Sunday, 6 January 2013
IRENE NO CÉU
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Manuel Bandeira
Thursday, 3 January 2013
Como nascem as bandeiras
O povo bordou-as com a sua ternura,
Coseu os panos com o seu sofrimento.
Gravou a estrela com a sua mão ardente.
E tirou, da camisa ou do céu,
Azul para a estrela da pátria.
O vermelho nascia, gota a gota.
Pablo Neruda, em Canto Geral
Tuesday, 1 January 2013
AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já, uma grande festa!
Alexandre O'Neill
Sunday, 30 December 2012
estética do domínio
as moscas vagueando pelas bocas dos famintos,
tornaram heróis quem lhes manda arroz à beira do prazo de validade,
quem usa na lapela um broche de caridade.
arrepiam-te os olhos esbugalhados da criança em sangue,
mas entorpece-te a habituação, toma-te uma certa vontade que se esgota
no anúncio do patrocinador do world press photo.
imunizam pela estética a revolta, volvendo-a piedade,
os ossos da miséria montam cadáveres pelos campos estéreis,
arrasados pelo napalm e fósforo da liberdade.
contemplação de um belo nascido do lodo que esconde
o que mais feio há na verdade.
que belo não é o choro, é o que o acaba.
não é a fome, mas o que alimenta.
belo não é o osso despido, mas a pele que o cobre,
belo não é carpir lamentações, é fazer revoluções.
Miguel Tiago
Thursday, 27 December 2012
sacrifício
morrem os filhos enquanto a terra bebe o sangue dos famosos terroristas
que ousam levantar pedras contra os canhões.
deus,
em teu nome assassinam,
em teu nome cobrem de lágrimas e de mortalhas as crianças,
em teu nome lucram,
em teu nome roubam,
em teu nome, em teus nomes.
que vestes te cobrem agora senão a vergonha de estares escondido
e ainda vivo.
Miguel Tiago
Monday, 24 December 2012
"the future will see all History as a crime. So, Father, tell us when is the time to rise"
um só rosto levantado é um facho aceso
na escuridão.
num povo amordaçado,
um só grito é uma explosão,
que no horizonte fixa o caminho, da poesia e também do pão.
entre gente acorrentada,
um só punho erguido é inspiração,
é fogo que funde o ferro da nossa prisão.
não há voz de comando para o coração revolucionário,
não esperemos um sinal, desnecessário.
vendados os nossos olhos,
haja quem no-los desvende, herói de vanguarda passo a passo.
se nos prende o ferro, juntos seremos aço,
se nos prostra a escuridão, juntos acenderemos a fogueira da imaginação,
se nos amordaça o silêncio, juntos seremos povo, música e canção.
assim seja cada um de nós o primeiro a levantar o rosto,
e que ninguém seja sozinho o primeiro.
Miguel Tiago
Friday, 21 December 2012
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