam enganos...
Só nunca passa o calor
dos amigos que ganhamos...

António Cardoso

Wednesday, 21 October 2009

RATICIDA

Os ratos são covardes.
Os ratos mordem, pela calada,
correm,
saltam,
fogem,
mijam
- Têm medo da Madrugada.

Os ratos têm ratas
que não parem
- «Dão à luz»
Mas vivem na escuridão...

E também têm filhos,
coitados dos filhos!
- Têm de ser ratos à força.

Há ratos felpudos, carnudos,
de conselhos de administração...
Há ratos amarelos, pés-de-lã,
de corredores de prisões...

Há ratos sanguíneos, róseos, taurinos,
linfáticos, atebrínicos, fleumáticos,
e de todos os tamanhos, feitios e cores...

Os ratos são finos:
quando a água entra,
até fogem dos vapores...

Os ratos são muitos!
Os ratos são demais!
Mas não tantos, assim,
que a Madrugada não rompa!!!

António Cardoso

Sunday, 18 October 2009

INVENCIBILIDADE

Os braços desfaleçam, jorre o sangue, o último grito
fira, agónico, o silêncio da noite petrificada...
Ainda no corpo morto ficará, como granito,
imperecível certeza da mais rubra madrugada!...

António Cardoso

Thursday, 15 October 2009

FUGA DA CELA DISCIPLINAR

Está uma noite
com lua, tão lua,
que quase endoidece.

Que até apetece
desertar da cela,
cair numa rua,
prender uma bela,
deitá-la no chão
tão nua, tão nua,
em beijos tão longos,
tão longos, tão longos,
que quase endoidece.

António Cardoso