Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas e granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.
Egito Gonçalves
Friday, 18 November 2011
Notícias do bloqueio
Tuesday, 15 November 2011
POÉTICA
Quando se nos acabam as palavras,
no momento preciso em que nos fartamos de Saint John Perse
e J.R.J.
(poetas decididamente respeitáveis)
quando vamos olhando as coisas, vivendo entre as coisas
com um amor profundo
e uma melancolia que deve qualificar-se ainda assim de
"profunda sem dúvida",
no instante em que recebemos uma estranha espécie de patada
no peito e as coisas nos correm bem e estamos bem,
quando estamos entre gente e estamos sós,
se estamos sós e todo o mundo está connosco,
se ficamos a olhar um ponto fixo -
há que continuar.
Apesar dos que prefeririam palavras mais tranquilas,
talvez por eles mesmos,
pelo que vale tudo para todos,
pelos que choram e não são ouvidos,
pelo que fazemos juntos, enquanto restem
tantos sofrimentos, tantas decepções -
há que continuar.
Digo: estender o pescoço, cerrar os dentes
e continuar
digam os comemerdas o que quiserem.
Ou para o dizer de uma maneira definitivamente mais clara:
cagar-se na notícia.
Guillermo Rodriguez Rivera
Saturday, 12 November 2011
Nova vassalagem
Subitamente os periódicos, a rádio,
propõem virilmente a indignação.
Doloroso é o instante em que a fissura
ameaça a ordem, abala a tradição,
golpeia a calma espessa que sugere
falsamente uma paz.
É preciso de novo, é necessário
confirmar.
Aqui, além, os esteios renem.
Falam do tempo, dos seus vários comércios;
pesam o valor do susto que os ronda.
Redigem o impresso, a anestesia. Assinam
em rigorosa ordem hierárquica.
O telegrama parte.
Egito Gonçalves
Wednesday, 9 November 2011
LOUVOR DO REVOLUCIONÁRIO
Quando a opressão aumenta
muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
pelo tostão do salário, pela água do chá
e pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?
Onde quer que todos calem
ali falará ele
e onde reina a opressão e se fala do Destino
ele nomeará os nomes.
Onde se senta à mesa
senta-se a insatisfação à mesa
a comida estraga-se
e reconhece-se que o quarto é acanhado.
Pra onde quer que o expulsem, para lá
vai a revolta, e donde é escorraçado
fica ainda lá o desassossego.
Bertold Brecht
Sunday, 6 November 2011
ELOGIO DA DIALÉCTICA
A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, quem há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca, será: ainda hoje.
Bertold Brecht
Thursday, 3 November 2011
Quem é o teu inimigo?
Ao que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão, chama-lo teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
do teu ladrão que nunca teve fome.
Bertold Brecht
Tuesday, 1 November 2011
Fábula
O lobo foi ter
com a galinha
e disse-lhe:
«Devíamos conhecer-nos
melhor para vivermos
com amor e confiança»
A galinha achou bem
e foi com o lobo.
Foi por isso que as suas
penas ficaram espalhadas
por todo o lado.
Bertold Brecht