Wednesday, 6 May 2020
CANTA
Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.
Joaquim Pessoa
Sunday, 3 May 2020
Aos que virão depois de nós
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente,
nós,
que queríamos preparar o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.
Bertolt Brecht
Friday, 1 May 2020
O POETA
O poeta está sentado sobre
a pele do mar. É um poeta pobre mas
na sua fala as palavras são árvores, searas,
incêndios que deslumbram a luz das feridas
e sacodem o vento. No olhar do poeta, a paisagem
exibe-se em círculos de sabedoria e o espaço
é um fulgor tranquilo, não mais que o desejo
que a página tem do corpo do poema. E na
voz, cada sílaba é uma vértebra, breve chave
que se acende como lâmpada iluminando
um orifício azul no horizonte do que é dito,
um rebanho de símbolos sobre a duna
imensa e densa, por onde se repete o
movimento frágil que imola em chama breve,
o breve e deserto caminhar. E o poeta sabe
como as palavras se desdizem, dizendo-se.
Palavras de cal, de mármore e de fogo.
As palavras distantes de si mesmas e em
si mesmas próximas na distância, mapa
transgressivo, possibilidade inacessível
de ser presença e falta, ouro pobre que quer
libertar-se de ser promessa e substância. Então,
o poeta vê arder o mar, arder a sombra, arder
o próprio corpo. E não se importa, não
escolhe outro caminho que o desvie da
dor silenciosa de viver morrendo. De
morrer como quem vive.
Joaquim Pessoa
Thursday, 30 April 2020
Luta
A vida afronta, face a face, e luta!
Do inimigo o vigor não te intimide;
De firme braço e de alma resoluta,
Antes que sejas agredido, agride!
Afronta, a frio, calmo, a força bruta;
Nunca deixes insulto sem revide.
E fraco, embora, no calor da luta,
Não mostres, nunca, que tens medo à lide.
Vencer ou ser vencido - eis o dilema
Na existência - do instante da partida
Até chegar da estrada à meta extrema.
Não te humilha a batalha, por perdida;
"Lutar ainda!" eis, do homem forte, o lema,
Pois a vida sem luta é a morte em vida!
Bastos Tigre
Do inimigo o vigor não te intimide;
De firme braço e de alma resoluta,
Antes que sejas agredido, agride!
Afronta, a frio, calmo, a força bruta;
Nunca deixes insulto sem revide.
E fraco, embora, no calor da luta,
Não mostres, nunca, que tens medo à lide.
Vencer ou ser vencido - eis o dilema
Na existência - do instante da partida
Até chegar da estrada à meta extrema.
Não te humilha a batalha, por perdida;
"Lutar ainda!" eis, do homem forte, o lema,
Pois a vida sem luta é a morte em vida!
Bastos Tigre
Monday, 27 April 2020
Clamor contra os que me forçam a ser mais pequeno do que sou
E ainda por cima
me obrigam a odiar bandeiras exactas
e a embalar a superfície das coisas.
José Gomes Ferreira
Friday, 24 April 2020
Ao António Ramos
Folha que escuta o vento o som do muro
erguido ao sol da erva nuvem clara
feita o instante verde a pedra rara
sobre o anel do tempo e do futuro.
Boca do ar espuma das palavras
na janela do fogo abelha dura
voando sobre os beijos mão que lavras
na polpa das cerejas a mais pura
morte que se escreve com a mágoa
do medo sobre o rosto a longa asa
rasando os lábios soltos pela água
de quem faz com versos uma casa.
Joaquim Pessoa
in POEMAS DE PERFIL, 1975
Tuesday, 21 April 2020
AS MÃES
Depois de morrer, as mães vivem no céu da boca, ainda atarefadas com o amor. "Sou mulher", dizem, e tudo é criança nas suas palavras, sangue jovem glorificado pelos amantes
que tiveram em vida, um sangue contente capaz de regressar para sorrir nas nossas mãos e no coração das perguntas que em nós não conseguirão nunca adormecer.
As mães não param de arder no pensamento, como raparigas
que deixaram de ser jovens e são agora as mais jovens de todas as mulheres.
Há nelas uma canção cuja música é de seda e veste a vontade de cantar os versos que amadurecem a carne, pobres versos
repartidos filho a filho, dor a dor, até não doer nem haver
mais nada.
As mães são árvores enormes, onde cantam os pássaros
do arrependimento, fabulosos pássaros que têm exactamente a nossa idade.
Amo as mães. Amo as mães. Com o coração dos livros e o coração da terra.
E a minha memória é uma floresta onde vivem as mães, onde dormem as mães com o medo infantil das tempestades.
Joaquim Pessoa
que deixaram de ser jovens e são agora as mais jovens de todas as mulheres.
Há nelas uma canção cuja música é de seda e veste a vontade de cantar os versos que amadurecem a carne, pobres versos
repartidos filho a filho, dor a dor, até não doer nem haver
mais nada.
As mães são árvores enormes, onde cantam os pássaros
do arrependimento, fabulosos pássaros que têm exactamente a nossa idade.
Amo as mães. Amo as mães. Com o coração dos livros e o coração da terra.
E a minha memória é uma floresta onde vivem as mães, onde dormem as mães com o medo infantil das tempestades.
Joaquim Pessoa
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