Wednesday, 18 June 2014
Nos Teus Gestos
Nos teus gestos há animais em liberdade
e o brilho doce que só têm as cerejas.
É neles que adormeço, e dos teus dedos
retiro a luz azul dos arquipélagos.
Os teus gestos são letras, sílabas, poemas.
Os teus gestos são páginas inteiras. São
a tua boca a namorar na minha boca,
o cio dos séculos a saudar o tempo.
São os teus gestos que me acordam. Gestos
que vestem o silêncio fundo das ravinas
e assinalam a água dos desertos.
Os teus gestos são música. São lume.
São a respiração do teu olhar. A seara
de espigas que ondula no meu corpo.
Joaquim Pessoa
Sunday, 15 June 2014
Princípio
ERA uma vez...
... é uma história sem feiticeiras,
sem sapatinhos que se perdem e se encontram;
sem reis, sem princesas,
sem Ilhas Afortunadas.
Talvez toda, talvez em parte
se pareça com outras histórias que alguém sabe,
histórias repetidas em voz baixa
porque estamos na hora do medo,
na hora do silêncio...
Também eu tenho de calar-me;
há gente de mais a ouvir.
Félix Cucurull
Thursday, 12 June 2014
Miniatura
Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança, também…
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.
É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente.
Miguel Torga
Monday, 9 June 2014
CANDIDATO CAÔ CAÔ
Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha e bebeu cachaça, e até
bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato,
eu logo percebi
é mais um candidato
às próximas eleições
às próximas eleições
às próximas eleições
Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá, «deu azar»...
A entidade que estava incorporada
disse: «Esse político é safado,
cuidado na hora de votar
Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater
Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe prender
Hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater.
Eu falei p'ra você, viu?»
Nesse país que se divide
em quem tem e quem não tem
sempre o sacrifício cai no braço do operário.
Eu olho para um lado
eu olho para o outro
eu vejo desemprego
vejo quem manda no jogo.
E você vem, vem
pede mais de mim
diz que tudo mudou
e agora vai ter fim
Mas eu sei quem você é
e ainda confio em mim
sei que o jogo é sujo
mas eu não desisto assim.
Você me deve
você me deve.
Hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ele vai, vai, vai te foder
hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ó!
Walter Meninão
Friday, 6 June 2014
É Isto o Amor
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste".
Nuno Júdice
Tuesday, 3 June 2014
REJEITO
Não me engraxem os sapatos
nem me cortem o cabelo.
A barba já me cresceu
com pujança.
Os meus farrapos revelam
que sou um homem livre.
Quando percorro os atalhos
vencido pelo desalento,
ouço os homens que ladram
pela boca dos seus cães.
Hoje vomitei
as côdeas que me deram.
A esmola dava-me volta
ao estômago e deixava-me
um gosto amargo na boca.
Por caminhos de tojos
empreendi o meu exílio.
Caminho pelo mundo fora...
e o regresso agarra-se-me
aos pés doridos
e aos braços que se descerram
numa ânsia de abraçar.
Porém rejeito o preço
que me querem impor
estes homens que ladram
pela boca dos seus cães.
Félix Cucurull
Sunday, 1 June 2014
Agora
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?
Miguel Torga
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