Friday, 18 April 2014

O rumor de tantas águas


Inclino-me levemente sobre a nudeza devassada pelos anos. Um rio suspende a corrente em meus lábios rodeados pelo rumor de tantas águas. Quero que a linguagem simbolize um templo de absolvição e reza nas palavras em fuga pelos olhos. Deponho sobre o altar o naufrágio que começa em muitas bocas.
Graça Pires

Tuesday, 15 April 2014

FIANÇA


Como uma só cara tenho,
tenho uma palavra só.
Quem tem duas faz-me dó,
ou, pior, dele desdenho.
Sabedor de donde venho,
certo de para onde vou,
embora cego de pó,
em me encontrar me entretenho.
Sou senhor de algum engenho
e tenaz também o sou.
E àqueles a quem me dou
em dar-me inteiro me empenho.

Armindo Rodrigues

Saturday, 12 April 2014

Cadeiras vazias


Em cardume
nos olhos dos peixes
lá estavam os pescadores

Na véspera dos relâmpagos
e outros afectos
dulcíssimos corações
clareavam as noites
e nós só podíamos fazer
o que fizémos

sentámos à mesa
os ausentes
levitámos em voz alta
o sussurro das marés
recolhemos metáforas
e algumas estrelas
no chão das águas

soltámos um grito

celebrámos as cadeiras vazias

Eufrázio Filipe

Wednesday, 9 April 2014

E o vento trouxe este coro de presos do Aljube


«Houve, Noite:
só nós, os que não acreditamos no céu,
tivemos coragem de gritar a esta carcaça a fingir de vida: NÃO!

Nós, sem morte nem mundo,
para aqui a apodrecer nas tumbas do sol secreto
e a sonhar com um céu para os outros na Terra
que só o ódio vê.

E é esta a nossa guerra.
E é esta a nossa fé.»

José Gomes Ferreira

Sunday, 6 April 2014

No princípio dos pássaros


Nunca foi importante
salvar o mundo
construir poemas
com palavras inintelegíveis

saber se és vento
barco relâmpago
mulher incerta
metáfora
escarpa
ou flor de estação

importante é quando passas
corpo de seara
sem magoar os cravos

e dulcíssima te desfolhas

Sempre me apaixonei
por esta desordem de cores
quando passas

não pelos teus passos
mas pela sua leveza
como no princípio dos pássaros

Eufrázio Filipe

Thursday, 3 April 2014

NA VARANDA DE FLORBELA


Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

Eugénio de Andrade

Tuesday, 1 April 2014

Cometes o erro


Cometes o erro de não querer
cometer erros. Se tu pensas a dúvida, o erro pensa-te.
A alegria do erro está na tua perfeição,
uma ironia que é também o contrário,
vive nos teus gestos, nos teus olhos, no olhar
por detrás dos teus olhos, no que dizes
para não errar. Que sabes tu de ti,
que sabes tu dos outros que não seja
que em todos aconteces, que estás em tudo
e tudo está em ti ainda antes
de em ti permanecer. A tua força
está no que aconteceu, no que há-de acontecer,
mesmo que não saibas que o que não aconteceu,
aconteceu sem que o soubesses.

E que sei eu, mais do que tu?


Joaquim Pessoa
in O POUCO É PARA ONTEM