Monday, 6 February 2017

A LEITURA (brechtiana)



Não te deixes enrolar!
És tu quem tem de pagar...
Põe o dedo em cada letra.
Pergunta: «Por que está 'qui?»


Alexandre O'Neill

Friday, 3 February 2017

CASA DE PENHORES


I 
Rua estreita - não sei quem lá passou.
Porta aberta - não sei quem lá entrou.
Não sei - não sei dizer e não me importa,
nem a rua, cansada de ser rua,
nem a porta cansada de ser porta.

Mas foi aqui, na rua triste e nua,
e junto à porta aberta, fria e larga,
que me surgiu aquela frase amarga
e nunca mais me deixou:

- Schubert empenhou o violino e o mundo não estoirou!

II 
Mas não falemos de Schubert... Falemos da velha tonta...
- A velha tonta que perdeu a neta
e anda, de porta em porta, a imitá-la...

Diz assim, aflautando a sua fala:

«Ó velha, conta... ó velha, conta
aquela história triste do poeta...»

- A velha tonta que perdeu a neta
todos os dias ajoelha
em frente da lamparina...

(O Cristo empenhou-o a velha
para salvar a neta pequenina...)

E a velha tonta reza à lamparina:

- «Meu Deus, perdoa-me a audácia
de ter teu Filho empenhado...
- Foi por causa da conta da farmácia...
Perdão, meu Deus, perdão!»

- E o Cristo, resignado,
em três meses de juro crucificado,
espera o dia do leilão.

Sidónio Muralha
(«Beco» - 1941)

Wednesday, 1 February 2017

A TRAIÇÃO


quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro de si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


Alexandre O'Neill

Monday, 30 January 2017

RENDIÇÃO


Vem, camarada, vem
render-me neste sonho de beleza!
Vem olhar doutro modo a natureza
e cantá-la também!

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!

Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
e cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão,
vem camarada irmão,
erguer sobre os meus versos o teu canto.


Miguel Torga

Tuesday, 24 January 2017

O MENDIGO QUE ENTREGAVA UM PAPEL


Atenda por favor: não posso trabalhar.
Sou, entre outras coisas, surdo-mudo,
e mortos são meus pais e três irmãos.
Sou surdo-mudo, sim. Estou quase cego.
Por piedade dê-me alguma roupa,
comida, calças, pois não tenho nada.
Se os nossos pés são iguais dê-me uns sapatos.
Sou surdo-mudo, solitário, quase velho.
Dê ao menos um escudo, ou uns tostões.
Socorra-me. Olhe para mim.
Não posso falar:
sou realmente surdo-mudo.

Devolva-me o papel. Não tenho cópia.


Glória Fuertes

Saturday, 21 January 2017

POEMA DO NOSSO FUTURO


Há-de trazer os nossos traços,
e a tua confiança, e a minha rebeldia,
e o dia, aquele dia, o nosso dia,
e eu hei-de recebê-lo dos teus braços

para que seja grande esse momento,
para que seja meu e teu,
- não hás-de ser como a Virgem Maria
que teve um filho que caiu do Céu...

- Hás-de embalar vertigens e cansaços.
Depois, hás-de parir em sofrimento,
para que seja grande esse momento
e eu possa recebê-lo dos teus braços.

Talvez eu consiga, então,
beijar a Vida nos olhos, devagar,
e dar-lhe o meu perdão,

- se ainda souber perdoar... -

Sidónio Muralha

PRELÚDIO

A minha poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;
mas eu não os arranco nem procuro:
- o meu sol de tragédia aquece, aquece,
e o fruto cai de maduro.

No resto, sou empregado de escritório
que não procura desvendar abismos,
e passa o dia (glorioso ou inglório)
a somar algarismos...

A minha poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;
mas eu não os arranco nem procuro:
- sei a miséria da estrada percorrida;
o meu sol de tragédia aquece, aquece.

- e o fruto cai de maduro
no chão da minha vida.

Sidónio Muralha