Tuesday, 18 June 2019

Liberdade


Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente.
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga




Saturday, 15 June 2019

Para não deixar de amar-te nunca



Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.


Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

Wednesday, 12 June 2019

Segredo


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
*
nem que corro
os cortinados
para uma sombra mais espessa
*
deixa que feche o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço
*
Não contes do meu
vestido
nem da roca de fiar
*
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
*

Maria Teresa Horta

Sunday, 9 June 2019

Poema da terra adubada



Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.

As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

António Gedeão

Thursday, 6 June 2019

AS RUAS


O que era inquietação fez-se tranquilidade.
A agitação de agora é uma expressão de alívio.
Estão as paredes cheias de inscrições explosivas,
a vermelho, a amarelo, a azul, a verde, a preto,
e de todos os lados surgem rudes cortejos,
com cartazes, bandeiras e protestos vibrantes,
na sua confusão o desejo afirmando
de mais justiça, de mais luz, de mais vontade.
Um povo prisioneiro quebrou de vez as grades.
Um povo amordaçado descobriu-se a pensar.
Por fim, na liberdade a aprenderá a ter.
Por fim, no pensamento encontrará o gosto
da paz, da harmonia e da fraternidade.

Armindo Rodrigues

Monday, 3 June 2019

Uma nova mulher


Que venha essa nova mulher de dentro de mim,
Com olhos felinos felizes e mãos de cetim
E venha sem medo das sombras, que rondam o meu coração,
E ponha nos sonhos dos homens a sede voraz, da paixão

Que venha de dentro de mim, ou de onde vier,
Com toda malícia e segredos que eu não souber
Que tenha o cio das corças e lute com todas as forças,
Conquiste o direito de ser uma nova mulher

Livre, livre, livre para o amor
quero ser assim, quero ser assim
Senhora das minhas vontades e dona de mim

Paulo Debétio

Saturday, 1 June 2019

paredes de areia




a minha casa ainda é a minha casa
mas já não moro lá

a minha família ainda é a minha família
mas não mora comigo.

são as paredes que me acolheram

e a educação que me deu

que me expulsam.

VL