Sunday, 18 March 2018
Pele
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser a pele da minha pele?
Cintilação de luas
assim que te desnudas
às escuras
Diante do teu ventre
como não dizer “sempre”
novamente.
Ó lâmina e bainha
de outra espada ainda
Tua língua
Ruge. Reprende. Arrasa
Desde que sempre o faças
com as asas
Vem dos arcanos de outro tempo
ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente
que só na cama as almas ganham.
David Mourão-Ferreira
(Pequenos Poemas)
Thursday, 15 March 2018
Fado da pedrada
quis que ardesse em minha posse
mas fumado não o agarro
talvez fosse do cigarro:
fez-me tosse, fez-me tosse
e um dia que estava só,
tão só que não vou contá-lo,
só sei que metia dó,
quis o amor desfeito em pó
e pus-me então a snifá-lo
noutra noite vil de luto
após triste despedida
preparei um crack em bruto
e do amor levei um chuto
que me deu cabo da vida
e o meu ser assim se joga
numa contínua desordem
pobre amor, em mim és droga,
que me pedra e perde e afoga,
não me acordem, não me acordem.
Vasco Graça Moura
Monday, 12 March 2018
Quase Um Anjo / Fado Vadio (Má Fama)
És tão antiga a voar
Sabes da ilha remota
Que só se encontra no mar
Leva-me ave do destino
Faz de mim o teu poente
Tu que és quase, quase um anjo
Faz-me perto de ser gente
Sei que já foste gaivota
Candeia de um pescador
Amante de caravela
Aquele voo incolor
És um anjo sem andor
À procura de uma estrela
Quase nada, quase dor
Quase vão de uma janela
Sei que já foste gaivota
Sei de cor por onde andaste
Sei de cor todos os mapas
Do coração que traçaste
Leva-me ave do destino
Faz de mim o teu poente
Tu que és quase, quase um anjo
Faz-me perto de ser gente
- - - - - - - - - - - - - - - - - - -
já andei pelos telhados
para me vingar do céu
abri feridas na lua
mas de todos os pecados
aquele que me perdeu
foi demorar a ser tua
fui de viela em viela
bebi água da chuva
dormi onde me acolhiam
tive casas sem janela
mais de mil vezes viúva
dos amores que me morriam
já marquei homens dos tais
roguei pragas a quem passa
ganhei fama de vadia
como os gatos dos quintais
fui caçadora e fui caça
mas só queria companhia.
João Monge
Friday, 9 March 2018
Soneto de Mal Amar
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.
A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.
E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.
Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.
José Carlos Ary dos Santos
Tuesday, 6 March 2018
PORQUINHO-DA-ÍNDIA
Quando eu tinha seis anos
ganhei um porquinho-da-Índia.
Que dor de coração eu tinha
porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra a sala
pra os lugares mais bonitos e mais limpinhos
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-Índia foi a minha primeira namorada.
Manuel Bandeira
Saturday, 3 March 2018
CAMARADA
Camarada é uma palavra bonita. Sempre. E assume particular beleza e significado quando utilizada pelos militantes comunistas.
O
camarada é o companheiro de luta - da luta de todos os dias, à qual dá o
conteúdo de futuro, transformador e revolucionário que está na razão da
existência de qualquer partido comunista.
O
camarada é aquele que, na base de uma específica e concreta opção
política, ideológica, de classe, tomou partido - e que sabe que o seu
lugar é o do seu partido, que a sua ideologia é a da classe pela qual
optou.
O
camarada é aquele com cujo apoio solidário contamos em todos os
momentos - seja qual for o ponto da trincheira que ocupemos e sejam
quais forem as dificuldades e os perigos com que deparamos.
O
camarada é aquele que nos ajuda a superar as falhas e os erros
individuais - criticando-nos com uma severidade do tamanho da
fraternidade contida nessa crítica.
O
camarada é aquele que, olhando à sua volta, não vê espelhos...: vê o
colectivo - e sabe que, sem ter perdido a sua individualidade, integra
uma outra nova e criativa individualidade, soma de múltiplas
individualidades.
O
camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas
julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta
no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático,
amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.
O
camarada é aquele que, tão naturalmente como respira, faz da
fraternidade um caminho, uma maneira de ser e de estar - e que, por isso
mesmo, não necessita de a apregoar e jamais a invoca em vão.
O
camarada é aquele que olhamos nos olhos sabendo, de antemão, que lá
iremos encontrar solicitude, camaradagem, lealdade - e sabemos que esse
olhar é uma fonte de força revolucionária.
O camarada é aquele a cuja porta não necessitamos de bater - porque a sabemos sempre aberta à camaradagem.
O
camarada é aquele que jamais hesita entre o amigo e o inimigo - seja
qual for a situação, seja qual for o erro cometido pelo amigo, seja qual
for a razão do inimigo.
O
camarada é o que traz consigo, sempre, a palavra amiga, a voz fraterna,
o sorriso solidário - e que sabe que a amizade, a fraternidade, a
solidariedade, são valores humanos intrínsecos ao ideal comunista.
O
camarada é aquele que é revolucionário - e que não desiste de o ser
mesmo que todos os dias lhe digam que o tempo que vivemos é coveiro das
revoluções.
Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.
José Casanova
Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.
José Casanova
in Avante!, 20.6.2002
Thursday, 1 March 2018
Daqui desta Lisboa
Nápoles por Suíços habitada,
onde a tristeza vil, e apagada,
se disfarça de gente mais activa;
Daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;
Daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;
Daqui, só paciência, amigos meus !
Peguem lá o soneto e vão com Deus...
Alexandre O'Neill
Subscribe to:
Posts (Atom)