Friday, 18 October 2013

O BICHO

Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Tuesday, 15 October 2013

O GLOBO


Ofereçamos o globo às crianças, ao menos por um dia.
Para que brinquem com ele como se fosse um balão multicolor.
Para que brinquem e cantem por entre as estrelas.
Ofereçamos o globo às crianças,
entreguemo-lo como uma maçã enorme
como uma bola de pão quente.
Que ao menos por um dia comam até se fartarem.
Ofereçamos o globo às crianças.
Que ao menos por um dia o mundo aprenda a camaradagem,
As crianças tomarão o globo das nossas mãos
e plantarão nele árvores imortais.

Nazim Hikmet

Saturday, 12 October 2013

TELEGRAMA DE MOSCOU


Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia eléctrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
A que se chamava
e se chamará sempre Stalingrado
- Stalingrado: o tempo responde.


Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, 9 October 2013

Cantámos em redor da Estátua


Em multidão
os homens parecem maiores do que são.

Nela,
a nossa voz,
tão rude quando cantamos sós,
parece mais bela.

Num coro de cantar
sai cá para fora
tudo o que há em nós de sol-treva no luar.

(O resto - os sonhos mesquinhos -
fica para a solidão
dos caminhos.)


José Gomes Ferreira

Sunday, 6 October 2013

CARTAS NA MESA


Vou pondo cartas
dos meus amigos
sobre esta mesa
de conivência

E, a sós, descubro
que viver só
não é poesia
nem é ciência...

Raul de Carvalho

Thursday, 3 October 2013

Todo o dia e toda a noite grunhe

Todo o dia e toda a noite grunhe
em forma de símbolo debaixo do meu quarto

Eh! vizinho porco,
todo o dia de borco
a foçar na terra onde nasceu!
Ensine ao aldeão
a sua lição
de pensar menos no céu
e mais no chão.

(Na terra, camponês,
também há estrelas
que tu não vês...
Mas hás-de vê-las.»

José Gomes Ferreira

Tuesday, 1 October 2013

É PRECISO AVISAR TODA A GENTE




É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
é preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores.

João Apolinário