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Saturday, 1 September 2018

MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO



Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi
até hoje na minha vida,
inclusive o porquinho-da-Índia
que me deram quando eu tinha seis anos.


Manuel Bandeira

Tuesday, 6 March 2018

PORQUINHO-DA-ÍNDIA


Quando eu tinha seis anos
ganhei um porquinho-da-Índia.
Que dor de coração eu tinha
porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra a sala
pra os lugares mais bonitos e mais limpinhos
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...


- O meu porquinho-da-Índia foi a minha primeira namorada.

Manuel Bandeira

Tuesday, 18 April 2017

POEMA DE FINADOS


Amanhã que é dia dos mortos
vai ao cemitério. Vai
e procura entre as sepulturas
a sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas
ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
o filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
é a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Manuel Bandeira

Wednesday, 12 April 2017

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
lá tenho a mulher que eu quero
na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
de tal modo inconsequente
que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
vem a ser contraparente
da nora que nunca tive

E como farei ginástica
andarei de bicicleta
montarei em burro brabo
subirei no pau de sebo
tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
deito na beira do rio
mando chamar a mãe-d'água
pra me contar as histórias
que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
é outra civilização
tem um processo seguro
de impedir a concepção
tem telefone automático
tem alcalóide à vontade
tem prostitutas bonitas
para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
mais triste de não ter jeito
Quando de noite me der
vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
terei a mulher que eu quero
na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

Wednesday, 18 May 2016

Poema de uma quarta feira de cinzas


Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…


O seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,

Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça…

Manuel Bandeira

Friday, 18 October 2013

O BICHO

Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Monday, 6 May 2013

PARÁFRASE DE RONSARD


Foi para vós que ontem colhi, senhora,
este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
não sei mais do que o vosso outro macio
rosto, nem boca de melhor feitio,
a tudo a idade afeia sem demora.

Senhora, o tempo foge... o tempo foge...
Com pouco morreremos - e amanhã
já não seremos o que somos hoje...

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso amai-me... enquanto sois bonita.

Manuel Bandeira

Tuesday, 12 February 2013

MOZART NO CÉU



No dia 5 de Dezembro de 1791, Wolfgang Amadeus Mozart
entrou no céu, como um artista de circo,
fazendo piruetas extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco.

Os anjinhos atónitos diziam: Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam
nas linhas suplementares superiores da pauta.

Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.


Manuel Bandeira

Sunday, 6 January 2013

IRENE NO CÉU



Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.


Manuel Bandeira

Sunday, 18 April 2010

CREPÚSCULO DE OUTONO

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira