Monday, 18 September 2017
ESTRADA NOVA
Nós estamos jogando picaretas de aço,
ó montanha negra nós te venceremos!
Vimos em fúria dos confins do mundo,
vimos em fúria dos confins do mundo,
nós estamos jogando picaretas de aço!
É uma estrada nossa, é uma estrada nova
ó companheiros do sangue vermelho!
Nós estamos jogando picaretas de aço,
nós estamos jogando picaretas de aço,
é uma estrada nossa, é uma estrada nova!
Vimos em fúria dos confins do mundo,
picaretas vibrai, abatei a montanha!
Nós estamos rasgando uma estrada nova,
vimos em fúria dos confins do mundo.
Papiniano Carlos
Friday, 15 September 2017
SONETO AO SENHOR CORREIO
Senhor Correio, Senhor Dom Correio,
por favor, por favor, Vossa Excelência
não abra as minhas cartas porque é feio
e tudo o que for feio falta à decência.
Eu leio as suas cartas? Não, não leio.
Se suas cartas lesse era demência.
Senhor Correio, veja se há um meio
de ter um pouco menos de inclemência.
Porque enfim o que escrevo a mim o devo,
Senhor Correio, é meu tudo o que escrevo,
é a tinta expressando as minhas falas.
É qualquer coisa mais que intimidade.
Senhor Correio, sabe que é verdade,
violar minhas cartas é matá-las.
Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)
por favor, por favor, Vossa Excelência
não abra as minhas cartas porque é feio
e tudo o que for feio falta à decência.
Eu leio as suas cartas? Não, não leio.
Se suas cartas lesse era demência.
Senhor Correio, veja se há um meio
de ter um pouco menos de inclemência.
Porque enfim o que escrevo a mim o devo,
Senhor Correio, é meu tudo o que escrevo,
é a tinta expressando as minhas falas.
É qualquer coisa mais que intimidade.
Senhor Correio, sabe que é verdade,
violar minhas cartas é matá-las.
Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)
Tuesday, 12 September 2017
ANÚNCIO
Eu que cheguei em silêncio
falarei do Homem,
falarei dos homens sobre a terra,
do Rio dos homens sobre a terra.
E eu sei que não há dois homens iguais,
por isso eu os conheço todos um por um
e os chamo pelos seus nomes,
e no entanto eu sei que são o mesmo Homem,
espelho de mil faces.
Há alguma coisa mais admirável?
Eu que falo da multidão insolúvel como de um Rio,
falo do Homem cheio
de personalidade.
Eu falo do Homem jamais cativo
mesmo quando o fecharam com grades e paredes
e mordaças,
do Homem que nasceu livre e será livre
apesar de tudo!
e estou vendo a marcha invencível dos homens
e glorificando-a.
Papiniano Carlos
Saturday, 9 September 2017
ACUSO
Vocês todos,
malditos
que nos roubaram a vida,
são, liricamente,
pesseguinhos
- filhos da fruta.
Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)
Wednesday, 6 September 2017
PRIMEIRO DIA
Depois será como se nascêssemos de novo,
trouxéssemos para o dia
a nossa mais funda e mais bela face.
Dia de chuva solar em nossos cabelos ilimitados.
Ergueremos os ombros cansados.
E nos reveremos nas águas
do próprio rio que somos, inextinguível.
Pousarão as aves marinhas e as terrestres
nos nossos ombros escorrendo sol e limos,
e as rãs adormecerão nos paúis
onde nos diluímos sofregamente raízes.
E os peixes e os navios navegarão em nosso sangue,
na maior das navegações
de todos os tempos.
Erecto estará o nosso braço, e formidável.
Sob as nossas mãos
crescerão as formas anunciadas.
E as palavras nos brotarão dos lábios,
e serão searas
e aves do tamanho do mundo.
Papiniano Carlos
Sunday, 3 September 2017
A CORJA
A vida é bonita,
mas alguém sujou
seus rios que riem,
roubou os seus pães
alvos e morenos,
queimou os seus livros
que eram livros livres,
cortou suas flores
que tinham sol dentro,
fechou os seus homens
com sede de fora,
degradou as grades
imundas o mundo.
A vida é bonita
fizeram-na feia,
quem for o culpado
que levante o dedo.
- E a corja impassível
de braços cruzados,
falando da lua,
fingindo que não.
Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)
mas alguém sujou
seus rios que riem,
roubou os seus pães
alvos e morenos,
queimou os seus livros
que eram livros livres,
cortou suas flores
que tinham sol dentro,
fechou os seus homens
com sede de fora,
degradou as grades
imundas o mundo.
A vida é bonita
fizeram-na feia,
quem for o culpado
que levante o dedo.
- E a corja impassível
de braços cruzados,
falando da lua,
fingindo que não.
Sidónio Muralha
(«Poemas de Abril» - 1974)
Friday, 1 September 2017
HERANÇA
Que rosa vermelha entre loureiros
há ressuscitado?
A pé, companheiros,
que os mortos estão de pé a nosso lado.
Roxos de fome, angústia, sede e morte
na solidão:
nada nos importe
senão a aurora que levamos no coração.
Que nos arranquem língua, veias, olhos, nervos,
a pele que reste.
Não é de servos
o relâmpago espantoso que nos veste!
Papiniano Carlos
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