Thursday, 18 April 2024

Livro

Porque de tudo o que havia
ressaltavas tu, inteira, intensa, imersa no fogo,
terrivelmente límpida como uma ode ao trigo,
à beleza,
às rosas de saliva que cresciam
nos assombrados e húmidos canteiros
da minha boca,
eu te entendo
como se entende o sangue e a loucura,
como se entende o fogo e o rio,
como se entende a música e o sonho,
isto é,
gostava de te entender como coisa absoluta,
um barco, uma árvore, um farrapo de neve,
mas tu és um livro e eu um leitor de ti
que te folheia e saboreia página
a página,
cujo olhar permanece em sacrifício,
esfomeado e livre, sempre
esfomeado e livre,
sendo,
ou muito perto
de ser.
Joaquim Pessoa

Monday, 15 April 2024

Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira

Friday, 12 April 2024

*

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam
movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração.

Ruy Belo
in “Homem de Palavra(s)”

Tuesday, 9 April 2024

Valsa da Libertação

Pesa-me inteira a flor que falta
Para a roseira ficar mais alta,
Pesa-me a lua e a noite vem
De espada nua, buscar alguém.

 
Pesa-me a neve ou a montanha:
Dizem que é leve, mas é tamanha!
Chumbo ou veludo, seja o que for,
Pesa-me tudo menos a dor.

Pedro Homem de Melo

Saturday, 6 April 2024

ver no escuro

  todos nós podemos caminhar no escuro,
pelas vielas perdidas,
pelas ruas escondidas,
caminhar sob a chuva fria,
e sentir escorrer-nos pela fronte a água,
sentir nos lábios o sabor mais puro,
todos nós podemos,
podemos trilhar as vias da tristeza,
da dureza,
saltar o precipício e encarar nua
a morte e o futuro.
podemos caminhar sobre a terra ardida,
queimar os pés nas brasas que antecedem as cinzas,
ou voar pelo céu sem estrelas, navegar sem uma constelação,
e por aí nos perdermos sem sextante ou astrolábio.
todos é certo
podemos caminhar.
contudo,
espero,
que só chegue quem queira mesmo mesmo chegar.

Miguel Tiago 

Wednesday, 3 April 2024

Seppuku

 Com a chegada de Março, as cerejeiras de inverno começavam lentamente a despedir-se das flores que as cobriram no princípio do fim do frio e da neve. A alvura começara a diluir-se para se abrir em verdes pedaços de terra que surgiam. Sob a copa aberta de uma cerejeira, segurou o cabo da espada com a mão direita e a bainha e a guarda com a mão esquerda.

Solenemente, contemplou, inclinando-se para baixo, o corpo e o seu sopro sagrado que em breve cessaria. Dali, se via ainda o prado onde morrera um e outro. Haviam morrido, porém ainda teriam a liberdade de partir com dignidade. No campo da batalha, agora coberto de um manto de sangue sobre o gelo e a neve, jaziam inúmeros os corpos já vazios. Embora com mais perdas, a batalha havia sido ganha, o inimigo retirara-se para não mais voltar. Igualmente, o seu líder ficara para sempre de peito aberto até que venha a apodrecer sob a terra.

Por isso mesmo, embora vencedores, a vida não teria agora a quem servir. E quem vive para servir, deixa de viver quando desvanece esse objectivo. Não é opção, é naturalidade. À medida que a primeira flor de cerejeira caiu da copa rósea, sentiram essa sua incontornável natureza. A flor não escolhera cair.

A mão direita cortaria agora a quadragésima sexta cabeça com a lâmina já baça do sangue que, frio, se espessava. Por detrás do homem ajoelhado, levantou a lâmina paralela ao solo sobre os seus ombros e por detrás do seu próprio pescoço. Quando o ajoelhado se penetrou e esventrou com a faca até às costelas, com a mão direita apenas, fez lançar sobre o pescoço num só golpe rápido e poderoso, a lâmina afiada do destino. Pendeu o corpo para frente, vazio, com a pele do pescoço segurando a cabeça ao tronco. Sacudiu o sangue vívido da lâmina, contemplando os quarenta e seis mortos esvaídos ao longo do campo branco e gelado.

Depois, sem ter quem lhe retribuísse a digna homenagem, tornou a embainhar a sua espada. Puxou com a mão direita o punhal e com o gume virado para os seus olhos, fê-lo entrar no seu corpo, sereno. Quando tombou, ainda viu tocar no chão a pequena flor, mesmo a seu lado.

Miguel Tiago

Monday, 1 April 2024

sangue

hoje precisava de uma alma.
e há mesmo quem diga que uma me falta todos os dias.

Miguel Tiago