Tuesday, 18 June 2013
DRAMA
A quem falo no mundo? Por quem foi
esta bandeira branca de poeta?
A quem descubro a chaga que me rói
por não ser seu artista e seu profeta?
A quem arranco com beleza a seta
do calcanhar humano que lhe dói?
A quem vejo chegado à sua meta,
novo senhor da terra e novo herói?
A nenhum homem, que a nenhum conheço.
Água de um rio que não tem começo,
nas duas margens sinto o mesmo não.
Mas na direita a vida é gasta e velha...
Só na outra uma chama se avermelha
capaz de me aquecer o coração.
Miguel Torga
Saturday, 15 June 2013
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
Wednesday, 12 June 2013
O BURGUÊS
A gravata de fibra como corda
amarrada à camisa mal suada
um estômago senil que só engorda
arrotando riqueza acumulada.
Uma espécie de polvo com açorda
de comida cem vezes mastigada
de cadeira de braços baixa e gorda
de cómoda com perna torneada.
Um baú de tolice. Uma chatice
com sorriso passado a purpurina
e olhos de pargo olhando de revés.
Para dizer quem é basta o que disse
é uma besta humana que rumina
é um filho da puta é um burguês.
José Carlos Ary dos Santos
Sunday, 9 June 2013
Liberdade
Quem marca uma fronteira
àquela nuvem
a asa que é a sua sombra
onde mora?
Sob as mordaças
calam-se as palavras
mas ninguém te cala
pensamento.
Quem manda à semente
não germines
ao fruto dela
que o não seja?
Amarram-se os pulsos
com algemas
mas ninguém te amarra
pensamento.
Quem impõe ao dia
que não nasça
ao sol que é a sua fonte
que não brilhe?
Fecham-se as janelas
com tapumes
mas ninguém te cega
pensamento.
Quem diz ao amor
é impossível
à lembrança que é seu laço
que o não seja?
Separam-se os amantes
na distância
ninguém te roubará
meu pensamento.
Joaquim Namorado
In “A Poesia Necessária”
Thursday, 6 June 2013
As palavras que eu cantei
Quanto caminho cantado que eu andei
Quanta palavra secreta te inventei
Quando eu parti transportava
Uma angústia que não sei
E não era mais que as palavras que eu cantei
A palavra amor pôs-me os olhos rasos de água
A palavra ausência pôs-me as mãos cheias de mágoa
E quando as cantei eu vivi tudo quanto pressenti
Dentro das palavras que eu cantei mas não escrevi
A palavra dor que era minha foi dos outros
Soltei as palavras como asas, como potros
Arranquei de mim e cantei, cantei até ao fim
A canção de amar, de cantar por ser assim...
Foi por ti que eu lutei
Foi por ti que eu parti
Foi por ti que eu calei
E morri!
Foi por ti que eu voltei
Foi por ti que eu nasci
A canção que eu conquistei
Porque a sofri!
Canção é sol, é água, é fúria, é vento
Canção é mar do sal do sofrimento
E por isso eu sou quando canto
A lança que lancei
Como se vingasse as palavras que eu cantei.
José Carlos Ary dos Santos
Monday, 3 June 2013
ENVENENA-ME
Aperta-me forte
ao coração
Abraça-me depressa sobre as asas
*
Debruça-te em mim
e porque não?
Envenena-me de ti porque me salvas
*
Maria Teresa Horta
In "Só de Amor" - 1999
Saturday, 1 June 2013
QUEM SE DÁ AO QUE SE DEVE
Quem se dá ao que se deve
nada deve ao que se dá.
Não raro a distância é breve
da decisão boa à má.
A simples espinha sugere
à razão um peixe inteiro.
Para a pobreza entender
há que sofrê-la primeiro.
O mal é que algo se acate
apenas por boa fé.
Se mau for, má morte o mate.
Se for bom, prove que o é.
Armindo Rodrigues
Subscribe to:
Posts (Atom)