na fábrica onde eu trabalhava havia muito frio
mas os meus camaradas sorriam e contávamos histórias uns aos outros
de vez em quando encandeávamo-nos e esfregávamos os olhos
depois olhávamos admirados a perfeição da soldadura
medíamos dobrávamos batíamos o ferro
e era como se pouco a pouco algo dentro de nós se construísse
tínhamos ali as nossas entranhas e o nosso jardim
e aquilo era como a nossa horta ou a nossa casa à hora do almoço
José Vultos Sequeira
Saturday, 18 December 2021
NA FÁBRICA ONDE EU TRABALHAVA
Wednesday, 15 December 2021
Aviso
A noite que precedeu a sua morte
foi a mais breve de toda a sua vida
Pensar que estava vivo ainda
era um fogo no sangue até aos punhos
A sua força era tal que ele gemia
Foi quando atingia o fundo deste horror
que o seu rosto num sorriso se lhe abriu
Não tinha apenas um único camarada
mas sim milhões e milhões de camaradas
para o vingarem sim bem o sabia
E então para ele ergue-se a alvorada
Paul Éluard
Sunday, 12 December 2021
Gorila
O gorila é um animal
quase inteiramente humano.
Não tem patas quase pés,
não tem garras quase mãos.
Estou-lhes a falar
do gorila do bosque africano.
O animal que aqui se mostra,
por pouco
é inteiramente um gorila.
Patas em lugar de pés
e quase garras em lugar das mãos.
Estou-lhes a mostrar
o gorila americano.
Adquiriu-o
num quartel o nosso agente
para o Grande Zoo.
Nicolas Guillén
(In O Grande Zoo)
Thursday, 9 December 2021
Poema
Anda, vá, conta uma história
conta uma história qualquer,
conta lá, mamana Elisa
«Uma vêgi uma muilher
ficou triste, triste, triste
qui nunca mais tinha filho...»
(Mamana: a tristeza existe?
existe, mamana? existe?)
«Homi não qu'ria mais ela
porqui filho não nascia...»
(Que história!... Não gosto dela,
não era essa que eu queria...)
«Está bem, eu vai contar
aquela... da flor de rosa
qui vinha à noite dançar...
Mas óia, minino, óia
qui tu já tem muita idade...
Porque é qui tu nunca gosta
da história qui são virdade?...»
Guilherme de Melo
(In Poetas de Moçambique)
Monday, 6 December 2021
Linc(h)e
Linc(h)e do Alabama.
Rabo em forma de chicote
e garras terciárias.
Costuma manifestar-se
com uma grande cruz em chamas.
Alimenta-se de negros, cilhas,
fogo, sangue, cravos,
alcatrão.
Capturado
junto a uma forca. Macho.
Castrado.
Nicolas Guillén
(In O Grande Zoo)
Friday, 3 December 2021
O Caraíba
No aquário do Grande Zoo,
nada o Caraíba.
Este animal
marítimo e enigmático
tem uma crista de cristal,
lombo azul, cauda verde
ventre em coral compacto,
barbatanas cinzentas de ciclone.
No aquário, esta inscrição:
«Cuidado: morde».
Nicolas Guillén
(In O Grande Zoo)
Wednesday, 1 December 2021
Necrologia
A poesia está aí, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...
Para exemplo
de pura ocasião
a poesia está, todos os dias
na necrologia dos jornais:
é crianças e mais crianças...
na relação dos feridos
nas catacumbas das prisões
e nos bancos dos hospitais:
«acometido de doença súbita
no Musseque da Lixeira,
foi transportado na ambulância,
Domingos João, que morreu
hoje, quinta-feira»
A poesia está aí, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...
E, até por ironia,
está escondida nas necrologias dos jornais!...
António Cardoso
(In Economia Política Poética)