Sunday, 18 December 2016
NOS RAMOS DOS SALGUEIROS
E como poderíamos nós cantar
com o pé estrangeiro sobre o peito,
abandonados os mortos pelas praças
na dura erva gelada,
o balido impotente das crianças,
o uivo negro da mãe que tropeçava contra o filho
crucificado no poste telegráfico?
Nos ramos dos salgueiros, como um voto,
também as nossas cítaras pendiam
levemente oscilando ao triste vento.
Salvatore Quasimodo
Thursday, 15 December 2016
O MESMO CORAÇÃO E A MESMA CABEÇA
Não é para me gabar,
mas atravessei de um jacto, como uma bala,
os meus dez anos de prisão.
E se deixarmos de lado as dores no fígado,
o coração está igual,
a cabeça é a mesma de antes.
Nazim Hikmet
Monday, 12 December 2016
PROFECIA
Quando o palhaço, a quem os barões do carvão
deixam fazer de Chefe na nossa terra, tiver feito
de Chefe tempo bastante,
vai empreender no Continente todo
o papel de Chefe.
Quantos mais canhões tiver
mais ameaças vai soltar.
vai julgar: eles receiam a guerra, mas
um dia há-de ele ter a sua guerra.
Há-de berrar: a velha França
está cansada e quer sossego.
E virão contra ele esquadras de tanques da França.
Há-de berrar: para o povo inglês de merceeiros
a guerra é cara de mais.
E virá contra ele o ouro do Transvaal
e de ambas as Índias.
Há-de berrar: a América
fica muito longe, não tem exército.
E virá contra ele muito próximo
o exército da vasta América que constroi cidades
que têm cem andares.
Há-de berrar: só a União Soviética
espera por nós.
E hão-de vir contra ele os aviões
dos povos soviéticos, quatro vezes consecutivas.
Há-de berrar: os nossos amigos italianos
hão-de vir ajudar-nos.
E não virá ninguém.
E a Alemanha, que na última guerra
ganhou as batalhas todas menos a última,
nesta guerra, tirante a primeira,
há-de perdê-las todas.
Brecht
Friday, 9 December 2016
CELEBRAÇÕES
Celebrou Dona Ema seu aniversário natalício.
Santos & Santos, banqueiros, o trigésimo quinto ano do ofício.
Encerrou-se o emprego para celebrar a data do Poder.
Carlos e Branca celebraram nó doirado
ainda firme, já um tanto empoeirado.
Clandestinamente, estralejou o foguete
a celebrar o dia de que se querem esquecer:
(a História tem folhas asas
que às vezes não podem poisar.)
Num âmbito vigente de agasalho
celebrou-se o Contrato Colectivo do Trabalho:
quarenta e cinco páginas brancas,
oito capítulos novos,
noventa cláusulas gordas
- e uns salários negros, velhos, magros...
Francisco Viana
Tuesday, 6 December 2016
A NOSSA HUMANIDADE
Quando não deixarmos tudo nas mãos dos políticos
e os despojarmos de todas as auréolas míticas,
quando afirmarmos, convictos, que somos todos iguais
e ninguém nos diga que o axioma é falso,
quando resolvermos os problemas sentados a uma mesa
e, recusando a violência, aceitarmos o diálogo,
quando nos unirmos todos, se é um doido quem manda,
e o internarmos, decididos, em menos de uma semana,
quando as pessoas souberem de facto amar o seu próximo,
seja negro ou chinês, esquimó ou argelino,
então teremos alcançado o privilégio
da plena humanidade e verdadeira democracia.
Francesc Vallverdú
Saturday, 3 December 2016
CORAGEM
Paris tem frio Paris tem fome
Paris já não come castanhas na rua
Paris anda vestido de velha
Paris dorme de pé sem ar no metropolitano
Maior ainda a miséria imposta aos pobres
E a sabedoria e a loucura
de Paris infeliz
é o ar puro é o fogo
é a beleza é a bondade
dos seus trabalhadores famintos
Não peças socorro Paris
estás vivo de uma vida sem igual
e atrás da nudez
da tua palidez da tua magreza
tudo o que é humano se revela nos teus olhos
Paris minha bela cidade
fina como uma agulha forte como uma espada
ingénua e sábia
tu não suportas a injustiça
para ti a única desordem
Vais libertar-te Paris
Paris bruxoleante como uma estrela
nossa esperança sobrevivente
vais libertar-te da fadiga e da lama
Irmãos tenhamos coragem
nós que não usamos capacetes
nem botas nem luvas nem somos bem educados
Um raio se acende em nossas veias
os melhores de nós morreram por nós
e eis que o sangue dos que morreram nos volta
ao coração
e de novo é a manhã uma manhã de Paris
o extremo da libertação
o espaço da primavera que nasce
A força idiota está na mó de baixo
estes escravos nossos inimigos
se compreenderem
se forem capazes de compreender
vão levantar-se.
Paul Éluard
(Tradução de António Ramos Rosa)
Thursday, 1 December 2016
De ramo em ramo
O branco do linho ou dos muros
do sul,
o carmim matutino,
o claro azul mediterrâneo, o limão
húmido ainda,
o laranja, o verde das oliveiras
prateado, o amarelo exausto
de glória, o violeta adormecido
da flor que lhe dá nome,
o ocre do trigo ceifado
o negro quase
materno da terra lavrada,
é nos olhos que são ave
de ramo em ramo concertada.
Eugénio de Andrade
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